Quando o amor chega a sua porta – Lays Caminha

Imagine o cenário: você conhece o amor da sua vida quando ainda é criança e, por um infortúnio do destino, se separam. Mas a literatura, mágica como só ela, mexe os pauzinhos e reorganiza tudo. O que será que os livros reservam para Julia e Alex?

Sabe aquele momento em que todas as situações absurdas da vida começam a fazer certo sentido? Hoje percebi que todas as loucuras que vivi me fizeram chegar onde estou. A esse momento. Parada diante desta porta de madeira maciça, olhando para esta guirlanda de Natal com bolas vermelhas, sentindo o ar frio do inverno congelar meus pulmões. 

Tudo me fez chegar  a este momento aqui e agora, de pé, mirando minhas botas, enchendo-me de coragem e prestes a mudar por completo a minha vida. Mas antes de falar sobre o que estou fazendo aqui, preciso voltar ao ano em que tudo mudou. Eu tinha dezesseis anos e todas as inseguranças da vida depositadas sobre minha pele. A menina boa que tinha conseguido bolsa para estudar em um colégio particular. A garota que, apesar da separação dos pais, nunca deu problemas para a mãe que a criava sozinha, dividida entre seus dois empregos. A Júlia que sonhava com as novelas e filmes que passavam na televisão, que lia romances como se estivesse lendo o diário da sua própria vida, mas não sabia viver a realidade fora da biblioteca.

Essa era eu naquele ano. Nerd, desajeitada, encaracolada e insegura. Posso justificar minha inseguranças com falta de referências e diversidade, afinal essa era a época em que o lindo era magro, loiro e liso. Além disso, tinha a eterna sensação de estar sempre sendo abandonada. Qual a solução? Não me apegar. Paixão sempre, mas deixar meu coração na mão de alguém? Nunca! Mas vamos parar de falar sobre a infância, o foco é o ano em que tinha dezesseis. O motivo? Este foi o ano que conheci o amor da minha vida. Você leu certo: AMOR! Pena que eu não sabia disso na época.  

 ** 

14 anos antes

Entrei naquela biblioteca com a enorme vontade de fugir da aula absurda de física. Nunca fui boa em exatas, mas aquelas fórmulas já estavam martelando minha mente e não conseguia mais respirar dentro de sala de aula.

— Bom dia, Elaine — entrei sorrateira pela porta de vidro da biblioteca indo até a bibliotecária. — Preciso de alguns livros.

A mulher de meia idade e cabelos amarelados olhou-me ressabiada pelos óculos de aro marrom.

 — Você sabe que em horário de aula não posso emprestar nada, Julia.

— Por favor, Elaine. Eles estão me matando lá! Eu não aguento mais ver aqueles números e letras dançando na minha frente — atravessei o balcão quadrado fugindo da vista do inspetor que passeava pelo pátio. — Cada um tem seu lugar no universo. Eu sou de humanas, não gosto de números. Pra que misturar os dois grupos?

Elaine balançou a cabeça negando estar ouvindo aquelas asneiras às dez da manhã. 

— Só vou permitir porque falta pouco para o recreio. Pode pegar os livros e esperar na cabine dois. Se te virem aqui fora vai sobrar pra mim — rosnou em um olhar quase ameaçador.

Pulei sobre o balcão e dei um beijo em seu rosto. 

— Obrigada. Eu te devo uma.

— Ok. Chega de melação. Vá logo.

Passei direto pelos corredores de aventura e suspense e cheguei ao meu amado setor de romances. Nossa escola tinha uma biblioteca considerada de grande porte. Devido aos altos investimentos dos pais e patrocinadores, os alunos tinham acesso a livros que nunca poderiam comprar. Devo muito à minha amada escola.

Passei os dedos pela prateleira a procura de algo que me chamasse atenção. Jane Austen me chamou em Orgulho e Preconceito. Já tinha lido trechos soltos mas nunca o livro inteiro. Peguei-o da estante e passei na recepção para mostrar a Elaine que balançava as mãos para que eu  entrasse logo na cabine.

— Passa aqui no final do recreio para assinar o recibo de empréstimo.

Enviei mais um beijo e entrei na cabine refrigerada. Era o paraíso na terra para aquele clima abafado. Fechei a porta e joguei-me sobre a cadeira acolchoada,coloquei o livro sobre a mesa de madeira e olhei para a janela de vidro na porta. Nunca tinha ficado na cabine antes, sempre li acomodada nas cadeiras e mesas principais ao longo da biblioteca. Observei que tinha uma pequena abertura retangular no topo da parede. A minúscula sala tinha sistema de ventilação central e essa abertura, com uma persiana, ligava uma sala à outra. Voltei meus olhos para o livro antigo em minhas mãos,como amava o cheiro de suas páginas. Mesmo não sendo novo, e aguçando consideravelmente minha rinite.

— ATCHIM! — Soltei em volume nada apropriado.

— Saúde — dei um pulo da cadeira ao ouvir o som de uma voz. Jurava estar sozinha.

— Obrigada — cocei o nariz até não poder mais. — Não devia ter cheirado esse livro — meu nariz começava a concordar comigo quando outro espirro veio. — Atchim!

— Acho que a saúde que disse antes já vale para todos os outros espirros — a sua voz tinha um quê de sorriso, e eu gostei, por mais que estivesse rindo da minha alergia.

— Fique tranquilo. Se for me desejar saúde a cada espirro que der na vida, não terá sossego — respirei fundo e tentei me concentrar nas páginas do livro que começava a folhear.

— Rinite? — interrompeu-me após umas dez palavras.

— A própria. Mas são anos de experiência. Herança do meu pai, fazer o quê?

— Eu tenho heranças ruins também. No meu caso tendência a calvície e barriga saliente depois dos quarenta anos se for julgar o histórico do meu pai. Agora pela minha mãe…

Fechei o livro. Não ia conseguir paz com aquele garoto falando, então melhor deixar pra ler em casa. 

— Sua mãe? — perguntei, agora curiosa.

— Tendências de auto sabotagem, além de compulsão por doces, o que não ajuda em nada a questão da barriga aos quarenta.

Eu me peguei sorrindo de lado com o comentário. Quem é você, Julia? Rindo de piadinhas de um estranho?

— E pela sua mãe. Quais suas heranças mais significativas, senhorita rinite?

Parei um pouco para pensar em todas as questões que herdaria da minha mãe. Só pensava nas coisas boas, mas as ruins eram mais preocupantes, talvez por isso não tenha perdido tempo analisando.

— Nunca pensei sobre isso. Mas olhando rapidamente acho que a autocrítica. Talvez ansiedade e o enorme desejo de dominar o mundo.

O garoto riu alto. Talvez me considerasse  louca. Mas sinceramente, pela primeira vez na vida não estava preocupada.

— Como assim? Sua mãe é o Cérebro por acaso?

— Como? — perguntei sem entender.

— Fala sério, Pink e Cérebro eram meus companheiros nas manhãs. O desenho, lembra?

