Uma fuga de Natal — Maicon Almeida

Quem disse que uma noite aparentemente terrível, não pode se tornar um momento incrível e cheio de aprendizados?

Maicon Almeida traz para o nosso desafio de Natal uma história encantadora. Leia com carinho, você vai tirar muitas lições!

Para todos que mesmo triste e de coração partido ainda tem forças para enfrentar a vida e ver o melhor dela. Eu queria ser ⅓ do que vocês são.

— Vai sair? — perguntou Diego, enquanto eu fechava o último botão da minha camisa.

Ele havia esquecido o que eu iria fazer na noite de hoje. Ele sempre esquece tudo o que eu digo, e eu ainda me pergunto o porquê dele fazer teatro na faculdade.

— Hoje é o grande dia! — falei, olhando pela última vez como eu estava.

Blusa azul escuro, a cor favorita dela. Calças jeans, que eu havia comprado especialmente para hoje. Sapato branco, que era o único que eu tinha que não estava com ar de velho. Perfumado. Tudo perfeito.

— Hum — ele resmungou em dúvida. —  Grande dia de quê?

Me virei e o encarei. Diego ainda estava de toalha e com o cabelo encharcado de água.

— Eu vou pedir Ellen em namoro.

O rapaz me olhou um pouco confuso e depois sorriu.

— Que legal, cara! Vai nessa! — exclamou.

Olhei mais uma vez para o espelho.

— Como eu estou?

Ele se sentou na cama, me encarando pelo reflexo.

— Normal.

— Normal? Só isso?

— Sim. Tá bacana, Natan.

Que espécie de colega de quarto era o Diego?

— Me diz se essa roupa está boa para hoje!

— Eu acho que está — ele riu.

— Valeu, Diego! Me ajudou muito!

— Por nada, irmão. “Tamo junto”!

Na minha opinião, a única que estava importando no momento, eu estava bem. Peguei a carteira e caminhei para fora do quarto.

— Não tranque a porta — falei antes de ele deixar cair a toalha e andar pelado pelo quarto enquanto eu a fechava.

Caminhei pelos corredores em direção ao portão principal. Diego e eu dividíamos um quarto nos dormitórios que a universidade oferecia para os alunos que vinham de cidades mais distantes. Diego cursava teatro e estava no quinto semestre. Eu cursava contabilidade e já estava no quarto.

— Aproveite a noite de Natal, Sr. Natan — desejou o responsável pelo portão, que estava passando a noite vigiando alunos desconhecidos no feriado.

Eu havia ligado para a minha mãe e contado a ela o porquê de eu não poder estar em casa nesse Natal e que não se preocupasse, que eu ligaria para contar tudo depois. Ela ficou feliz e me desejou boa sorte. E então aqui estava eu, saindo pelo portão e encarando a cidade iluminada

— Você também, João! — respondi.

Virei a esquina e comecei a minha caminhada até ao campus de Ellen, que ficava a uns vinte e cinco minutos de caminhada. Eu poderia muito bem pagar um táxi e chegar lá mais cedo, mas eu precisava do dinheiro para pagar o cinema, caso fôssemos. O cinema da cidade exibia hoje, durante toda a noite, vários filmes com tema Natalino, e depois que ela dissesse “sim” poderíamos ir.

Ellen e eu já estávamos saindo há dois meses. A conheci através da amiga do Diego, Yanna, que era caidinha por ele, que por sua vez não percebia. Havíamos marcado de sair e tomar algumas cervejas depois das provas e ela disse que uma amiga que fazia enfermagem ia junto. Foi nessa ocasião que eu conheci a Ellen. A gente conversou por um tempo, enquanto Yanna insistia em “dar em cima” do Diego, que estava mais de olho nas cervejas do que nela.

Dias mais tarde, a gente marcou de sair só nós dois, como se fosse um encontro, mas sem esse peso do termo. Conversamos durante horas sobre como estava a universidade, sobre os planos futuros para quando nos formássemos.

— Eu quero muito visitar outro país e quem sabe trabalhar por lá — ela disse.

— Você não gosta da cidade? Morro Belo tem bons hospitais — falei.

— Eu sei, mas eu quero sair, viajar, conhecer pessoas novas, novas culturas, aprender outro idioma. Não ficar limitada aqui, entendeu?

— Sim! Você quer conhecer o mundo. Acertei?

— Todo canto dele — rimos.

E depois nos beijamos.

Em dois meses você podia conhecer muito bem uma pessoa. Em dois meses você podia ver que alguém te completa e destruir o pensamento de que você iria permanecer sozinho. Ellen chegou e fez eu dar um novo sentido para minha vida, me fez desejar que todos os meus planos a envolvessem. Dois meses. Sessenta dias. Era muito tempo. Tempo suficiente para escolhê-la em todas as hipóteses.

Eu havia marcado com Ellen de sairmos nessa noite. Eu tinha planejado tudo: eu iria buscá-la, depois íamos passear pela praça, íamos num pequeno restaurante não muito longe do campus e aí eu a pediria em namoro e ela diria “sim”. Plano arquitetado, era só agir. Em pouco tempo, cheguei em frente ao campus e mandei uma mensagem para Ellen.

>> Natan: Estou no portão.

Em segundos, ela respondeu.

>> Ellen: Estou saindo.

Dei alguns passos um pouco nervoso. Minhas mãos suavam. Olhei de volta para o portão e lá estava ela, sorridente e linda. E ali eu decidi: eu a queria.

— Oi — ela disse, me dando um abraço. Pude sentir seu perfume doce.

— Oi — respondi, correspondendo.

— Você está lindo!

— Você está mais — sorri.

Ela sorriu também.

— Onde vamos? — Ellen perguntou.

— Caminhar antes de irmos ao restaurante.

— Tudo bem.

— Vamos? — ofereci o braço.

— Vamos.

Ela passou o braço pelo meu e eu pude sentir a pele dela mesmo sob as roupas. Estava um pouco fria e ela não havia trazido casaco. Nem eu. Eu deveria ter pensado nisso. Idiota!

