Um Natal sob as estrelas – Lívia Pádua

Quando pequenos, a dupla Sky e Arthur era inseparável. Mas uma reviravolta do destino fez com que cada um tivesse que seguir um caminho diferente. E, apesar de uma promessa de dedinho (que não podia ser quebrada!), as coisas não saíram tanto como tinha planejado. Anos depois, um reencontro promete colocar tudo em seu devido lugar. A pergunta é: será que o coração ferido de Sky vai aceitar?

“Para os que buscam o amor, as estrelas mostrarão o caminho”

Agosto de 2005

—  EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ VAI EMBORA —  depois de ter certeza que ele ouviu, me viro e saio correndo pelo corredor até a porta do meu quarto. Entro e fecho a porta.

Não, isso não pode acontecer.

Ele não virá atrás de mim, tenho certeza, mas eu também tinha certeza de que íamos ser amigos por muito mais tempo, ir para o último ano da escola juntos.

Caramba, a gente tinha planejado tudo.

Sempre, desde que me entendo por gente, Arthur e eu somos amigos. Nossas famílias são amigas e quando a mãe dele morreu, ele passou a frequentar cada vez mais a minha casa. Todo dia vamos pra escola juntos, ele é meu vizinho, então bate na minha porta e vamos de mãos dadas sempre. Duas ou três vezes na semana ele almoça aqui, brincamos à tarde, até o pai dele chegar do trabalho e dizer que já está tarde. Arthur nunca pede pra ficar mais, nem eu tenho essa coragem. O pai dele nos dá medo, só porque é grande e forte, mas é sempre muito legal e me trata com muito carinho, como se eu fosse a filha que ele não tem.

—  Sky, abre a porta.

—  Não —  minha voz sai um pouco rouca.

—  Sky, por favor —  ele implora.

—  Por que você está me contando isso agora?

—  Porque você é minha melhor amiga, e não quero perder você. Nunca.

Levanto e destranco a porta para deixá-lo entrar, porque mesmo estando muito brava com ele, é verdade, somos melhores amigos e nada mudaria isso.

 —  Por que você precisa ir embora?

—  Papai conseguiu um emprego no Norte.

—  Você podia ficar com a gente —  tento falar, mesmo sabendo a resposta.

—  Você sabe que papai nunca deixaria.

— Eu sei —  minha voz não passa de um sussurro, o pai ama Arthur 

— Olha —  ele pega minha mão — , Eu vou voltar no próximo Natal e no outro também, nem que eu precise mudar o mundo pra isso.

—  Mas você vai se esquecer de mim, vão ter outras meninas lá.

—  Nenhuma vai ser tão legal quanto você.

Uma pausa. Olho pra ele e sinto verdade no que diz.

—  Você vai estar aqui no meu aniversário? —  ia ser em duas semanas, estávamos planejando ir no zoológico e tomar sorvete depois, pela cara que ele fez, sei que não gostar da resposta —  Eu vou fazer dez anos —  tento.

— Eu sei —  ele não responde minha pergunta.

Mantenho meus olhos nele.

—  Vou me mudar amanhã!

—  AMANHÃ?

—  Desculpa —  ele me abraça — , meu pai só me contou hoje de manhã, ele queria ter certeza de tudo antes de contar. Acho que não queria nos ver assim.

—  Eu tenho certeza disso —  mesmo tendo medo do pai dele, sei que ele é uma boa pessoa.

Ficamos conversando até mais tarde naquele dia, até que adormeci em seu ombro. Foi um dos momentos que mais me marcaram. É como se eu não tivesse mais certeza de nada, que tudo pudesse ser tirado de mim, e de certa forma estava sendo.

Não tenho mais amigos, sempre tinha sido apenas nós dois. Na escola, em casa, e agora, acabou, estou sozinha. Começo a chorar baixinho.

— Shhhhh —  sinto a mão de Arthur acariciando meus cabelos. —  Não precisa chorar.

—  O que você ainda está fazendo aqui? —  olho pela janela e vejo que está escuro, ele nunca ia embora depois do pôr do sol. —  Seu pai vai te matar.

— Eu não tô nem aí, Sky. Se essa noite é a única que teremos em algum tempo, faremos valer a pena.