— Ah, lembro. Não gostava muito deles. Tenho pavor de rato. Mas sim, minha mãe tenta fazer tudo do seu jeito. Ela quer controlar tudo com as mãos, como se fosse possível.

— Espero que não fique igual. É muito cansativo abraçar o mundo.

— Não tenho como fugir do destino.

— Destino é algo que não existe. Você escolhe o que planta e a colheita é a garantia.

— Você não é agnóstico ou algo assim? — perguntei intrigada.

— Não — riu novamente. Que risada gostosa de ouvir. — Só leio muito e ponderei algumas coisas.

— Tá certo, Sr. Sabedoria.

Ficamos em silêncio. Mas eu não queria ficar quieta. Queria conversar mais com aquele estranho que tinha uma linda risada e achava saber algumas coisas da vida. Depois de alguns segundos tomei coragem e interrompi o que é que estivesse lendo.

— O que está fazendo aqui a essa hora? — perguntei.

— Acho que o mesmo que você. Fugindo de alguma aula.

— Física — falei sem jeito.

— Matemática.

— Tim-Tim — disse como se brindasse com as mãos no ar. — Não tenho vergonha de admitir que sou péssima com números e fórmulas.

— Eu sou mais amante das letras que dos números. O que já é incomum, pelo menos na minha turma. Quase todos os meninos de lá são ótimos em exatas.

— Qual turma? — eu estava curiosa. Seria da minha sala? Mas eu reconheceria a voz.

— A curiosidade matou o gato, lembra?

— Que gato, Jesus? — sorri com o comentário meio antiquado. — Isso é piada de tia.

— Devo mesmo ser uma tia velha, já que prefiro matar aula lendo e não em uma quadra de futebol.

O sinal tocou anunciando o início do recreio. Eu não queria que ele saísse. Queria conversar mais.

— Foi bom conversar com você, menina rinite. Meu estômago está roncando. Até a próxima.

— Espere! — surpreendi-me com o meu grito desesperado. — Quero dizer. Eu ainda não sei seu nome.

— Nomes são subestimados. Pode me chamar do que quiser. Do que me chamaria se pudesse?

Ok. Ele me pegou. Se eu dissesse o que estava pensando acabaria me comprometendo. Mas que se dane a insegurança uma vez na vida. 

— Sorriso. Garoto Sorriso. É piegas, eu sei.

— Sorriso. Posso saber o motivo?

— Sei lá. Sua voz tem um som alegre, como um sorriso. Acho que esse nome fica bem em você.

Ele ficou em silêncio. Ouvi o girar da maçaneta e depois o bater da porta. A tentação de levantar e ver pela janela foi grande. Não sei por qual motivo me mantive sentada por mais um tempo até que arrastei a cadeira e levantei. Era tarde. Não tinha ninguém. Saí da sala e fui meio cabisbaixa até o balcão. Elaine me aguardava com um sorriso no rosto.

— Aqui, Elaine. Vou levar esse.

A mulher digitou no computador e me passou a ficha para assinar. Pegou o livro da minha mão e escreveu na ficha que ficava sobre a contracapa. Passei os olhos pelo pátio à procura da voz misteriosa. Tentando em vão dar corpo ao Garoto Sorriso.

— Tome. Tem uma semana para entregar.

— Obrigada — atravessei o balcão um tanto cabisbaixa. Ao chegar à porta, Elaine me chamou.

— Julia, não esqueça de olhar dentro do livro. Deixaram algo pra você — provocou um tanto animada.

Olhei o livro em minhas mãos com certa ansiedade. Passei os dedos sobre as folhas e vi um marcador de livro qualquer. Do outro lado estava escrito “a garota que conversa pela porta tem voz de mistério. Nome melhor que Garota Rinite. Quais mistérios esconde a garota pela porta? Até amanhã”. Ok. Isso realmente não estava acontecendo. Eu estava com o rosto em chamas neste momento. Definitivamente algo tinha mudado depois de tantos romances, novelas e filmes. Algo inusitado tinha acontecido na minha vida chata. Esperava não estragar isso.

**

Os dias que se seguiram foram iguais. A cada intervalo, conversávamos  pela porta da cabine da biblioteca. Ele tinha dois anos a mais que eu e amava livros de aventura e mistério. Sonhava em trabalhar com livros, assim como eu, e conhecer o mundo, viajando pelo interior de cada país, pois as cidades pequenas revelavam o que de melhor existia no local: as pessoas. Tinha sonhos escondidos e outros em uma lista a realizar. A cada fim de ano, revia a lista e riscava o que tinha feito. Dizia ser a lista de presentes para si mesmo. A lista que o velho Noel tinha deixado escapar em uma de suas visitas, mas ele tinha que correr atrás por conta própria e não esperar descer pela chaminé. Esse era o garoto sorriso. Alegre, sonhador e dono da voz mais impactante que já ouvi.

Aquele dia em especial eu estava um pouco incomodada. Já tinha passado algum tempo, semanas inteiras de nossas conversas e eu sequer sabia seu nome. E se estivesse brincando comigo? O intervalo se aproximava e as borboletas saltitantes do meu estômago começavam a se agitar. Fechei o material sobre a carteira e peguei minha agenda e uma caneta, apertando-as sobre o peito, seguindo em direção a biblioteca como fazia quase todos os dias. Segui até a cabine dois que estava vazia, como se esperasse por mim. Fechei a porta e sentei-me como no dia anterior. Passei a mão pela mesa de madeira e deixei meu livro sobre ela, um pouco ansiosa, confesso. Poucos segundos depois escutei a porta ao lado se fechar. Ouvi um arrastar de cadeira e em seguida algo cair sobre a madeira que estalava.

— A menina mistério está aí? — indagou a voz que mexia com minha curiosidade.

— Oi — respondi relutante. Era tão patético aquilo tudo.

— E esse tom de voz tão sem jeito?

— Deu pra perceber?

— A voz fala muito. As pessoas dizem que os olhos são espelhos da alma, mas uma entonação revela muito sobre os sentimentos. Conta o que aconteceu.

— Nada. Só que essa situação é estranha, não acha?

— Que situação? A nossa?

— É. Eu não sei quem você é e vice versa. Ficar conversando pela porta é estranho. Fico sem jeito. Além disso, estamos na mesma escola. Quem me garante que não nos conhecemos e você está pregando uma peça na Nerd aqui?

O silêncio que se seguiu me deixou mais nervosa ainda.

— Ok. Vamos lá. Eu sou Nerd também. Amo esse jogos de enigma e estou achando divertido nosso mistério. Tenho certeza que não nos conhecemos porque eu cheguei à escola neste semestre e eu me lembraria de alguém como você.

— Você veio de onde? — questionei tentando puxar pela memória os alunos novos, mas eram muitos se não me enganava. A escola era muito grande, em área militar, era um eterno vai e vem de alunos transferidos e não saberia identificar qual deles ele seria.

— Do sul. Vim morar com minha mãe, meu pai se mudou para a Irlanda e não conseguimos ir com ele dessa vez.