Caminhamos até chegar à praça perto do campus, uma que levava o nome de um ex-prefeito, que havia lutado pelo direito dos escravos da cidade. No Natal, as árvores eram cobertas por pequenas luzes, que deixavam a praça ainda mais iluminada. Uma pequena árvore tinha sido colocada para parecer com um pinheiro de Natal e os moradores podiam enfeitá-la. Do lado, numa barraquinha, uma senhora com um capuz vermelho vendia algumas decorações para colocar na árvore, que já estava enfeitada pela metade. Ellen me levou até ela.

— Quero essas duas renas! — Ela pediu, animada.

— Aqui está — a vendedora nos entregou as renas. —  São quatro reais.

Coloque a mão no bolso, puxando a carteira. E a mão de Ellen me impediu.

— Deixa que eu pago.

— Não, eu pago.

— Não, eu quero fazer isso — ela disse e entregou o dinheiro que havia tirado da pequena bolsa.

Eu balancei a cabeça, em afirmação. Ela me entregou uma das renas e me puxou até a árvore. Procurei um lugar e coloquei a minha. Em seguida, Ellen colocou a dela.

Caminhamos mais um pouco, observando o céu e as pessoas que passavam por nós. Vimos algumas crianças que andavam de bicicleta, alguns casais que se beijavam debaixo das luzes e um casal de idosos de mãos dadas, sentados em um banco olhando as pessoas, assim como nós.

Decidi não mais esperar e fazer o pedido. Eu estava em uma mistura de nervoso e ansiedade. Eu precisava dela e, nesses dois meses, eu constatei isso. A verdade é que todos nós precisamos de alguém que nos motive a sair da cama, a criar coragem e fazer o que a gente mais deseja, a viver o dia e tudo o que ele nos oferece e ficarmos felizes por ter alguém nos esperando ao fim dele. Sempre imaginei que pessoas são como faróis, elas iluminam os que estão em suas vidas, deixando-as mais seguras e tirando-as da escuridão. Ellen era o meu farol e eu desejava ser o dela.

— Tenho algo pra te dizer, Ellen — parei e a encarei.

— Pode contar.

Segurei suas mãos, tentando aquecê-las. Olhei em seus olhos e o quanto eles eram lindos. Continuavam a me olhar do mesmo jeito que me olharam antes de eu beijá-la pela primeira vez. O frio em minha barriga parecia ser mais gelado que o ar a nossa volta.

— Ellen, nós já nos conhecemos há dois meses. Dois longos meses, esses que você me permitiu fazer parte da sua vida, do seu dia. Nós já saímos inúmeras vezes e toda vez eu ainda fico nervoso. Você se tornou alguém importante pra mim.

Ela olhou para os lados e em seguida para mim.

— Eu sei que eu poderia ter dito isso antes, mas eu quis esperar dois meses para que você pudesse me ver por completo, ver o quão eu sou diferente com você, o quanto você me faz bem.

As pessoas passavam ao nosso redor, nos encaravam por alguns instantes e iam embora. Talvez eles soubessem o que estava acontecendo e queriam presenciar a resposta que estava por vir. Um “sim” poderia significar muita coisa: uma aceitação, um começo, uma salvação. Poderia mudar duas pessoas e toda a relação entre elas.

— Vou ser direto, Ellen — eu estava nervoso. —  Você quer namorar comigo?

Ela olhou novamente para os lados e senti quando suas mãos já não estavam nas minhas.

— Olha, Natan, esses dois meses foram bem legais. Você é divertido, alegre e um ótimo ouvinte, gosto disso em você. Mas… — ela começou.

Ouvi um “mas” e eu tinha em mente que ele me destruiria. Não só a mim como tudo o que eu já havia imaginado. Os planos, sonhos e metas. Aquele “mas” foi o começo do fim antes mesmo de um verdadeiro início.

— Eu saí de um relacionamento antes de te conhecer e, me desculpa mesmo por dizer isso, mas a verdade é que eu não estou preparada para encarar outro. Eu ainda preciso de tempo para mim.

Fim! De tudo!

Senti o frio na minha barriga ir embora. Olhei para os lados em busca de alguma coisa e olhei para ela. Eu entendia. Talvez o relacionamento que ela teve a deixou desacreditada em uma nova possibilidade. Talvez não haja espaço para mim, porque outra pessoa ainda insiste em ocupar. Talvez eu fosse só um auxílio. Apenas uma companhia.

— Me desculpa mesmo, Natan.

— Tudo bem — falei de cabeça baixa e comecei a caminhar.

— Natan  — ela chamou. —  Natan!

— Eu preciso de espaço — falei baixinho, andando apressado.

Ela veio atrás de mim.

— Eu não quero que você fique triste comigo. Eu só não estou… preparada.

Ela não me amava.

Amor. Algo que todos buscavam e lutavam para encontrar. Diziam que, quanto maior o amor, maior a felicidade. Mas a verdade, aquela que ninguém conta, é que, quanto maior o amor, maior a destruição quando ele não acontece.

— Tudo bem, eu entendo! — Senti algumas lágrimas se formarem e então eu corri.

Sem rumo. Corri até que uma dor na lateral da barriga me parou. Corri mais um pouco e entrei em um táxi, que estava parado perto de um posto de gasolina. Longe da praça e de Ellen.

— Eu já tenho uma corrida! — Uma voz disse assim que entrei.

Limpei as lágrimas que caíam.

— Me tira daqui — pedi. — Por favor, só me tira daqui

Eu queria ir pra longe, queria esquecer essa noite. Queria não ter criado tanta expectativa, queria não ter me deixado apaixonar por ela. Mas, por mais que eu estivesse com raiva, eu a entendia. Quando alguém nos deixa em pedaços, ficamos com um certo medo de que todos que entrarem em nossas vidas façam o mesmo. Algumas vezes, a escolha de um recai sobre todos os outros. Alguém a magoou e agora eu não tenho a chance de tê-la.

— Você tem sorte, minha corrida acabou de ser cancelada — a voz era um pouco fina. Não era de homem. Era de mulher. E uma irritada.

Coloquei as mãos no encosto dos bancos e me inclinei para confirmar. E era verdade, era uma mulher.

— Então você é uma motorista — concluí.

— Sim. Algum problema? Vai vir com aquela piadinha de “mulher no volante, perigo constante”?

— Não! De jeito nenhum!

— Ao menos um que não é metido a engraçadinho — ela comentou, com uma leve ironia.

— Não seja grossa! Eu não quis insinuar isso!