Olho pra ele com meus olhos marejando, ele pega minha mão.

— Vem, vamos lá fora.

— Agora?

— É, agora. E fale baixo, não queremos acordar ninguém.

Desço da cama e percebo que estou sem sapatos, mas não me importo.

—  Pega esse cobertor e me segue.

Saímos pela janela, que não era muito alta e dava pra pular. Ele pega minha mão e caminhamos até o jardim atrás de sua casa. Está tudo escuro, até as luzes das casas, só tem as luzes dos postes, mas são muito fracas. Mesmo assim, tomamos cuidado para não sermos pegos.

Ele abre o cobertor e deita, com um movimento me chama e deito ao seu lado. Não falamos nada por um tempo, então decido quebrar o silêncio.

— Por que você disse que voltaria no Natal?

— Porque é minha data favorita.

— A minha também.

—  É o nascimento de Jesus, é quando as casas tristes se enchem de alegria, é quando colocam luzes coloridas nas janelas, o amor em torno das mesas e o cheiro de comida gostosa vai longe, é quando algumas pessoas começam a acreditar que milagres existem — ele faz uma pausa— Você é meu milagre, Sky.

Não encontro palavras para responder o que ele me disse, então opto pelo silêncio. Mais tarde nessa mesma noite, enquanto olhamos para o céu de mãos dadas, sinto sua respiração se regularizar.

—  Então é uma promessa?

Ele estende o mindinho para mim.

—  Juro de dedinho que vou voltar.

Enrosco meu dedo no dele.

—  Juro de dedinho que vou te esperar.

—  As estrelas estão mais brilhantes essa noite.

Então, adormecemos.

**

Natal de 2006

Esperei. Esperei. Esperei

— Ele não vem — digo pra ninguém em específico.

— Às vezes, ele esqueceu—  minha mãe responde.

— Tenho certeza que não foi isso—  digo saindo da janela, onde eu estava esperando. — Ele veio Natal passado — argumento. — E ele não esqueceria de uma promessa, ainda mais uma promessa de dedinho.

— Talvez o pai dele não possa ter trazido ele esse ano.

— Nem você acredita nisso, mamãe. Você mesma sabe que ele atravessaria o mundo se fosse preciso, ele mesmo disse isso.

— Tá bom, minha espertinha! É verdade, mas não se esqueça que ele ainda é uma criança, e ao invés da senhorita ficar esperando na janela, igual  a Julieta do Romeu, por que não vem me ajudar a fazer um bolo de chocolate para mais tarde?

— Tudo bem — me dou por vencida pelo simples fato de que amo cozinhar com minha mãe.

Já está tarde quando acabamos de mexer a cobertura e despejamos para cobrir o bolo quando a companhia toca, dou um pulo e corro pra atender a porta.

— Já estava demoran… — paro no meio da frase e olho pra trás, minha mãe não parece surpresa.

— Oi, meu amor. Vovó estava com saudade.

— Eu também, vovó — falo tentando soar o mais animada possível, mas meu coração aperta um pouco em perceber que Arthur realmente não vem.

— Oi, mãe! Entra, fica à vontade — minha mãe diz atrás de mim.

Ela me olha em consolo, afirmo com a cabeça que está tudo bem.

Atrás de minha vó, vem meu avô, meu tio e três primos que, confesso, não sabia nem quem eram, não me lembrava deles. Todos me cumprimentam com um beijo.

Temos um jantar tranquilo, meu tio trouxe seu violão e começou a cantar suas canções de Natal. Ele não é afinado, nenhum de nós é, mas fazemos o possível, a união de vários timbres cria uma harmonia bonita, quase me faz esquecer dele. Quase!

Quando estão todos cansados de comer e cantar, digo que estou cansada e vou para o meu quarto, pego meu cobertor e abro no chão, apago as luzes para ver o presente que Arthur me deu ano passado.

Natal de 2005

Estávamos mais uma vez no jardim atrás de sua casa.

— Seu presente — ele disse, me estendendo uma caixinha.

— Eu não comprei nada para você, desculpa—  digo, me culpando por não ter pensado em nada. Sinceramente, não achei que ele fosse me dar presente. — O que é?