— Que chato. Sinto muito — suspirei — Eu nunca saí daqui, sabia? Também sonho em conhecer o mundo. Quem sabe um dia?  

— Sonhar é o primeiro passo — ouvi um livro se fechar na cabine ao lado. — Sabe de uma coisa, vamos aproveitar as perguntas. Temos direito a uma pergunta por dia. Quem sabe até o fim do ano não descobrimos a identidade um do outro.

— Você fala engraçado.

— Engraçado como?

— Parece que saiu de um livro. Nossos diálogos são muito inteligentes para adolescentes normais, não acha?

— Vai ver eu realmente saí de um livro. Quem sabe?

“Bem que eu gostaria”, pensei. 

Depois de alguns meses conversando sobre nossas vidas e detalhes que nunca tinha contado a ninguém, eu já tinha entendido que estava gostando daquele garoto. O que mais me irritava era a briga interna entre curiosidade e medo, que duelavam por espaço dentro do meu peito. Queria muito conhecê-lo, abraçá-lo, mas a imagem de ser desprezada martelava minha mente até em pesadelos.

Depois da aula desci para a biblioteca como sempre. Sentei-me e esperei até ouvir o barulho da porta ao lado.

— Sorriso? — perguntei.

— Oi — respondeu cabisbaixo.

— Aconteceu alguma coisa?

— Descobri que vou ter que me mudar novamente. Essa é a minha última semana na cidade. Na verdade, o último dia.

Um vento frio passou pelos meus poros e invadiu meu coração naquele momento. Como assim ir embora? Depois de tantos anos eu finalmente tinha encontrado uma pessoa parecida comigo e ele iria pra longe.

Uma sensação de vazio tomou conta de mim e o bloqueio que eu ativava involuntariamente, se armou.

— Vai se mudar para onde dessa vez? — tentei soar despretensiosa com meu comentário.

— Irlanda. Conseguimos permissão para passar o Natal com meu pai e depois não vamos voltar. Vamos ficar com ele lá.

Irlanda. Do outro lado do mundo. O doce sonho gelado dos contos e filmes. Eu não conseguia falar. Uma massa se formou em minha garganta e não queria dissolver.

— Pois é — disse para o silêncio da sua cabine. — Como é meu último dia, acho que está na hora de saber meu nome. Sou Alex.

Alex. Eu tinha imaginado mil nomes e rostos para aquela voz com som de sorriso.

— Júlia.

— Então, Julia, acho que falta derrubar essa parede e nos vermos pessoalmente, não acha?

— Acho que sim.

Escutei um som de cadeira sendo arrastada. Meu coração parecia dançar um samba naquele momento, saltitando e remexendo dentro do peito. Levantei, indo em direção à porta.

— Ei, cara. Estão te chamando com urgência lá na secretaria — ouvi do outro lado da porta.

— Já vou — Alex respondeu. A porta se abriu e pela janela da minha cabine eu o vi de lado. Parado em frente a minha porta, poucos centímetros de finalmente nos conhecermos. Ele poderia não parecer o mais bonito dos garotos. Acho que, para qualquer desavisada, Alex passaria despercebido com seu aspecto tão comum. Não para mim. Então, sem que eu esperasse ele se virou, olhou em meus olhos e sorriu. Naquele instante, o mundo poderia parar de me ligar. Seu olhar tinha sorriso e não apenas seus lábios e sua voz. A porta que nos separava foi aberta e seu sorriso invadiu o ambiente até então cinza e gelado. Um incêndio parecia subir pelas minhas pernas e queimar compulsivamente meu estômago.

— Olá, Julia Mistério.

— Olá, Alex Sorriso.

** 

14 anos depois

​Acordei apressada como sempre. Por mais que o despertador socasse minha cara todas as manhãs, eu sempre arrumava um jeito de enrolar na cama e acabar me atrasando para o trabalho. Cheguei à editora  abarrotada de pastas e um bolinho de frutas na mão. Minha sala era no último andar do prédio central. Sala, até parece. Na verdade minha baia. Trabalhava na editora há dez anos, desde o estágio e essa sempre foi a “baia da Julia”. Próximo ao vaso de palmeira ráfia no canto esquerdo, à sombra, de frente para o corredor. Parecia um lugar escondido, mas para uma revisora tímida como eu, era o lugar perfeito.

Joguei as pastas com os manuscritos que tinha levado na semana anterior sobre a mesa. Tinha passado a madrugada devorando o último livro da série de aventura da autora principal de nossa editora. Peguei minha caneca de bichinhos sobre a mesa e corri para a copa em busca do santo café.

— Júlia, bom dia! — soltou Marina, antes que chegasse ao corredor. — Terminou a revisão do livro? Estamos em cima do prazo

Ela era a editora executiva mais casca grossa que conhecia. Ela e seu irmão comandavam a empresa do pai, ele como Editor Chefe, responsável pela linha editorial e ela pela parte de vendas, marketing, mas acabava fazendo de tudo, pois seu irmão não gostava muito do emprego. Só dos lucros.

O bolinho de frutas esfarelava em minha mão, enquanto meu estômago clamava por  socorro.

— Sim, já terminei. Vou só pegar um café e levo na sua sala.

— Não demore. Temos uma reunião com ela hoje à tarde e quero mostrar o trabalho pronto antes do lançamento, que por sinal foi antecipado.

— Não ia ser antes do ano novo? — questionei.

— Resolvemos fazer na festa do dia vinte e dois. Assim, aproveitamos as vendas do Natal e lucramos ainda esse ano. Espero você aqui no dia. Vamos ter uma coletiva sobre o último livro da série e toda a equipe irá participar — Marina saiu sem me dar direito a resposta.

— Tudo bem — respondi para mim mesma sem um pingo de entusiasmo. Meus planos para o natal eram simples porque odiava essa época do ano, mas não queria passar a semana na aglomeração que ficava a cidade. Tinha comprado passagem para visitar minha avó e minha mãe no interior, rever minhas amigas de infância e a cidade em que passei boa parte da minha vida. Peguei um café na copa e finalmente comi o bolinho de frutas esfarelado. Voltando para minha mesa, notei um certo burburinho no escritório.

— O que aconteceu, Carla? — perguntei a assistente editorial da baia ao lado.

— Parece que a concorrente lançou um concurso para o fim do ano com um ótimo prêmio. Sabe qual? É aquela editora internacional que abriu filial aqui na esquina. Espero que Marina não tenha visto, pois se viu  vai soltar fogo pelas ventas essa semana.

— Como é isso? — questionei debruçando-me sobre a meia parede de compensado mirando a tela do computador.

— Eles querem lançar um nome novo para a editora. Você tem até o último dia de novembro para enviar um romance original. O autor vencedor será publicado e ganhará um bom prêmio em dinheiro.

— Que legal. Espero que Marina não veja. Vai ficar insuportável.