— Você entra no meu carro e bate a porta, queria que eu abandonasse a corrida que já estava agendada e eu sou a grossa? Cara, você é muito louco!

Ela não tinha papas na língua.

— Se você quiser eu posso sair.

— Não — ela virou-se para mim.—  Me desculpa. É que já foi o segundo cliente da noite que cancelou a corrida por eu ser mulher. Acabei descontando minha frustração em você.

Eu não a culpava.

— Tudo bem. Não estamos tendo uma noite de Natal muito boa.

Ela girou a chave e o carro emitiu um barulho.

— É, não estamos. Para onde quer ir? — indagou, olhando para trás e dando ré.

Passamos debaixo de um poste e pude ver um pouco dela. Cabelos escuros, curtos e enrolados.

— Campus norte da faculdade Milton Freitas.

— Certo! Chegaremos em breve — a motorista confirmou e apertou um pequeno aparelho em cima do porta-luvas. O taxímetro começou a contar.

Eu olhava pelo vidro as ruas escuras, iluminadas apenas pela pouca luz que vinha dos postes ou das casas. Nunca um Natal havia sido tão ruim quanto esse. Viramos a esquerda e paramos. Olhei para a frente e vi um engarrafamento na avenida principal.

— Droga — a motorista disse.

— O que aconteceu? — perguntei

— Houve um acidente ali na frente. Parece que um carro bateu em um poste. Mas a polícia está cuidando de tudo. Acho  que vamos ficar parados aqui por um instante — ela disse e desligou o aparelho, que marcava 03:46.

Ótimo. Eu tinha levado um fora e agora estava preso no trânsito. Lindo Natal!

— Qual o seu nome? — ela indagou.

Ela estava puxando conversa. Olhei para frente.

— Natan. E o seu?

— Alice.

— É um nome bonito.

— Natan também não é de todo ruim.

Olhei para ela e ela emitiu um riso baixo.

— Brincadeira, para quebrar o gelo.

— Tudo bem — falei

Encarei mais uma vez a janela ao meu lado.

— Você pareceu bem triste quando entrou. Está tudo bem?

— Não. Mas vai ficar.

— Quer conversar sobre isso?

Não, eu não queria. Eu só queria ir para a minha casa. Na verdade, para a minha parte de cima da beliche.

— Não. — respondi.

— Olha, vamos demorar um tempinho aqui. Conversar ajuda a passar o tempo mais rápido. — Alice explicou.

Ainda doía em mim as palavras de Ellen. Doeria mais ainda dizê-las em voz alta.

— Não quero conversar sobre isso.

— Por que não? Está com medo?

— Medo do que?

— De confessar sua tristeza.

— E por que eu teria medo disso?

— Quando falamos sobre nossas tristezas, nos revelamos para quem nos ouve.

— Eu só não quero tocar no assunto. Pode ser?

— Claro.

O silêncio durou um segundo.

— Por que você não está com sua família na véspera de Natal? — Alice perguntou. De novo.

Ela estava sendo agradável, tentando puxar conversa para que o tempo não fosse tão cruel. Eu poderia tentar ser gentil também. Contanto que o assunto “Ellen e o fora” não fosse o centro da conversa, não me mataria.

— Eu decidi passar com alguns amigos.

— Isso é bom!

— E você — devolvi a pergunta —, por que não está com a sua família?

— Digamos que essa não é uma data festiva para nós.

— Não gostam do Natal?

— Não.

— Por que não? Acho que não conheço ninguém que não ame o Natal.

Ela respirou fundo.

— Minha irmã gêmea morreu há 3 anos, num acidente de carro na véspera do Natal.

— Me desculpa. Eu não…

— Tudo bem. Já não dói tanto falar sobre ela — o carro foi mais para frente, parando perto do caminhão de refrigerantes.

É engraçado como não podemos ver as dores que os outros carregam. Às vezes, as pessoas mais sorridentes são aquelas que possuem os maiores motivos para viverem tristes. Algumas vezes, as que tem mais alegria são aquelas que possuem grandes motivos para chorar. Outras vezes, as mais corajosas são as que andam lado a lado com seus medos. Não podemos ver as dores que os outros carregam, mas podemos ser gentis para aliviar o fardo. Podemos ser simpáticos para que ele se torne mais fácil de carregar.

Alice me contou uma de suas dores. Talvez porque ela nunca mais vá me ver. Eu sou passageiro, sou mais um naquela noite. Sou um estranho que entrou em seu táxi, mas que vai descer em algum lugar e continuar a vida. Ela não me veria mais, assim como eu a ela. Mas me marcara. Eu estava carregando algo dela. Quando você mostra sua dor ao outro, você divide com ele uma pequena quantidade dela.

O carro acelerou e paramos ainda mais à frente. Pude ver os polícias fazendo o esforço de tirar o caminhão, que estava com a frente toda amassada, do caminho. Mais alguns minutos e estaríamos na rota novamente.

— É por isso que está sendo motorista de táxi? — quebrei o silêncio.

— Sim. Me torna ocupada demais para visitar a família. Eu meio que estou cansada de chorar por ela. Quero viver minha vida enquanto eu ainda a tenho, enquanto ela não é tirada de mim por Deus ou por outra pessoa.

— Eu sinto muito mesmo.

— Não sinta. Dizem que tudo na vida acontece por uma razão. Quero acreditar nisso.

Mais silêncio.

— Parece que a noite com seus amigos não foi tão divertida. São 20 horas e você já está indo para casa.

Alice havia me contado algo íntimo. E a conversa foi muito boa, mesmo com o assunto pesado. Eu poderia fazer o mesmo, assim o caminho não seria tão longo. Uma conversa poderia diminuir distância entre lugares ou pessoas.

— Realmente não foi. Eu levei um fora.

— Na noite de Natal? Não acredito! — Disse ela, abrindo a boca como se não estivesse acreditando.

Eu também não havia acreditado.

— Pois é. Eu pedi uma garota em namoro e ela disse não.

A via foi liberada e voltamos para a nossa rota.

— Como foi? Me conta. Vocês já se conheciam bastante?

— Dois meses inteiros.

— E mesmo assim ela disse não? Cara, eu já namorei garotos que eu conheci com uma semana. Em dois meses, eu teria casado.