— São adesivos de estrela —  diz quando desembrulho o presente — Para você colar no seu quarto, elas brilham no escuro.

— São lindas, mas por que você está me dando isso?

— Porque foi sob elas que prometi me lembrar de você, prometi que voltaria.

— As estrelas não ouvem, seu bobo —  comecei a rir da cara dele.

— Minha mãe dizia que sim, ela gostava de deitar para vê-las, e fazer desejos.

— Ela fazia promessas? — pergunto curiosa.

— Nem sempre, mas fez uma vez, prometeu que sempre cuidaria de mim.

— E você acredita que as promessas se cumprem?

Arthur faz uma pausa antes de continuar:

— Ela ainda está cuidando de mim, lá de cima.

— Você acha que ela ouve você, igual as estrelas?

— Não, não é igual, eu não preciso olhar pra cima pra saber que ela está lá — ele olha para mim, como se tudo que precisasse na vida dependesse daquele olhar.

— Sabe Arthur, acho que você também é meu milagre.

Meus olhos ficam marejados quando as lembranças me deixam com saudades. Sinto falta do meu melhor amigo. Olho para o teto esperando ver o brilho, mas tudo que vejo é luz se apagando.

— As estrelas não brilharam hoje — murmuro para mim mesma. E adormeço.

**

Natal de 2009 

—  Bom dia! — falo para minha mãe, ainda tentando ficar acordada.

— Bom dia, meu amor! — ela diz quando me sento para tomar café.

Ainda tenho a péssima mania de espiar pela janela todo dia de Natal, tenho que parar com isso, sei que ele não vem, já faz o quê? Cinco anos? Por aí. Não é como se ele fosse voltar agora.

— Tenho uma notícia que eu acho que você vai gostar.

— Humm — resmungo desinteressada. 

— O Arthur está voltando — quase cuspo meu café.

Tá bom, eu estava errada. Mas como assim ele está voltando? E por que minha mãe sabia disso?

Ela nem me perguntou se eu me lembrava dele. Claro que eu não esqueceria. Todos os Natais sempre foram iguais, uma longa espera olhando pela janela, e no fim adormecia olhando para o teto do meu quarto.

— Para passar o Natal? — pergunto tentando não soar desesperada

Eu estava feliz, não estava? Quer dizer, ele era o meu melhor amigo, mas muito tempo se passou, éramos pessoas diferentes agora. E não é como se eu o perdoasse por não cumprir sua promessa, mas eu queria tanto vê-lo. Ele havia me magoado, disso eu não esqueceria, mas eu ansiava tanto por esse momento.

— Para morar aqui.

Choque. Isso sim é uma surpresa. A raiva começa a brotar em mim, não é como se ele tivesse voltando por mim, não pelo que ele havia dito para mim. Estava voltando porque não tinha opção.

— Ele vai morar com a avó, na sua antiga casa— minha mãe explica. — Seremos vizinhos de novo.

Consigo apenas murmurar e acenar com a cabeça. Será que ele virá aqui? Depois de todo esse tempo, ainda terá coragem de vir? Como se ela estivesse lendo minha mente, minha mãe anuncia.

— Ele virá jantar conosco essa noite, eu convidei.

— Você fez o quê? — pergunto 

— Achei que você fosse gostar — ela diz calma. — Nunca se desgrudavam.

— Isso faz anos, mãe — tento explicar. — Não é como se eu o conhecesse mais.

Nossa conversa se encerra ali. Não quero ficar discutindo isso com minha mãe, nem com qualquer outra pessoa. Um pouco depois do almoço vejo um carro parar na garagem em frente à casa que costumava ir pra brincar. Fecho a cortina da janela, porque não tenho certeza se ainda quero encarar o que me espera.

Não gosto de mudanças, mesmo a vida tendo várias delas. Vou ao banheiro e me olho no espelho, não mudei muito ao longo dos anos. A não ser pelo meu cabelo que antes era bem comprido, agora os fios castanhos vão apenas até meus ombros, minha silhueta não mudou nada, mas cresci nos últimos anos, devo ter aproximadamente um metro e sessenta agora.

Não tem cinco minutos que estou aqui e escuto a campainha, finjo que não ouvi e faço um silêncio mortal pra tentar ouvir quem chegou, apesar que, no fundo, eu já sei. 