— Pois é. Não quer publicar autores desconhecidos, aí a concorrência aproveita. A empresa deles está crescendo e ela não se deu conta que já passamos da fase “best”. Nossa editora precisa olhar melhor para outros estilos e outros autores. Fica nessa de somente publicar clássicos, autores renomados ou famosos da internet e não olha os talentos que temos espalhados pelo país. — Carla mascava seu chiclete compulsivamente, parecendo meio cansada daquela situação. — Você, por exemplo.

— Eu? — protestei. — Não sou autora.

— Porque tem medo. Eu já li seus rascunhos e você não perde em nada para essa fulana sem imaginação que vamos lançar no Natal.

— Para com isso, Carla. Não tenho talento para…

— Tem sim, Julia — interrompeu. — Você não tem  coragem de se arriscar. Lembra do livro que me pediu para ler? Achei tão fofo, seria um ótimo romance adolescente. Sabe que nosso mercado carece de autores para essa faixa.

— Eu… eu… — gaguejei.

— Vai se esconder até quando, Ju? Você tem talento, só precisa se arriscar. Vai passar o resto da sua vida escondida nessa baia mofada?

Carla tinha razão. Eu já trabalhava nessa empresa há tanto tempo e não tinha conseguido nem o mínimo de consideração. Estava terminando o mestrado em literatura e, modéstia à parte, era uma das mais competentes revisoras dali. Já tinha enviado dois manuscritos para Carla olhar mas nunca tive coragem de enviar para alguém publicar.

— Você acha que teria chance,  você sabe,se eu enviasse um original para o concurso? Acha que teria alguma chance? — indaguei baixinho, um tanto insegura.

— Com minha ajuda, sim. — soltou Carla com  um sorriso conivente. — Para não termos problemas com seu emprego, você pensa em um pseudônimo e dê uma olhada no seu original. Consegue arrumar até o fim da semana?

— Acho que sim.

— Julia, não ache, tenha certeza! Envia para meu e-mail o original, assim que terminar a revisão. E quanto ao pseudônimo, alguma ideia?

— Não. Acho que as letras soam legais, tipo como fez a J.K Rowling. O que acha?

— Perfeito.

— Pode ser J.M. — Falei depois de pensar um pouco.

— De Julia Mendes?

— Não — sorri. — De Júlia Mistério.

— Olha ela, toda afrontosa! — gargalhou Carla com os braços para cima. — Adorei.

Respirei fundo impulsionando o ar a preencher  meu peito apertado pela ansiedade. Eu finalmente teria coragem de sair do casulo.

Desde que me formei em Letras, sonho com esse momento em particular: ser reconhecida como autora e finalmente poder viver de livros. Talvez o estágio e emprego em uma das mais renomadas editoras do país tenha sido a porta de entrada que almejei durante todo meu curso, mas e o depois? Após longos anos de trabalho, permanecia na mesma função. Não sabia bem o motivo, uma vez que, desde a entrevista, a chefia sabia da minha pretensão. Tudo bem que nunca tive coragem de mostrar mais nenhum manuscrito, depois de praticamente ser humilhada a  uns anos atrás. Juntei um original meu à enorme pilha sob a mesa de Marina. O que ela fez? Riu, jogou-os no lixo após uma breve passada de olho, e seguiu com seus clássicos, autores famosos e consagrados. Mas agora seria diferente. Talvez com uma editora mais moderna eu teria chance.

Cheguei em casa e liguei a cafeteira e o notebook. Reguei minhas plantinhas sobre a bancada da janela e prendi os cachos no topo da cabeça. Tirei os sapatos e sentei-me à escrivaninha antiga que tinha comprado no brechó da praça central.

— Vamos lá. É agora ou nunca.

Abri o original que mais me orgulhava, depois de todas as bobagens que escrevi. Talvez tivesse a constante voz da síndrome de impostor  em minha mente, mas dessa vez ela se calou e consegui escrever uma história possível. Algo que me enchia de orgulho e esperança. Enchi a caneca de café e voltei minha atenção à revisão  do livro da minha vida. 

** 

Algumas semanas depois

— JULIA! — gritou Carla na entrada do elevador, antes que eu pudesse chegar decentemente ao trabalho.

— Oi, Carla. Bom dia. Vai subir?

— Você não atende a droga do celular, Júlia!

— Deve estar silencioso. O que aconteceu?

— Vamos até a cafeteria aqui da esquina. AGORA!

Carla me puxou pelo braço e corremos feito adolescentes abobadas pelas ruas encharcadas do temporal da noite. Entramos na cafeteria e pedimos algo para beber no balcão.

— O que foi Carla? O que aconteceu para você gastar dinheiro aqui e não tomar aquela gororoba preta que servem no escritório? — zombei da minha amiga pão dura.  Ela pegou a notinha da mão do atendente e puxou-me para uma mesa isolada no canto, feito agente secreta repassando uma missão.

— Julia, você não vai acreditar.

— Fale logo! Estou começando a ficar nervosa.

Carla olhou sobre os ombros para um lado e para outro, antes de aproximar-se sob a mesa redonda. 

— Sabe o concurso?

— Sei. Você enviou o original faz semanas. Já tinha até esquecido. O resultado foi ontem, não foi? — questionei apreensiva.

— Você ganhou!

Um silêncio desconcertante, seguido de um zumbido agoniante arrebentou meus ouvidos. Eu tinha ganho o prêmio. Eu seria publicada. Por mais eu estivesse confiante, o que já era anormal para minha pessoa, e não contava com o primeiro lugar. Não mesmo.

— Eu… Como…?

— Parece que não confia no seu talento, não é? — riu — Eles enviaram um e-mail ontem à noite para a conta que criei. Você vai ser publicada, Ju. Parabéns! Eles marcaram uma reunião amanhã à tarde.

— Mas como vai funcionar? E meu emprego? Ai, meu Deus. Eu não posso publicar em uma editora tendo vínculo com outra!

— Garota, uma coisa de cada vez. Nós vamos à reunião e em seguida pensamos no tal depois — Carla afagou meu braço — Acalme-se, Ju. Vou com você, ok?

O dia passou como um borrão sem que eu notasse, assim como a noite. Estava tão ansiosa que não sabia o que escolher ao certo para vestir. Depois de me atrasar consideravelmente para o trabalho na manhã seguinte, entrei no escritório com uma garrafa de chá calmante nas mãos e um embrulho no estômago. Carla sorriu de sua cadeira giratória, levantando os polegares ao girar duas vezes, como se isso fosse me animar.

Passei boa parte da manhã envolvida com algumas revisões para entrega imediata. O enorme relógio da parede lateral destilava seu veneno ao demorar consideravelmente para passar de um ponteiro a outro. Envolvi minha ansiedade em mais dois capítulos de revisão, para não enlouquecer de vez.

— Vamos? — assustou-me Carla. Já tinham passado duas horas desde a última olhada nas horas.

— Vou passar no banheiro para arrumar um pouco o rosto e cabelo. Minhas olheiras estão no pé! — Falei arrastando minha bolsa.

Seguimos para o banheiro e em menos de dez minutos, estava pronta.