Foi impossível segurar o riso.

— Acredite — comecei —, eu me preparei durante esse tempo para que o pedido fosse perfeito. Eu ensaiei minhas falas. E quando eu cheguei ao final e fiz o pedido…

— Ela disse não.

— Isso. Ela disse que não estava preparada, que havia se relacionado com outro cara antes de mim e precisava de tempo.

— Pelo menos ela foi sincera. Algumas pessoas realmente não estão preparadas e, quando assumem isso, evitam que outras sofram. Tem pessoas que se relacionam apenas para brincar com os outros. Uma coisa de vai e vem, sem intenção de ficar.

— Eu entendo ela, mas sei lá. Fiquei um pouco triste, sabe?

— Eu compreendo. Às vezes, só nos resta aceitar, principalmente as decisões de outras pessoas. Aceitar que não podemos controlar tudo e, por mais que se planeje algo, sempre corre o risco de não sair conforme queremos.

— E essa é a pior parte.

Leveza. Foi isso que eu senti. Eu precisava colocar para fora e Alice era uma boa ouvinte, mesmo me interrompendo.

— Vou colocar uma música para animar — ela disse e clicou num botão no rádio. Em instantes, uma melodia começou a tocar. Uma música de Natal.

— Gosta dessa? — perguntou quando virou a esquina do meu campus.

Eu nunca ouvira aquela música.

— Muito boa.

— Você não conhece. Acertei?

— Não mesmo!

— Como assim você não conhece All I want for Christmas is you e Mariah Carey? Ela é a maior cantora desse planeta! Essa música é um hino atemporal de Natal.

— Nunca ouvi uma música dela. Eu sou daqueles que escuta músicas consideradas antigas, elas falam mais comigo.

Alice riu e estacionou em frente ao campus. Olhei para o taxímetro.

— Você o deixou desligado — apontei.

Ela olhou o aparelho.

— Quer saber? Vou te levar pra dar um passeio!

Como?

— Alice, sem brincadeira, quanto eu devo pagar? — perguntei, levando minha mão à porta.

— O passeio ainda não terminou — ela disse e acelerou.

Olhei para o lado e vi a vizinhança ficando para trás, enquanto Alice virava à esquerda, em direção a uma nova rota. Será que eu deveria ter medo? E se eu deveria porque eu estava concordando?

Quando a verdade nos atinge e nos deixa em meio ao caos que ela traz, precisamos de alguém que nos tire dele. Ou o enfrente conosco. Pode ser um amigo de longa data, que diz que vai sempre estar ao nosso lado quando precisarmos; pode ser um familiar, aquele que diz que família é para todas as horas; ou, às vezes, pode ser um desconhecido, que está no local certo e na hora certa que precisamos. Esse era o meu caso.

E agora aqui estava eu, no banco de trás do táxi de Alice, olhando pelos vidros e tentando reconhecer algum lugar. E não reconhecendo nenhum!

— Para onde estamos indo? — indaguei.

Ela me olhou pelo espelho acima do taxímetro.

— Você é curioso — a motorista riu.

Eu também.

— Não se preocupe — disse, virando a esquerda —, não é um sequestro.

— Ainda bem! Minha família não tem muito dinheiro para pagar resgate — ri.

Ela riu mais uma vez.

— Só estou te levando para conhecer a cidade e alguns lugares especiais de Natal. Sair da rotina, tentar deixar essa noite melhor para nós dois.

— Porque você está fazendo isso?

— Sabe, nós somos muito apegados nessa ideia de que precisamos de alguém ao nosso lado para estarmos completo. Esse é o padrão: você precisa de alguém. Você casa, forma uma família e vive feliz. Mas a vida vai muito além disso! Vai muito além de uma pessoa para você dividir a vida, vai muito além de conhecer a família do seu companheiro. Vai muito além de ter um! Não estou dizendo que você deve ficar solteiro, mas se relacionar quando você estiver bem para isso. Que esteja disposto a estar com alguém porque você ama, porque seu coração acelera e não porque tem que caber em padrões. Hoje à noite estou te mostrando que a vida vai muito além de um não relacionamento ou de um fora. Estamos em uma fuga de Natal. Por isso, abra bem os olhos!

A encarei e sussurrei um “tudo bem”. Voltei para o banco de trás e digitei uma mensagem para o Diego.

>> Natan: Não se preocupe comigo, estou numa fuga de Natal!

E enviei. Poucos instantes depois, o carro parou no estacionamento de um restaurante pequeno. Desci e tentei reconhecer o lugar mas eu não o conhecia.

— Onde estamos? — perguntei.

— Esse restaurante só fica mais conhecido na noite de Natal. É como se ele só surgisse nesta data. Coisas especiais surgem em momentos especiais.

— Eu não conheço essa região.

— Conhece. É porque você não a viu por completo. O shopping fica a dois quarteirões daqui.

Olhei para ela e depois para o restaurante.

— Vamos! — disse ela e eu acompanhei.

Sentamos em uma mesa mais afastada. De onde eu estava podia ver um posto de gasolina, um que eu realmente nunca tinha visto na vida. Os funcionários andavam com uma touca vermelha na cabeça, que tentava imitar a do Noel, mas o símbolo do posto estampava a frente.

— Boa noite. O que vão querer? — perguntou o garçom, esperando os nosso pedidos.

— Bem, vamos querer duas porções do “enroladinho do Noel”, por favor. — pediu Alice.

Que nome de prato era esse? O garçom saiu e nos deixou novamente a sós.

— Enroladinho do Noel? — ri.

— Sim. É simplesmente a melhor comida dessa data. Nunca comeu?

— Não.

— Pois você vai adorar. É uma massa crocante com um molho especial e queijo por cima, parece neve. Vem junto com um bonequinho de neve! Você vai ver!

E não demorou muito. O garçom voltou com os dois pratos e Alice não estava mentindo. A massa vinha em vários pedacinhos enrolados com bastante queijo e um molho que cheirava muito bem. O bonequinho de neve vinha no topo da colher, deixando ela um pouco engraçada.

A motorista não perdeu tempo e levou logo uns dois pedaços à boca. Fechou o olho e sorriu quando mastigou. Eu nunca havia experimentado. E se eu fosse alérgico?

— Coma! Está gostoso!