— Sky, é para você.

Droga! Não é como se eu tivesse pra onde correr agora. Saio do banheiro e fecho a porta atrás de mim, decidida a me manter firme, como se eu não tivesse sentindo falta dele todos esses anos. Posso ter sentido, mas não vou deixar que ele saiba, não ainda, não sem ouvir alguma coisa, qualquer coisa dele.

Quando chego à sala, ele já está lá. Não se parece nada com o menino que eu me lembrava. Ele cresceu muito, seu cabelo loiro continua tão bonito quanto me lembrava, mas seu rosto agora parece mais maduro. Tento me lembrar de que ele não tem mais que 15 anos.

— Oi — sua voz também mudou, é bem mais grossa.

— Oi — respondo, porque não faço ideia do que dizer.

— Sky, eu senti tanto sua falta.

Ele vem na minha direção, mas dou um passo pra trás. Ele para.

— Que foi? —  ele soa confuso.

— Você acha que vai voltar aqui, entrar na minha casa e me abraçar como se tivesse tudo bem? Como se você não tivesse se esquecido de mim todos esses anos? 

— Eu não me esqueci de você.

— Não me interrompa — minhas palavras soam mais frias do que eu planejava, mas ver ele na minha frente aumenta toda dor que senti. — Você tem ideia que esperei por você todos esses anos? Menti para mim mesma dizendo que você tinha se esquecido, mas no próximo ano viria — agora já não me importo que ele saiba de tudo, quando começo falar parece que as palavras saem de mim sem esforço. — Você faz ideia de quão difícil foi olhar pro céu todos esses anos, ver as estrelas brilharem, olhar para o lado e não ver ninguém?

Só paro porque percebo que estou gritando e meus olhos estão lacrimejando. Estou na frente dele agora, aponto para o seu peito, desejando com todas as minhas forças que ele vá embora. Minha mãe ouve mas não se manifesta, nem aparece para dizer que estamos, ou no caso, eu estou gritando.

— Sky, acho que a gente precisa conversar.

— Você acha? — não estou mais me importando com meu tom de voz.

— Tá legal, a gente realmente precisa conversar. Sei que você está brava, e com toda razão do mundo, mas preciso te explicar o que aconteceu. Não vai ser uma desculpa, eu mesmo não me perdoo por não ter vindo, mas ouça o que tenho pra dizer — ele fala com tanta calma que sou obrigada a assentir.

E principalmente, ele não me pede para perdoá-lo, não me pede para acreditar nele, só pra ouvi-lo, e isso eu posso fazer. Preciso fazer. Mesmo estando com raiva e muito irritada, uma parte de mim quer abraçá-lo por todos os anos que passamos separados.

 Vou até o sofá e espero que ele se sente em uma cadeira na minha frente. Ele olha para minhas mãos, mas não faz menção de pegá-las. Ainda bem, nem eu mesma sei como reagiria. Quando éramos mais novos vivíamos de mãos dadas, mas agora, acho que a sensação seria a de tocar um estranho.

— No primeiro Natal que não vim — ele começa — , eu implorei ao meu pai para me trazer, mas estava chovendo muito, o mundo parecia que estava acabando, eles estavam interditando as estradas. Fui para o meu quarto chorando, peguei a primeira mochila que vi, saí pela janela, sem meu pai ver, andei dois quarteirões até meu pai me agarrar e me levar pra casa. O vizinho o viu e ligou para o pai.

Silêncio. Ele suspira.

— Ele me convenceu que você não ficaria brava comigo, que me entenderia, que me perdoaria por não ter vindo, mas eu sabia que ficaria magoada mesmo assim, que ficaria irritada até seu rosto inteiro ficar vermelho. Achei que me bateria quando me visse depois, mas no outro ano, meu pai viajou e esqueceu. Ele tinha me deixado com umas tias e disse que voltaria a tempo, mas não voltou. Chorei a noite inteira, rezei para que ao menos você soubesse que se fosse por mim, estaria aqui. Nos outros, papai arrumou uma namorada e quis passar todos os feriados com sua nova família. Mas para mim nunca mais foi Natal, não desde aquele ano. Na época, papai me falou  que se eu tinha faltado uma vez, não tinha problema faltar de novo, e acho que pra anular minha culpa, eu acreditei — ele se recosta na cadeira e suspira. — Mas caramba Sky, eu fiquei com tanto medo de te perder, com medo que você se esquecesse de mim, pensei em te mandar uma carta, mas achei que você pudesse ter mudado ou sei lá. Fui covarde.