— Fiz o meu nome nessa maquiagem, amiga — constatou Carla ao olhar meu rosto no espelho. — Agora vamos, senão vamos nos atrasar. Como sua agente, não aconselho atrasar em sua primeira reunião de trabalho, dona autora publicada.

— Agente? Quem te deu esse cargo absurdo?

— A J.M, não sabia? Vamos!

Corremos pelas ruas como se fossemos duas doidas varridas, até que avistei aquele prédio antigo de fachada de tijolos aparentes. O local já estava todo enfeitado para o Natal, por mais que ainda fosse início de dezembro. Chegando à recepção, uma jovem de cabelos coloridos nos recebeu com um enorme sorriso no rosto.

— Boa tarde. Estamos aqui para uma reunião com o editor-chefe. Estamos agendadas.

A jovem olhou algo em seu tablet e levantou, saindo de trás do balcão suspenso.

— Claro. J.M, certo? Qual das duas é a autora? — examinou curiosa.

— Eu — respondi um tanto tímida. — Ela veio me acompanhar.

— Entendo — seguimos por um corredor iluminado com diversos quadros com capas de livros. — Venham. O Alexandre vai recebê-las em breve. Podem aguardar aqui, ele virá chamá-las.

— Obrigada.

​A jovem se foi. Carla e eu olhamos tudo à nossa volta, encantadas com a modernidade e aconchego do lugar. Os funcionários passeavam com leveza, diferente da nossa realidade no escritório.

​— Nervosa? — perguntou minha amiga.

— Menos do que pela manhã cedo. A mistura de chás calmantes deve ter me abatido. Estou com cara de drogada? — Passei os dedos pelas bochechas e em torno dos olhos.

— Para, vai tirar o blush! Está ótima, naturalmente linda! Claro, com meu toque especial nesses olhos de jabuticaba. Ficaram lindos com esse contorno.

— Não estou exagerada não?

— Oh mulher insegura, viu?

A porta do escritório à nossa frente se abriu e uma pessoa saiu com uma pilha de papéis sobre os braços. Deu-nos boa tarde e seguiu, deixando a porta atrás de si entreaberta. Carla fez sinal com as mãos para que respirasse fundo e me acalmasse, mas depois do que vi sair daquela enorme porta de vidro, o que menos iria ficar era calma.

— Boa tarde — disse o homem com um enorme sorriso nos lábios.

Poderia passar quantos anos fossem, talvez o tempo tivesse modificado sua aparência, assim como a minha, mas a voz e o sorriso eram os mesmos de anos atrás.

— Boa tarde — minha amiga respondeu animada.. — Sou Carla e essa é nossa vencedora do concurso.

Eu permanecia sentada de lado para a entrada da porta de seu escritório e Carla inconscientemente bloqueava a visão do meu rosto. Levantei-me insegura e assustada com aquela coincidência louca, ou quem sabe peça do destino. Mas, como eu bem me lembrava, ele não acreditava em destino e esse detalhe me despertou algo na mente: ele sabia quem eu era quando leu o livro.

— Quem bom recebê-las aqui. Então você é a nossa vencedora? Eu me chamo…

— Alex Sorriso — respondi por ele, olhando-o nos olhos pela primeira vez em quatorze anos.

— Eu sabia que era você, Júlia Mistério.

**

Carla roeu as unhas durante aqueles poucos segundos que passamos nos olhando. Parados feito idiotas com as mãos estendidas, apertando nossos dedos, tentando entender ou aceitar que aquela situação estava mesmo acontecendo.

— Julia? — Sussurrou Carla — O que está acontecendo aqui?

— Desculpe — disse Alex. — Muito prazer em conhecê-la, Carla. É que não vejo a Júlia há…

— Quatorze anos, mais ou menos — respondi. Não que estivesse contando.

— Certo. Nossa! — Exclamou. — Quanto tempo! Mas vamos entrar, não podemos ficar em pé aqui no meio do corredor. Entre, por favor! — Falou indicando a porta, sem tirar os olhos de mim.

Confesso ter ficado desconcertada com a situação. Tantos anos separaram a gente. A distância também, mas acho que o pior foram as inevitáveis situações da fase adulta, como falta de tempo, estudos e compromissos. A vida de modo geral.  

Sua sala era bonita e arejada, as enormes janelas de vidro iam do teto ao chão, abrindo vista para a avenida movimentada ao lado de fora. Sentei-me ao lado de Carla, que parecia desconfortável ou algo assim, já que ela arregalava os olhos tentando me dizer algo que não entendia. Alex sentou em sua cadeira e, depois de um longo suspiro, voltou seu olhar ao meu. Como era lindo. Eu não tinha ideia que o tempo podia ser tão amigável para uma pessoa. Aquele garoto franzino e que passaria despercebido em uma sala qualquer, agora era um homem encorpado, moderno e com o rosto livre do aspecto infantil que conheci anos atrás.

— Então, Julia, parabéns pelo prêmio! Eu realmente fiquei impressionado com seu talento e com sua história — sorriu.

— Como se não conhecesse essa história, não é? — brinquei.

— Julia? Pode me contar o que está acontecendo, por favor? — Carla proferiu entre os dentes de um sorriso forçado.

— Eu conto — Alex interrompeu. — Eu conheci a Julia na escola, há muitos anos. Na verdade, tivemos um encontro face a face, pois conversávamos através de uma fina parede branca da biblioteca.

— VOCÊ É O GAROTO DA BIBLIOTECA! — exclamou Carla, quase caindo da cadeira.

— Eu mesmo — riu. — E imagina minha surpresa ao ler, entre tantos manuscritos, a minha própria história. Eu sabia que era você.

— Foi por isso que me escolheu?

— Não, eu não escolho sozinho. Na verdade, minha opinião nem contou tanto, eu separei as boas histórias e a equipe que selecionei fez uma votação. Você venceu por mérito próprio.

— Obrigada — agradeci sem jeito.

Depois de passar alguns minutos explicando como funcionaria o contrato e o lançamento do livro, finalmente assinei o papel que colocaria meu nome no universo literário pela primeira vez. Tudo muito prático.

— Você prefere manter o pseudônimo?

— Sim. Ainda estou com esse problema de conflito por conta do meu trabalho e, enquanto estou nessa situação, é melhor deixar tudo em sigilo, se não se importar.

— Sem problema. Tenho muitos autores que vivem nas sombras, é até um ótimo marketing. E o mistério combina com você, Julia — acrescentou.

Terminada a reunião, levantamos para irmos de volta ao trabalho. Tudo foi profissional, talvez pela presença da Carla. Um bichinho ainda dançava em meu estômago quando cheguei à porta de entrada do prédio. Alex permaneceu ao meu lado, volta e meia encostando o braço no meu, causando-me ondas elétricas involuntárias.

— Obrigada por nos receber, Alexandre — minha amiga estendeu a mão com um sorriso sem jeito. — Eu vou esperar você na loja ali da frente, Julia. Preciso comprar uma coisa — Carla piscou e seguiu pela rua até a lojinha de doces, deixando-nos a sós.