Eu encarei o prato. Parecia estar muito bom.

— Calma — pedi e levei um pedaço à boca.

Dei uma mordida e o sabor era muito bom. Algo que eu nunca tinha experimentado em toda a minha vida. Como eu tinha vivido 21 anos sem ter comido aquilo? Apressei em comer e levei mais um. E depois outro.

Alice me olhava enquanto comia e eu podia sentir seus olhos sobre sim.

— Qual o curso que você faz?

— Contabilidade.

— Quer dizer que você é fã dos números e de contas?

— Digamos que sim. É a única coisa realmente verdadeira: a matemática.

— Eu odeio matemática. Gosto mais de história.

Ri.

— Porque você gosta de história? — comi mais um enroladinho.

— Eu gosto de saber a origem das coisas e todo o caminho que elas tiveram antes de chegarem ao seu fim. É assim com as pessoas também. A história de alguém pode dizer muito sobre ele.

Concordei com a cabeça.

— É verdade.

— É realmente tosco.

— O que? — indaguei

— Meus pensamentos.

Passei a colher no fundo do prato, pegando mais molho e o último enroladinho.

— Eu não acho. Gosto deles. — comi.

— Não acredito — ela disse e fez o mesmo.

— Os pensamentos de uma pessoa a definem. E quando se diz em voz alta, você afirma quem você é. Muitos pensamentos foram tratados como geniais, como os de Newton, e outros levaram alguém a morte, como os de Tiradentes.

Ela riu e concordou com a cabeça, levantando a mão e chamando o garçom, que recolheu os pratos e trouxe a conta. Alice a pegou da mesa e não me deixou olhar.

— Topa dividir? — perguntei

— Não. Eu que trouxe você para o passeio.

— Mas não significa que eu não posso te ajudar a pagar.

— Eu não pedi

— Mas eu me ofereço.

— E eu recuso — ela se levantou. —  Venha comigo!

A acompanhei até o caixa. Ela abriu a carteira e tirou o cartão dourado de dentro. Passou na maquininha e pagou. Ofereci mais uma vez para dividir a conta, mas ela recusou e disse que eu não sabia ouvir um não. E era verdade, eu não sabia. Gostava tanto de ouvir um sim que não sabia que era nos “nãos” que a tristeza morava.

A moça do caixa sorriu e pegou dois biscoitos em formato de árvore de Natal e nos deu. Caminhamos para fora e sentamos em um pequeno banco, perto das luzes do posto.

— O que você achou da comida?

— Eu gostei bastante. Sério, de verdade — respondi e comi o biscoito com uma só mordida.

Nozes e chocolate. Meu favorito. Alice se colocou de pé e eu a segui.

— Para onde vamos agora?

Ela me encarou.

— Vamos ver o Papai Noel!

Entramos no carro e ela colocou uma música. Alice cantava loucamente, me fazendo rir discretamente de onde eu estava. Dava para notar que ela adorava cantar, mesmo na frente de desconhecidos. A motorista acelerou e em pouco tempo estávamos no estacionamento do shopping da cidade.

Tinha um grande “Feliz Natal” brilhando na fachada do prédio e a decoração natalina o deixava iluminado. Alice olhou para o relógio e me puxou, alegando que estava na hora. Corremos para a frente e tentamos chegar o mais perto que conseguimos. Uma faixa vermelha interditava a entrada do shopping e todos olhavam para cima.

— Ali está ele — Alice apontou.

E lá no alto do grande shopping, um ponto vermelho descia por ele. O Papai Noel acenava para todos que estavam embaixo e as crianças gritavam e pulavam para vê-lo. Ele trazia um saco vermelho nas costas e descia devagarinho pelo prédio, preso por uma corda preta amarrada em um cinto de sua cintura. Ele gritava “Ho Ho Ho”, fazendo todos sorrirem. Observei-o chegar ao final e deixar cair o equipamento que estava em sua cintura. Ele correu para dentro do shopping e os seguranças tiraram a fita vermelha, permitindo a entrada de todos. Entramos e Alice me puxou para uma fila, me fazendo esperar até chegarmos ao Papai Noel. Ele estava sentado numa poltrona, com uma rena empalhada estava à sua direita.

Alice sorriu para ele e sentou em seu colo. Olhei para os lados e notei que todos a olhavam, talvez pensando que ela estava grande demais para fazer um pedido a alguém vestido de Noel. A jovem o abraçou e sussurrou algo em seu ouvido, o fazendo rir. Tirou alguns trocados do bolso e entregou a um fotógrafo, que tirou uma foto dela segurando o saco de presentes ainda sentada no colo do velhinho.

Ela saiu e me puxou.

— Isso é besteira — falei, puxando meu braço do dela.

— Você não quer fazer um pedido ao Noel? Todo mundo quer!

— Mas não eu!

— Você está com vergonha?

— Eu? De que eu teria vergonha? Daquele homem vestido de papai Noel e barriga falsa?

— Não. Das pessoas que estão olhando para você.

Eu parei. Estavam mesmo.

— Eu não…

— Está sim e eu não entendo o porquê.

— Porque todos olham e riem de você.

— É por isso, Natan? Porque elas vão rir?

— Talvez.

— As pessoas fazem algo pior inúmeras vezes e mesmo assim você deve ter coragem de viver sob os olhares delas. Elas não vão parar de te encarar. Elas vão descobrir que isso te paralisa e vão usar contra você, vão querer diminuir você por isso. Mas você tem que decidir se vai ser corajoso o suficiente para enfrentar os olhares de todos, ou se vai parar e tentar explicar porque você faz isso.

— Alice, eu…

— Ou você encara o passeio e sorri, ou fica com medo de tudo o que está fazendo e volta para casa.

Ela me encarou, séria. Seu braço ainda estava no meu e ela estava esperando minha resposta. Eu poderia ter dito não e ter ido embora, ter voltado para casa, mas ela não me deixaria fazer isso. Eu precisava me permitir experimentar coisas novas. Precisava enfrentar os olhares e me mostrar como eu sou. Eu não precisava me posicionar, nem convencer do porquê de eu estar fazendo aquilo, eu só precisava viver. Alice estava sendo legal comigo e eu não poderia dizer “não”.

Fiz que sim com a cabeça e ela me levou até ao Noel. Ele bateu levemente com a mão em uma de suas pernas e eu sentei.