Ficamos um tempo em silêncio, não sei o porquê, mas pergunto a única coisa que passa pela minha cabeça.

— Minha mãe disse que você vai morar com sua avó agora —  ele assente. —  Onde está seu pai? 

— Ele — sua voz trava. —  Morreu faz três semanas.

O choque da notícia me faz arrepiar. Não consigo mais sentir raiva dele. Posso ter ficado anos sem vê-lo, mas ainda conheço o coração que bate naquele peito, e sinto mais falta do que gostaria. Pego a mão dele antes que possa pensar.

— Sinto muito.

— Sei que sente — uma pausa. —  Obrigado.

— Eu deveria ter imaginado que você faria de tudo pra vir, em parte eu tinha certeza disso.

— Deveria ter feito mais. Eu mesmo tinha dito que mudaria o mundo se fosse preciso, mas não mudei. Eu errei, e sinto muito.

— E agora que voltou, o que pretende fazer? — mudo de assunto porque realmente não sei o que falar.

— Voltar pra escola, eu acho.

— Só isso? — Pergunto. — Você costumava planejar tudo e mais um pouco — rio, mas ele não me acompanha.

— Eu mudei, Sky.

— Eu percebi — não passa de um sussurro.

O clima entre nós muda. Não temos coragem de falar mais nada.

— Bom — ele se levanta —, acho melhor eu ir . Eu volto mais tarde pra jantar, se você não se importar, é claro.

— Não, claro. Fica à vontade — tento soar o mais educada que consigo.

— Então eu acho que a gente se vê mais tarde.

— É, acho que sim.

E simples assim, ele vai embora.

Suspiro aliviada quando ouço a porta bater. Começo a andar em direção ao meu quarto, mas sou impedida por minha mãe que quase bate de frente comigo.

— Como foi?

— Se está assim tão curiosa por que não ficou ouvindo da cozinha? — falo e imediatamente me arrependo, a expressão do seu rosto me diz exatamente o que preciso pra me sentir mal. — Desculpa mãe, não quis soar grosseira.

— Tudo bem — ela me dá um sorriso compreensivo. —  A conversa não foi muito bem, não é?

— Não — afirmo. —  Mais ou menos. Ah, sei lá, eu to confusa.

Então conto a ela toda nossa conversa, desde suas explicações por não vir pra cá durante esses anos, até ele dizer que voltaria pra jantar.

— Não é uma explicação muito boa, não é? — pergunto.

— Depende — fico olhando pra ela. —  Filha, eu acho que depois desse tempo todo esperando por ele, você acabou achando que a explicação que ele te daria um dia compensasse toda a demora. Mas a verdade nem sempre corresponde às nossas expectativas. Acho que você estava esperando ele chegar e dizer algo que a faria mudar de ideia e perdoá-lo sem demora, uma história que te faria esquecer que ele a magoou. Mas a verdade é que ele era uma criança, que dependia exclusivamente do pai para tudo, não pode culpá-lo por isso.

— Você acha que devo perdoá-lo, então?

— Eu acho que você deve tentar entendê-lo — ela pega minha mão. — Eu te vi por vários anos olhando para a janela, na esperança que Arthur aparecesse, e também te vi chorar muitas vezes por isso não ter acontecido. Às vezes as pessoas nos jogam num abismo, sem terem a menor noção da dor que estão nos causando.

— Humm — resmungo.

— Não se esqueça que para reparar um erro é preciso de ações, não de palavras.

— E muitos erros? — nós duas rimos.

— Nesse caso, você mesma vai descobrir. Mas, não se esqueça, é Natal. Alguns dizem que milagres acontecem — ela se levanta para sair.

— Acha que seremos um milagre? — pergunto antes que ela vá.

— Eu o convidei para jantar — ela se vira pra mim — , ele aceitou o convite.