Alex permanecia com os mesmos olhos brilhantes que um dia me fisgaram e o sorriso radiante que tatuei na minha mente.

— Pois é — eu era velha demais para ficar sem jeito, mas estava. As pessoas sempre acham que só os jovenzinhos imaturos não sabem bem o que fazer em situações assim. Mentira. Nunca se é tarde para passar pelo famoso momento de frisson. Desconcertante de fato.

— Está sem graça, não está? — perguntou Alex com sorriso travesso nos lábios.

— E você não?

— Não. Estou impressionado — respondeu diretamente.

— Com o que?

— Com o fato de tantos anos terem passado, mas eu ainda me sentir um adolescente abobado perto de você.

Meu rosto deve ter ficado vermelho neste momento, pois senti as chamas queimando minhas faces ao ouvir o comentário dele.

— Você nunca foi abobado pra mim — admiti. — Já eu era, com certeza.

— Também não. Era incrível pra mim.

Não sabia ao certo o que falar. Olhei meu relógio de pulso por impulso. Já estava no horário de voltar.

— Preciso ir.

— Mas temos tanto o que conversar — falou com olhar de súplica. — Se esperar um pouco podemos tomar um café, o que acha?

— Conversar? Eu não sei. A Carla está me esperando — olhei para a loja e vi a figura de mulher envolvida e enrolada com os doces na porta da loja. — Ok! Vou falar com ela e te espero ali.

— Perfeito. Só vou fechar minhas coisas e encontro você.

Seus lábios se ergueram naquele sorriso perfeito, digno de comercial de creme dental, acabando de vez com minhas estruturas. Consegui me levar até o outro lado da rua. Encontrei uma Carla empolgada e agitada, talvez pelo excesso de açúcar.

— Garota do céu, o que foi isso tudo? — perguntou socando-me o braço esquerdo.

— Ai – gemi. — Nada, ué! Reencontrei um velho amigo, só isso.

— Julia. Ele é tudo seu, menos amigo. E se o que você escreveu naquele livro é verdade, é o amor da sua vida e ele sabe disso.

— Não exagera, Carla. Eu só peguei algo da minha vida e transformei em ficção. Não tem essa coisa de amor da minha vida.

— Se você acredita nisso é melhor falar pra ele, pois aquele olhar é de alguém muito interessado em saber se tem amor ou não — Carla sorriu. — Acho que vou sobrar. Encontro você depois. Boa sorte! — Sussurrou a última parte antes de seguir seu caminho.

— Vamos? — falou um Alex vibrante.

Parecia tão natural aquilo tudo. Nós dois andando lado a lado na calçada, falando sobre o tempo e sobre a arquitetura da cidade. É muito comum, depois de algum tempo, dois amigos saindo para um café. Parecia. Só Deus sabia o Carnaval que estava dentro da minha cabeça e a confusão que aquela situação trazia ao meu coração.

**

​O salão da cafeteria estava vazio quando escolhemos uma mesa. Fizemos o pedido e nos acomodamos próximo à janela. A cidade já respirava o clima de Natal, porém eu achava um pouco desnecessário tanta decoração para o início de dezembro.

​— Está tão pensativa — ponderou Alex, bebericando sua bebida de morango.

​— Nada. Só pensando sobre essas decorações exageradas. Nem estamos na semana do Natal ainda.

​— Não gosta do Natal?

​— Gosto de visitar minha família, mas essa comoção, fofices e esperanças não fazem muito o meu gênero.

​— Eu pensava assim como você. Acho que morar na Irlanda mudou minha perspectiva sobre a data. Lá é tudo tão…

— Natalesco?

— Se existe essa palavra, é a correta.

Eu queria perguntar sobre sua vida, mas estava receosa com o que iria ouvir. Depois de falar para Carla que não gostava dele daquele jeito, eu tinha que admitir para mim mesma que era apaixonada pela ideia de Julia e Alex formarem um casal desde a adolescência. Mas e agora?

— Então me conte, como foram os anos na Irlanda? — Bebi meu chocolate gelado, bloqueando um pouco a visão desconcertante que Alex teria ao me ver corada.

— No início foi muito difícil, não tinha amigos e entrei no meio do ano letivo na escola. Tive que repetir um ano por conta do conteúdo diferente, mas fora isso eu tive a sorte de morar em uma cidade muito linda e moderna. Dublin é incrível!

— Que bom.

Alex fincou seu olhar ao meu por um tempo. Ele parecia travar a mesma guerra interna que eu.

— Queria entender porque não me procurou mais. Eu fiquei esperando suas mensagens mas você nunca mandou — falou finalmente.

​— Alex…

— Eu esperei. Depois do nosso encontro na escola. O último, você lembra? Claro que lembra, você escreveu um livro sobre isso — riu. — O que aconteceu? — indagou.

— De verdade?

— Sempre — confirmou.

— Eu tive medo — confessei. — De que adiantaria manter contato com você por mensagem se não tinha certeza se…

— Se?

— Ah, Alex. Não nos veríamos mais. Por que manteria contato com você? Só pra me lembrar do que poderia… — cortei.

— Do que poderia ter acontecido entre a gente? — seus olhos não piscavam nesse momento.

— Alex, nós éramos crianças fantasiosas, mal nos conhecíamos.

— Mentira! — Protestou. — Eu conhecia você! Quantas conversas tivemos sobre o que sentíamos ou nossos medos? Quantas vezes falamos sobre nós dois?

— Nunca — dessa vez eu o cortei. — Ficamos flertando mas nunca falamos a verdade.

— E qual era?

— Você sabe. Não brinque assim comigo — peguei minha bolsa e levantei para ir embora. — Obrigada pelo lanche, foi ótimo reencontrar você — saí pisando duro pelo salão até a porta. Um vento gelado de chuva me pegou na entrada da cafeteria.

— Julia! Espere! — gritou Alex atrás de mim. Respirei fundo apertando minha bolsa contra o peito.

— O que é, Alex? Vai continuar me torturando? — virei-me enfurecida.

— Sobre a verdade. Fale, Julia. O que sentia por mim naquela época?

— Pra que isso agora? Já se passaram muitos anos. Somos muito diferentes.

— Porque é importante! Porque eu nunca te esqueci. Porque eu sempre amei você! — Soltou tudo de uma vez, sem aviso prévio.

Um bolo espesso formou-se em minha garganta. Eu tinha passado anos suprimindo a ideia do que poderia ter sido, imaginando estar apenas em minha cabeça e que, na verdade, éramos apenas bons amigos.

— Você o que?

Alex aproximou-se e pegou minha mão, incrivelmente suada de nervoso. 

— Eu estava apaixonado por você, Julia. Só fui idiota o suficiente pra esconder.

— Quando… como… o que… — tentei falar mas as frases não saiam.

— Eu descobri alguns dias depois que nós nos conhecemos, que aquela adrenalina toda não era só pelo jogo de mistério. Era por conversar com você, saber sobre a sua vida, passar um tempo contigo.