— Qual o seu pedido, meu jovem — ele perguntou, batendo devagar nas minhas costas. Eu aceitei a brincadeira.

— Eu quero ser feliz. Só peço isso!

Ele estalou os dedos

— Você já está sendo —  e fez um “Ho Ho Ho”

Alice me chamou atrás do fotógrafo.

— Sorria!

E então eu sorri. Talvez o sorriso mais sincero desde que eu havia sido partido, desde que eu estava em pedaços e, de alguma maneira, quando eu sorri, senti que não estava totalmente quebrado. Senti que eu ainda poderia me consertar. Senti que poderia ser eu novamente. Ser forte não era só passar por todas as fases, era ver que eu poderia ficar de pé em todas elas. Sorri e ouvi o “clique” da câmera.

Algumas vezes, vai acontecer dos seus planos, aqueles que você levou dias pensando e arquitetando, ou sonhando sobre o que fazer quando se realizassem, não acontecerem. O que pode te levar a sair dos trilhos e se perder pelo caminho. Pode acontecer de você se perder, não saber mais como voltar e ficar perdido no novo, ou você perceber que o novo pode ser uma oportunidade de recomeçar, de deixar tudo para trás. Comigo foi assim.

O “não” que eu tinha recebido nunca esteva planejado. Eu havia construído tudo em cima do “sim” que eu esperava ouvir. Minha mãe sempre dizia que não era bom planejar, porque quando não sai conforme o esperado, nos deixa com a sensação de incapacidade. E eu não gostava dessa ideia.

Mas o “não” foi o início disso tudo. O “não” me trouxe onde eu estou agora. Talvez o “sim” não tivesse esse poder. Às vezes, o “não” pode ter levar mais longe que o “sim”.

— O que você pediu ao Noel? — perguntei a Alice, que estava sentada ao meu lado, observando algumas crianças correrem pelo shopping.

— Na verdade, ele pediu meu número de celular.

Eu a encarei, incrédulo.

— É verdade! — Ela confirmou. —  Mas eu falei “não” no ouvido dele, bem baixinho. Mas ele não ficou triste, sorriu e tirou uma foto comigo.

— Disse isso como indireta para mim?

— Não. Só pra mostrar que o “não” tem lições que o “sim” nunca vai te ensinar.

— Como por exemplo?

— Se reconstruir. E continuar.

— Como continuar estando triste?

Ela olhou para os lados.

— Apenas continuando. Muita gente faz isso. Não queira ser o único que não consegue.

Alice olhou mais uma vez para as crianças.

— Venha — ela me puxou. —  Vamos andar pelo shopping.

Ela soltou meu braço e caminhamos lado a lado. Entramos numa loja de sapatos, porque Alice viu um salto que ela sempre quis, depois em uma loja de doces porque os chocolates estavam em promoção e depois paramos para comprar algodão doce, que tinha um cor vermelha remetente ao Natal. Sentamos na praça de alimentação e ficamos ouvindo uma mulher cantar algumas músicas natalinas num karaokê. A voz dela era calma, bem tranquila.

— Posso te fazer uma pergunta?

— Claro! — Ela confirmou, mordendo um pedaço do algodão doce.

— Porque fez isso por mim?

— Te levar para um passeio?

— Sim.

Ela se virou e me encarou.

— Porque nós dois merecíamos. Nós dois estávamos tendo uma noite ruim e eu só quis que ela melhorasse. Ambos iríamos para casa e ficaríamos remoendo essa noite e dizendo que ela foi uma das piores das nossas vidas. Só quis deixar o menos ruim possível.

Sorri.

— Você tem razão. Essa noite tinha tudo para ser ruim.

— Mas não foi — ela disse

— Não mesmo.

Alice tinha feito algo por mim, algo valioso para quem ela não conhecia e assim ela me mostrou muito de si. Era a minha vez de retribuir. Segurei sua mão e puxei.

— Vem comigo! — falei

— Para onde?

— Viver.

E assim eu corri e ela também. Descemos as escadas rolantes pedindo licença para as pessoas que esperavam chegar até ao final. No meio do primeiro andar do shopping, havia uma imensa árvore de Natal. Ela era tão grande que a estrela no topo era uma das luzes que iluminavam o lugar. Embaixo dela, tinham alguns bancos pintados para parecer presentes e, ao redor, espalhando pelo chão, tinha algo parecido com neve.

Peguei um punhado com a mão e joguei em Alice. Seus cabelos ficaram brancos mas em seguida voltaram a cor normal quando tudo o que eu joguei voltou ao chão.

— Você não fez isso — ela disse e me olhou como se eu tivesse começado uma guerra.

Alice fez o mesmo e senti quando inúmeras bolinhas pequenas entraram em minha blusa. Quando eu ri, Alice jogou mais, algumas entrando na minha boca. A jovem riu e se sentou no chão.

— Você é uma grande lutadora — falei, balançando minha blusa para que caíssem as bolinhas.

— Toda garota é!

E eu olhei para ela, que sorriu e eu também. Me virei para o lado e vi um fotógrafo tirando uma foto de uma garotinha sentando em um trenó, perto de onde estávamos. Ela deu um sorriso e o flash foi disparado. O rapaz fez um “legal” com a mão e ela fez o mesmo.

 — Já volto! — falei e deixei Alice sentada na “neve”.

Caminhei até ele e pedi uma foto. Ele virou e veio para onde Alice estava.

— Mais fotos?

— Para deixar registrado uma das nossas melhores noites. Não concorda?

— Claro — ela disse e jogou “neve” para o alto.

O flash capturou o momento. Depois sentamos nos bancos e tentamos fazer poses sérias, mas bastava olharmos um para o outro que caíamos na gargalhada. Pulamos com os braços abertos e a cada nova foto o fotógrafo nos mostrava um sorriso e apertava o botão de captura da câmera.

Entramos embaixo da árvore e sorrimos. Percebi que algumas pessoas nos olhavam, talvez se perguntando o porquê de dois adultos estarem fazendo aquilo, mas eu não liguei. Alice havia me ensinado. Eu apenas sorri e deixei que o flash me iluminasse de novo.