**

Passei o resto do dia ajudando minha mãe no jantar, na realidade, ajudei mais na sobremesa. Tinha panetone, rabanada, e o que não podia faltar, bolo de chocolate, meu favorito. Não trocamos uma palavra sobre a conversa de mais cedo enquanto fazíamos tudo. Só ficamos ali, cozinhando e cantando músicas de Natal a tarde inteira. Eu amava isso. Amava passar esse tempo com ela.

— Vá se trocar, eles devem estar quase chegando.

Olho pro relógio e percebo que ela está certa. Não tinha percebido o tempo passar.

— Já vou, só me deixa terminar de mexer esse brigadeiro.

— Pode ir, eu termino pra você — ela diz pegando a colher.

— Não, não e não — falo puxando a colher de volta. — Nós duas sabemos que seu brigadeiro não é tão bom. 

Ela coloca a mão no coração e finge que está magoada, mas acaba rindo porque ambas sabemos que falei a verdade.

— Vai se arrumar primeiro, eu acabo aqui – disse para minha mãe. 

— Tá bom.

Ela passa a mão pelo meu cabelo e beija minha bochecha.

Quando ouço o chuveiro sendo ligado, já estou terminando de colocar o bolo na geladeira e ouço a campainha tocar.

Olho pra minha roupa e… merda! Estou toda suja de farinha e minha blusa tem mais chocolate do que seria considerado normal. Meu cabelo está preso em um coque desengonçado. Olho para o relógio, parece que alguém está mais pontual do que deveria. Quem chega antes do horário? Mesmo morando aqui do lado. Não podia atrasar só cinco minutos? Dez?

Tento tirar um pouco de farinha da roupa, mas acabo espalhando ainda mais, deixando meu short preto quase cinza. Tento esconder a vergonha e vou o mais plena possível atender a porta.

Estou sorrindo quando abro, mas meu sorriso acaba quando vejo Arthur parado ali. Caramba, ele está  muito lindo. Ele está com uma roupa casual, simples, mas ainda assim lindo. Faço um movimento para deixá-lo passar e sua avó vem logo atrás. Não a conheço, mas dou um grande sorriso quando a vejo.

— Oi, querida! Sky, certo? Arthur me falou tanto de você — ela me puxa pra um abraço. — Não estava errado quando disse que era muito bonita — ela fala pro neto.

— Obrigada — digo meio constrangida.

Arthur falou de mim para ela. O que será que ele disse? Faço uma anotação mental para mais tarde fazer-lhe  uma pergunta discreta.

— Eu trouxe bolo de chocolate pra você, onde coloco?

— Humm —  gaguejo. — Pode colocar no balcão da cozinha.

Ela sai pelo corredor em direção a cozinha.

— Seu preferido — Arthur sussurra no meu ouvido. Consigo sentir o cheiro do seu perfume, o mesmo de sempre.

— O seu também.

— Você lembra?

— Faço todo o Natal, não tem como eu esquecer.

Tento dar uma desculpa. Mas é verdade, eu me lembrava, me lembrava de tudo. Do jeito que nossas mãos se encaixavam, até de como eu fingia dormir no ombro dele só para ele me fazer carinho sem eu pedir.

— O que você tá pensando?

— O quê?

— Você tava rindo sozinha a segundos atrás.

— Acho melhor a gente ir pra sala — tento disfarçar, ele percebe, mas não diz nada.

Quando chego lá, a avó de Arthur e minha mãe já estavam embaladas em uma conversa, as duas riam, como se fossem velhas amigas. Minha mãe e sua facilidade de conversar com qualquer pessoa.

— Bom, acho que vou subir e tomar um banho —  anuncio.

— Vem aqui, Arthur. Senta com a gente.

É a última coisa que ouço antes de subir as escadas e me trancar no banheiro.

Tomo um banho não muito demorado, coloco um vestido jeans soltinho, passo um pouco de maquiagem e tranço meu cabelo para trás. Quando estou descendo a escada, vejo que todos já estão na mesa. O cheiro da ceia invade a casa inteira e meu estômago ronca, para minha felicidade, ninguém ouve.