— Alex…

— Eu sei, foi há muito tempo. Eu nem sei como está a sua vida agora. Solteira, casada, noiva, não sei nada. Mas gostaria de descobrir a nova Julia, se você quiser.

 Ponderei um pouco. Aquele tinha sido o tal amor, possível amor que todo mundo tem uma vez na vida. A constante ideia do que poderia ter acontecido, que martela sua mente a cada fase da vida, como lembrete de coisas inacabadas que ficaram pelo caminho. Depois de Alex, tive outros relacionamentos, mas nada que fizesse meu coração disparar. Nada tão certo a ponto de pensar em viver uma vida inteira juntos.

Nunca tive isso em casa. Essa ideia de felizes para sempre não fazia parte da minha rotina, mas sempre idealizei por conta da fixação pelos romances. Passei todos esses anos com a certeza de ter experimentado um gostinho da ficção. Uma ideia de amor que nunca existiria, até porque, nosso relacionamento sempre foi platônico. Era o que eu pensava até agora.

— Pense Julia. Vamos com calma, conversar novamente, descobrir o que não descobrimos naquela época. Ver se ainda temos as mesmas afinidades ou diferenças. Eu adoraria conhecer a Julia Mendes. O que você me diz?

— Tudo bem.

Alex sorriu, iluminando tudo à sua volta. 

— Então vamos começar do início. Deveria ter feito isso anos atrás, mas não pude — afastou-se soltando minhas mãos e levando o punho fechado à boca, pigarreando como se fosse discursar. — Gostaria de ir ao cinema comigo amanhã?

​— Cinema? — gargalhei. — Ok. Eu adoraria ir ao cinema com você.

**

Passamos a semana nos reconectando. Cinema, almoços, risadas ao passear no parque. Aos poucos, pensei em finalmente abrir a guarda para deixar que algo maior florescesse. Pensei. Na prática, ainda tremia de medo. Apesar dos romances que amava, eu me sentia mais segura com planejamento e objetividade. A segurança sobre o concreto era cômoda. Eu sabia o que esperar do racional e aquilo tudo estava fora da minha zona de conforto.

— Julia, seu lançamento será na semana do Natal. Isso não é o máximo? — Alex falou, enquanto dividíamos uma taça de sundae.

— Sério?

— Está tudo planejado. Antes da minha viagem ,seu livro estará nas livrarias.

— Viagem? — Meu coração deu um pequeno solavanco.

— Sim. Vou passar uma temporada em casa. Na verdade, tinha que conversar com você sobre isso. A matriz da editora pediu para retornar para resolver uns assuntos lá. Já comprei as passagens para Dublin hoje pela manhã, é para o dia vinte e três. Eu queria…

Aquela lembrança do abandono veio em cheio. Senti um calafrio na espinha e a sensação de ter sido idiota mais uma vez. Por sorte, dessa vez não tinha aberto totalmente a guarda para não sofrer. Nem tínhamos nos beijado ainda. Eu parecia prever o desastre e estava certa. Mais uma vez ele iria embora, só que, ao contrário da Julia de antes, não ficaria despedaçada. Eu sairia primeiro.

— Que bom Alex — interrompi antes que concluísse. — Voltar para casa deve ser ótimo. Fico feliz — levantei-me apressada. — Eu preciso correr porque esqueci de entregar um trabalho para Marina. Depois nos falamos com calma.

— Julia! — gritou Alex enquanto eu saía a passos largos pela calçada de pedras portuguesas.

— Chega, Alex. Não venha atrás de mim.

— Você pode me ouvir, por favor? —Suplicou. — Ao menos espere eu terminar o que estava falando!

— Esperar o que Alex? — virei-me parando a sua frente. — Eu fui idiota ao pensar que poderíamos começar de onde paramos. Aqui está uma boba romântica. Eu já devia saber. Finais felizes só nos contos.

— Julia…

— Espero que faça uma boa viagem e que seja feliz. Sou apenas contratada da sua editora, nada mais. Chega, eu cansei de imaginar, sonhar. Chega. Adeus.

— Não faça isso, eu preciso te falar que…

Não esperei para ouvir o restante. Que ódio senti de mim mesma. Acreditei que poderia ser diferente dessa vez, mas não. A Julia só merece o que tem. Chega de sonhar.

Chegando ao trabalho eu contei tudo a Carla. Meu coração ardia no peito e era por minha própria culpa.

— Ju, não fique assim. Vocês vão conseguir resolver isso.

— Resolver o que? Não temos nada.

— Não fale assim. Vocês se gostam, é óbvio.

— Eu gosto. Ele vai embora mais uma vez. Estou cansada disso, de sonhar com o amor e perdê-lo pelos meus dedos. Será que idealizo demais? O amor não é pra ser assim? — questionei. — Sabe, Carla, não falei isso com ninguém, mas eu realmente achava que dessa vez eu tinha encontrado o homem que passaria o resto da vida ao meu lado. Eu pensei em abrir meu coração e deixar que isso fosse adiante, mas mais uma vez, estava certa. O melhor é não se apegar — um suspiro profundo segurou as lágrimas que brotavam em meus olhos. — Foi assim com meus pais e está sendo comigo. Acho que os Mendes não nasceram para amar.

— Não fale assim, amiga. Espere o tempo resolver.

— Julia — ouvi Marina me chamar com voz de poucos amigos. — Na minha sala agora.

Carla olhou-me assustada. A certeza que tinha sido descoberta fervilhava em minha mente, mas na altura do campeonato era o que menos me importava. Estava tão devastada que, contanto que não fosse processada ou algo do tipo, ser demitida seria uma bênção.

— Sente-se, Julia — falou aborrecida. — Preciso que me diga se é verdade o que li aqui.

— Sobre?

— Você vai lançar um livro em outra editora. Em nossa maior concorrente. Isso procede?

— Sim, procede. Mas uso pseudônimo para não criar conflito com meu trabalho aqui, não terá problemas.

— Isso é inadmissível! Nossa concorrente, Julia! Uma funcionária de tantos anos que não zela pelo nome de sua empresa. Que vergonha. Estou decepcionada com você.

— Vergonha? — questionei enfurecida. — Eu estou há anos ralando aqui e você nunca me deu valor. O que fez com o manuscrito que leu? Jogou no lixo e ainda riu na minha cara.

— Eu nunca li um manuscrito seu — disse ofendida.

— Eu coloquei em sua mesa há alguns anos e você nem se deu ao trabalho de ler que o nome na capa era meu — soltei uma gargalhada debochada. — E eu? Estava na sua sala, Marina. Parada, olhando tudo. Você folheou, riu e jogou fora junto aos outros. O que queria que fizesse? Fosse sua empregada pra sempre? Tenho sonhos também — soltei tudo que estava engasgado por anos.

— Que audácia. Como pode falar assim com sua chefe? Está demitida! — Gritou.

— Ótimo! Boas festas!