Eu entendi o que Alice quis dizer com continuar. Era deixar algumas coisas no passado. E, por mais que tivesse sido bom ou ruim, esquecer uma parte dele era essencial para continuarmos nossa caminhada. Era também aceitar as mudanças e abrir os braços para recebê-las. Era tentar ser feliz nos momentos que desse e ver que você pode ser responsável pela sua felicidade.

Dei meu endereço ao fotógrafo e pedi para ele deixar as fotos.

— Isso foi muito divertido — Alice disse, esfregando as palmas das mãos.

— Eu concordo.

Nós dois rimos.

Corremos mais uma vez para o segundo andar e compramos duas porções de tortas e paramos para comer. A mulher continuava a cantar. Nós a ouvimos até terminar de comer. A praça estava cheia de pessoas que passavam a véspera de Natal no shopping, talvez procurando estar ao lado de pessoas, mesmo que essas fossem desconhecidas.

— Agora, o microfone está aqui para quem quiser cantar e deixar essa véspera de Natal mais alegre — a mulher, que antes cantava, anunciou.

No mesmo instante, um homem que aparentava ter uns 36 anos, subiu ao palco, conversou com a banda e cantou “Se eu não te amasse tanto assim”. Ele olhava para uma mulher, que aparentava ter a mesma idade e talvez fosse sua esposa. Ela jogou um beijo no ar para ele e ele fez o mesmo.

Depois, foi a vez de uma mulher. Ela cantou “Tempos modernos” e fez com que muitas pessoas da praça de alimentação cantassem juntos. Vi Alice cantar também e joguei a ideia para ela.

— Vai Alice, se permita! — Falei

— Não, Natan. Tem muita gente olhando.

— E quem me disse que não devemos ligar para os olhares alheios?

— Quem foi a louca que disse isso? — riu. De nervosa, eu percebi.

— Vai, Alice. Você não canta mal. Vai!

Ela olhava e sorria, depois juntava as mãos e passava na roupa.

— Você vem comigo?

— Eu não sei cantar.

— Talvez seja a última vez que você veja essas pessoas. Vamos!

Eu havia começado.

— Olha que eu já assisti a muitos musicais — falei.

— Vem! É a nossa vez! — caminhamos até ao palco.

Eu estava criando coragem para cantar na frente daquelas pessoas. Esperamos mais dois cantores e chegou a nossa vez. Alice falou com a banda e retomou o seu lugar.

— Qual é a música? — indaguei baixinho e nervoso e ansioso e com medo

Ela me olhou e segurou uma das minhas mãos.

— Desculpe, o show de agora é solo.

Ela havia mudado de ideia?

— Está me “colocando para escanteio”?

— Estou te deixando ver o show.

Concordei com a cabeça e desci do palco. A observei enquanto ela olhava para trás e balbuciava um sim. A plateia esperava para saber qual música ela cantaria. Alice levou o microfone à boca e a banda começou. No início, ela não cantou e pediu para a banda repetir. Ela estava nervosa. Algumas pessoas ficaram de pé, se aproximaram do palco e começaram a encorajá-la. Eu as acompanhei. A música começou mais uma vez e eu sussurrei “você consegue” e ela sorriu quando leu meus lábios. A plateia batia palma no ritmo da música e então Alice soltou a voz:

Vou deixar a vida me levar / Pra onde ela quiser / Seguir a direção de uma estrela qualquer / Não quero hora pra voltar / Não! / Conheço bem a solidão / Me solta! / E deixa a sorte me buscar.

Quando percebi, já estava cantando junto e outras vozes se juntavam com a minha.

Eu já estou na sua estrada / Sozinha não enxergo nada / Mas vou ficar aqui / Até que o dia amanheça / Vou esquecer de mim / E você se puder / Não me esqueça.

Alice puxou a última nota e encerrou. Agradeceu aos músicos, que fizeram questão de apertar sua mão enquanto ouviam as palmas. Ela veio até mim e me abraçou. Eu correspondi.

— Foi uma boa dose de Skank hoje — falei.

— Não seria o meu Natal sem eles. Essa não dá uma ótima música para uma fuga? Você não acha?

Fiz que sim com a cabeça.

Ela olhou para o relógio e segurou meu braço.

— Precisamos ir.

— Para onde? — indaguei, a seguindo.

— Nossa última parada.

Para ser feliz, algumas vezes, você tem que derrubar o muro que construiu ao seu redor e permitir que outras pessoas se aproximem. Algumas que podem trazer alegria e te mostrar que deixá-las próximas é uma nova oportunidade de descobrir um caminho. Um que você pode querer trilhar pela vida inteira.

Enquanto Alice dirigia até a nossa última parada, eu repassava tudo o que aconteceu nessa noite. Desde o fora que eu levara da garota que eu amava até agora, indo para um lugar que eu não sabia qual era, mas que eu agradecia por estar indo. Quando a vida muda, raramente é possível perceber. As mudanças chegam devagar, silenciosas e, quando percebemos, já estamos mudados e vivendo de acordo com o novo. Há também as mudanças que nunca imaginamos que podem acontecer e quando elas chegam, você percebe que mudou e percebe que pode gostar daquilo.

Essa noite foi uma mudança. Essa fuga foi como abrir meus olhos, esses que eu nem sabia que estavam fechados. Estar apaixonado por Ellen fez com que meu foco fosse ela e eu acabei esquecendo tudo ao redor. Mas hoje, Alice me mostrara coisas simples, mas que podiam fazer uma grande diferença. Coisas essas que eu não conhecia, mas que, de agora em diante, eu queria colocar na minha rotina.

Alice não me deixou cair em tristeza. Me cercou de alegria.

— Bem, chegamos! — Ela abriu a porta do carro e observou o lugar e parecia sorrir com os olhos.

Desci e olhei adiante, para um parque que estava iluminado. Diversas pessoas iam e vinham para lá e para cá, se cumprimentavam, davam um abraço e seguiam com suas vidas.

— Eu nunca tinha visto esse parque — admiti.

— Ele fica aqui por pouco tempo. Dois dias depois do Natal, ele segue viagem e ilumina outra região.

Eu olhava a roda gigante brilhar com suas luzes vermelhas, que pareciam se destacar sobre o céu escuro e sem nuvens. Alice fechou as portas e caminhamos, lado a lado, até ao parque.