— Estávamos te esperando, agora que chegou, o jantar está servido — minha mãe anuncia.

— O cheiro está divino. 

— Obrigada Dorothy, espero que o sabor também esteja —  mamãe ri.

O jantar é tranquilo e não fica um clima pesado, agradeço em silêncio por isso. A conversa gira em torno de qual melhor vaso para plantar tal tipo de planta. Mamãe adora jardinagem, e por esse motivo temos um jardim encantador. Olho para Arthur, que finge estar super interessado na conversa e só dá risada. Quando ele me olha, desvio o olhar. Quando já estamos fartos de comer, minha mãe pergunta:

— Quem quer sobremesa?

— Eu trouxe bolo de chocolate, Emily.

— É muita gentileza sua. Sky também fez um — ela completa.

— Parece que alguém gosta muito de bolo aqui

Dou uma risada sem graça.

— Na verdade, Sky e eu vamos sair antes da sobremesa.

— Vamos? — Pergunto surpresa.

— Vamos — ele se levanta. — Guardem bolo pra quando voltarmos.

Ele olha pra mim, desvio o olhar e encaro minha mãe. Tenho certeza que estou com um olhar confuso porque minha mãe apenas sorri e me encoraja.

— Vamos guardar.

— Ótimo — ele pega minha mão e saímos pro jardim.

— Pra onde você quer me levar?

— Não vou tentar te matar, Sky—  ele debocha. — Só quero te mostrar que ainda posso ser o menino que entrava pela janela do seu quarto, para podermos brincar mais um pouco.

Sorrio com a lembrança. Ele fazia isso pelo menos uma vez por semana. 

Aceno com a cabeça e ele começa andar comigo. Aceito o passeio, porque me lembro da minha mãe me dizendo que deveria ver a verdade acima da tristeza. Aceito por ele, que está tentando com muita força, mostrar que ainda acredita em nós dois. Aceito, principalmente, por mim, porque o tempo não destruiu o que eu sentia e por acreditar ser capaz de entendê-lo por completo em algum momento.

Quando já estamos no jardim de sua casa, ele para.

— Espera — ele olha para mim —,  Esqueci uma coisa.

Ele volta correndo, mas não vai para a porta de entrada, faz uma curva, passando pelo lado da casa. Vou andando atrás dele, quando o alcanço, ele está saindo do meu quarto.

— Vim pegar isso — ele me mostra nosso cobertor. — Você ainda o guarda.

— Só uso ele no Natal — falo e ele abre um sorriso. Sorrio também.

— Agora podemos ir — ele me puxa

— Mas onde estamos indo exatamente?

— Já vai ver.

Ele caminha em direção aos fundos de sua casa, quando chegamos lá, vejo a decoração. Todas as árvores tem pisca-piscas, e uma, bem alta, está enfeitada com várias bolinhas de Natal, e uma estrela bem grande.

— É a coisa mais linda que já vi – elogio.

— Foi aqui que passamos nossa última noite juntos — ele sorri com a lembrança.

— Foi. Sinto falta daquela época — admito.

— Eu também.

Ele abre o cobertor na grama e, como anos atrás, deita e me chama pra ficar junto dele.

— Quando eu percebi que não te veria tão cedo de novo, fiz meu pai comprar um cobertor igual a esse, para poder ter o que me lembrasse daquela noite. Ele comprou, mas não era igual. Esse tem seu cheiro!

Ele inspira.

— Eu nunca me esqueci desse cheiro.

Sorrio

— Tenho uma coisa pra você.

Ele tira algo do bolso.

— Um presente? — pergunto. — Não tenho nada pra te dar. De novo.

— Bom — ele começa. — Não é bem um presente.

Ele me entrega um papel. Uma carta, na verdade.

— Escrevi essa carta no primeiro Natal que passamos separados, depois que meu pai me arrastou de volta para casa, embaixo da chuva.

Então, abro e começo a ler.

“Querido Papai Noel,”

— Você ainda acreditava em Papai Noel? — Pergunto, incapaz de evitar uma gargalhada.

— Não — ele ri junto comigo. — Mas ele era a minha última esperança.

Ele me dá um empurrãozinho.

— Vai continuar lendo ou debochando da minha cara?

“Eu até que fui um bom menino esse ano, me comportei direitinho. Bem, se o senhor realmente existir, será que poderia me dar uma ajuda?

Não é exatamente um presente. É que tem uma menina, uma menina incrível, o nome dela é Sky. Eu prometi que estaria com ela hoje, e no próximo natal, e no próximo também, mas por alguma razão acho que não serei capaz de ir.

‘As pessoas não têm noção das promessas que fazem na hora que fazem’, ouvi isso uma vez, mas eu tinha. Disse que mudaria o mundo por ela e realmente o faria, se ela me pedisse.

Eu sou tão apaixonado por ela. Meu pai disse que sou muito novo pra isso, mas eu sei que se minha mãe estivesse aqui, ela iria gostar tanto de Sky, e nos apoiaria. 

Queria que ela não se sentisse tão sozinha hoje, queria que ela soubesse que estou ao lado dela, mesmo daqui. Queria que ela soubesse o quanto meu coração se acelera quando eu estou ao seu lado, o esforço que faço pra não ficar vermelho quando ela sorri pra mim.

Leve meu coração até ela,

Arthur”

 Quando termino de ler, é como se meu coração estivesse completamente preenchido. Não sinto raiva ou qualquer coisa do tipo, a única coisa que sou capaz de fazer é me lançar contra Arthur, que retribui o abraço. Ele me aperta com tanta força que quase peço para me soltar. Quase. Não peço, porque amo a forma como seus braços envolvem meu corpo, da mesma forma que seu coração envolve o meu. 

Amo o jeito que ele me segura, como se eu pudesse ir embora com o vento, caso ele me soltasse. É como se ele tivesse medo de me perder de novo, e eu entendo, porque é exatamente o jeito como estou segurando-o nesse momento.

Depois de alguns minutos, ou podem ter sido horas, nos soltamos. Seu rosto está vermelho como se tivesse chorado, decido não comentar.

— Você ainda se sente assim? — pergunto, embora a forma como nos abraçamos já me dê a resposta.

— Cada palavra é verdadeira. Desde aquele dia até todos os que se seguiram, eu te amei. Todos os dias eu te amei de uma forma diferente e todos os dias eu desejei voltar. Não houve um minuto sequer que eu pensei em desistir de nós.

Quando ele termina de falar está com as mãos ao redor do meu rosto, sua respiração está entrecortada, seu rosto está vermelho. Faço a única coisa em que consigo pensar, o beijo. Eu o beijo porque parece certo, porque parece a única opção que tenho e, no momento que nossos lábios se encostam, ele retribui, sinto o calor subir pelo corpo.

**

Estou deitada com a cabeça em seu ombro. Ele acabou dormindo depois de algum tempo. Olho para as estrelas acima de nós.

— As estrelas estão mais brilhantes essa noite — ele fala com voz de sono.

Assinto.

Olho pro meu relógio, já passa da meia noite.

— Feliz Natal.

Me levanto.

— Feliz Natal, Sky. 

Ele sorri e meu coração aquece. Ainda não o perdoei por completo, mas isso é um processo que leva tempo e teremos esse tempo, teremos esse tempo juntos.

— Eu te amo! — admito.

— Eu sei.

— Convencido. 

E nós dois caímos na risada. Simples assim. Fácil assim, e estou novamente envolvida nos braços dele.

— Será que é muito cedo pra fazer outra promessa? — ele pergunta

— Acho que não quero ouvir promessas agora.

— É, nem eu — ele olha pra mim. — Quer fazer um pedido, então?

— Mas não é meu aniversário.

— Você pode fazer pedidos de Natal. Você não acredita em milagres de Natal?

— Você está aqui, não está?

Ele só continua me encarando.

— Eu pedi por isso todos esses anos.

Ele sorri e olha pra cima.

— Às pessoas que olham para as estrelas e desejam.

— Às estrelas que ouvem e aos sonhos que são atendidos. *

*referência: livro “Corte de Névoa e Fúria, Sarah J. Mass”.

Tulipa Editora

Comments 2

  1. esse conto e a autora brigando pra ver quem é mais perfeito. comecei a ler e não queria mais parar, tinha que ter continuação. sky e Arthur muito fofos ❤❤

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