Diversos brinquedos estavam enfeitados, bem natalinos. Algumas barraquinhas vendiam alguns enfeites para se por na cabeça ou brinquedos para crianças. Quando passamos em frente a uma, o vendedor sorriu e me desejou um Feliz Natal e eu retribui com o mesmo. A verdade é que não nos damos contas de que um sorriso pode mudar a noite de uma pessoa. Um sorriso de um estranho mostra que, mesmo com todas as coisas ruins que podem nos acontecer, ainda tem gente que acredita que tudo pode melhorar.

Sentamos num banco de frente para a imensa roda gigante. Em silêncio, observamos ela subir, parar alguns instantes no alto e descer. Vi quando um pai beijou a testa da filha, que devia estar com medo da altura, e a puxou ainda mais para si, fazendo uma espécie de proteção com os braços. Ela estava segura, com toda a certeza.

— Quer dar uma volta? — Perguntei. —  Eu pago!

— Mas é claro que sim. Só olhar é meio chato.

Olhei para ela e ri. Alice era divertida. Caminhamos até ao local e paguei com algumas notas, aquelas que antes deveria ter sido usadas para pagar o jantar, e subimos na cadeirinha.

— Curtam o passeio! — Disse o cuidador do brinquedo.

Observei o chão até que estávamos alto demais para encarar o céu e não sentir medo. Olhei para frente e senti o vento bater no meu rosto e bagunçar um pouco do meu cabelo. Olhei para Alice e a observei olhando feliz para todos que estavam lá embaixo.

E a roda gigante parou.

— Alice — chamei.

— Oi!

— Obrigado! De novo.

Ela me encarou.

— Eu também tenho que te agradecer.

— Não tem não. Você que me “sequestrou”.

— Você topou viver essa noite comigo. A melhor das noites de Natal.

Concordei com a cabeça.

— Sério, obrigado mesmo. Acho que sem você, uma hora dessas eu estaria triste, talvez chorando, ouvindo os conselhos do meu colega de quarto.

— Você não tem cara de quem chora.

— Quando a tristeza aperta é a única coisa que eu sei fazer. Às vezes, é saudade de casa ou dos meus pais, ou da vida que eu tinha antes. Estudar em outra cidade e longe da família meio que faz você perder bastante coisa, faz com que uma parte da sua vida tenha mais importância que outra, ao menos por uns anos. Tem vezes que eu me sinto distante e não é porque eu quero. Eu só não me encaixo no assunto, na conversa, no meio dos amigos ou dos parentes. Parece que eu estou ali mesmo sem estar.

E então eu chorei. E senti quando Alice encostou a cabeça no meu ombro.

— Eu entendo você. Eu não fiz faculdade. Quando a minha irmã morreu uma parte de mim foi junto com ela e a maioria, senão todos os meus sonhos. Nós planejávamos ir para a faculdade juntas, dividir um apartamento e namorar irmão gêmeos, como nós. Mas não foi possível. E eu sinto que até hoje eu não estou completa.

— Parece que somos pessoas tristes procurando felicidade nas coisas que nos restam.

Rimos. Alice me encarou e limpei as lágrimas.

— Não se perca tentando se encontrar em alguém — ela aconselhou.

— Sinta-se completa com o que você ainda tem — retribui.

E então nos abraçamos. É verdade quando dizem que há estranhos que nos salvam. Alice havia me salvado e eu a ela, e ali, abraçados naquela roda gigante, uma amizade surgiu. Uma que eu esperava ser uma das melhores.

A roda gigante voltou a funcionar e em poucos segundos estávamos novamente no chão. Caminhamos pelo parque, observando os brinquedos e as pessoas. As luzes deixavam aquele espaço iluminado em meio a escuridão. Alice e eu compramos chocolate quente e tomávamos enquanto conversávamos. E conversamos por muito tempo até que o relógio tocou a meia-noite. Mas a magia não acabou.

Permanecemos ali até que o parque ficou vazio e do carro vimos quando as luzes foram apagadas. A escuridão era dona do lugar mais uma vez. Entramos no carro e ouvimos ainda mais músicas. Alice disse que eu precisava aumentar o meu repertório de canções natalinas, para que, no ano que vem, eu pudesse cantá-las. Ouvimos mais Skank e cantamos alto a música que ela havia cantando.

E eu deixaria a vida me levar e ver até onde eu iria. Decidi que não iria correr, iria caminhar e observar cada trecho do meu caminho. Correr fazia com que você perdesse algumas partes da sua trajetória, algumas que você desejaria ter visto. Caminhar te dava a chance de viver tudo conforme o tempo e viver um dia de cada vez.

O carro parou e estávamos em frente ao portão do meu campus. Alice desceu e eu também, e ficamos sentados no capô do táxi.

— Bem, parece que chegou a hora de ir — ela disse.

— É. Parece que a noite acabou.

— Feliz Natal, Natan! — Ela disse.

— Feliz Natal, Alice! — Falei.

E a gente se abraçou mais uma vez.

— Quando estiver triste de novo, eu sou a “Alicerapidinha” do “KeroTaxi”.

— Alice rapidinha?

— Não ria. Eu não estava com a criatividade em alta nesse dia.

Rimos.

— Tudo bem! Mas só se você me ligar também quando estiver querendo cantar na praça de alimentação do shopping.

— Decidi que quero fazer isso mais vezes.

Ela caminhou até a porta do motorista.

— Então, tchau!

— Tchau.

Alice entrou no carro e seguiu adiante. Eu fiquei observando até não vê-la mais, quando ela entrou no meio da escuridão. Olhei mais uma vez para o céu e agradeci pela noite de hoje. Pela melhor noite de Natal. Eu havia ganhado uma nova amiga. Eu havia ganhado uma nova visão das coisas. Eu havia ganhado uma nova forma de viver. Eu não estava totalmente feliz mas eu também não estava totalmente triste. Eu estava entre a “superação” e a “felicidade”.

Acontece que você pode se mostrar fraco e se deixar ser salvo, porque, quando isso acontece, você passa a observar a vida, e a você mesmo, de uma outra maneira. Uma que mostre que viver vai muito além de planos, e o que mais conta no final é tudo aquilo que acontece quando você está ocupado demais vivendo. Abri o portão e caminhei de volta ao meu quarto e para o novo dia.

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