Dessa vez fiz o que realmente queria fazer. Peguei minhas coisas na mesa, deixei minha baia mofada, joguei tudo em uma caixa e corri para o elevador.

— Julia! Ela sabe? — correu Carla atrás de mim.

— Sabe. Estou fora, Carla. Nos vemos depois do ano novo se eu voltar. Estou indo para a casa da minha mãe, preciso respirar.

— Boa sorte amiga. Sinto muito por te por nessa situação.

— Você salvou minha vida, Carla. Finalmente terei um nome e uma história pra contar. Saí daquele canto escuro e vou reescrever minha vida.

— Está certa. Fique bem. Eu passo na sua casa para cuidar das plantas. Ainda estou com a chave.

— Até logo, amiga.  

Ela me deu um abraço apertado e eu entrei pela última vez no elevador da editora. Apesar do coração doído, estava aliviada por finalmente ter tido a coragem de dizer aquelas coisas à Marina.

Passei em casa e coloquei minhas roupas em uma mala. Reguei minhas plantas e deixei instruções para que Carla cuidasse delas. Deixei o endereço e telefone da minha mãe, caso precisasse, fechei a porta sem olhar pra trás.

Ao longo da estrada, tentei esvaziar minha mente, em vão, pois tudo me lembrava Alex. Uma hora depois, chegava a casa da minha infância, na cidadezinha que jurei nunca mais morar, mas a vida é cheia de surpresas. Minha mãe e avó estranharam minha chegada repentina. Depois de tomar um banho e deixar minha mala no antigo quarto, encontrei uma linda mesa de café me esperando na cozinha.

— Não precisava de tudo isso, vó.

— Claro que precisava. Compramos tudo que você gosta para recebê-la na semana que vem, então já estou adiantando os trabalhos. Olha, tem pão de queijo no forno e já coloquei água para ferver. Daqui a pouco o café sai, piquitica — minha avó sempre me chamou assim e eu amava.

— Sua avó caprichou dessa vez — disse minha mãe ao chegar à cozinha. — Senta, filha. Vamos conversar enquanto o café não sai — puxou uma cadeira de frente pra mim e acomodou-se como se nada estivesse acontecendo.

— Como estão as coisas, mãe. E o trabalho?

— Terminei tudo à tempo, graças a Deus. A escola estava uma loucura esse ano.

— Todos os anos, né? Quem manda ser diretora daquele lugar estranho?

— Não fale assim, Julia. Você foi muito feliz lá.

— Naquela época, você era apenas professora e os alunos eram menos problemáticos. Não te dei metade dos problemas que seus alunos dão aos pais e professores.

— Pode até ser, mas cada um tem uma história. Ninguém é assim, problemático como você diz, porque quer. Aprendemos a ser o que somos, e às vezes essa situação é só uma forma de pedir socorro.

— Deve ser por isso que estou assim — sussurrei.

— O que aconteceu? — minha mãe cortou um pedaço de bolo de fubá e colocou em meu prato, depois serviu-se e serviu minha avó, que já estava sentada ao meu lado.

— Ok. Eu vou contar tudo.

Depois de dizer toda minha história com Alex, o livro e a saída da editora, minha avó e minha mãe só se olhavam em silêncio.

— Acho que devo ter algum problema. Pode até ser a tal herança do dedo podre que herdei de você. Os Mendes não devem ter nascido pra essa coisa de amor.

— Por que diz isso? — perguntou minha avó ao colocar o pão de queijo na mesa.

— Minha mãe não foi feliz com meu pai, depois que ele foi embora nunca mais ficou com ninguém. E eu não vejo a senhora falar do meu avô.

— Não é bem assim, Julia. Você entendeu errado — disse minha mãe.

— Então me explica.

— Eu fui muito feliz com seu avô — argumentou minha avó. — Ele foi o grande amor da minha vida e todos os anos de casamento que tive, só me trouxeram lembranças boas.

— Então porque não fala dele?

— A saudade que sinto ao falar dele me faz chorar. Prefiro ficar com a ideia dos tempos felizes e não dos últimos anos de doença que o devastaram. Você não lembra pois era apenas um bebê, mas o câncer o definhou em poucos meses. Eu nunca mais falei dele depois de sua morte, mas isso não quer dizer que não o ame ou pense nele. É só uma forma de sofrer menos, eu acho — confessou um pouco chorosa.

— Desculpe vovó. Não sabia.

— Tudo bem, meu amor. Não tinha como saber. Mas sinto muito por não ter contado o homem amoroso que era seu avô.

— Mas meu pai não foi um bom marido pra você.

— Até certo ponto foi sim.

— Então por que ele nos deixou? — questionei.

— Existem coisas que você não sabe, filha. Na verdade, eu deixei seu pai.

 Um soco no estômago poderia ser melhor que a verdade. Cresci entendendo que meu pai não nos queria e que não amava minha mãe ou a mim.

— Eu era muito nova quando o conheci e fizemos escolhas erradas. Nunca me arrependi de ter você, Julia, nunca! Mas, ao longo do casamento, percebemos que éramos mais colegas de quarto que marido e mulher, e a essa altura isso não bastava. Como bastaria? Dois jovens recém casados com uma criança pequena e nenhum tipo de noção — riu. — Eu trabalhava tanto que quase não o via.

— Mas ele foi embora, mãe. Não conseguimos construir muita coisa depois disso.

— Seu pai passou muito tempo isolado com a separação. Depois de um tempo, ele se casou novamente e daí sua esposa adoeceu. Por isso você quase não o viu durante a adolescência.

— Eu lembro. Papai sofreu com a morte dela. Foi muito repentino.

— Depois disso, ele preferiu ficar sozinho, assim como eu. Mas nós nos amávamos e amávamos você. Não queria ter te passado a visão errada do amor, minha filha. Nós fomos felizes por um tempo, mas eu estava muito focada no trabalho e em meus estudos, não dei a atenção que nosso relacionamento precisava. A culpada da separação fui eu.

Nunca tinha ouvido minha mãe falar assim. Sempre tentou controlar tudo e segurar o mundo em suas mãos, mas admitir que tinha fracassado em alguma área de sua vida, era a primeira vez.

Depois de conversar com minha mãe e avó por um tempo eu percebi que tive a visão mais equivocada do mundo sobre o amor. Peguei a caixa de fotos antigas e sentei-me aos pés do sofá, tentando aprender um pouco mais da minha história e da minha família. Vi fotos de natais que não lembrava, dos casamentos de meus pais e avós e como nossa família era linda, mesmo sendo pequena.  

Dormi pensando sobre o quanto tinha fechado meu coração para o amor durante a vida, acreditando que estava destinada a fracassar como minha família, sempre culpando o outro ou o passado e ao invés de fazer algo para mudar minha história. Depois de alguns dias acordei disposta a procurar alguma forma de consertar as coisas e poder respirar aliviada novamente. Fiz as pazes com meu pai, pois tinha me afastado há alguns anos e descobri que ele estava morando perto dali. Saímos, conversamos e olha só, meu pai estava namorando novamente a minha mãe. Que loucura!

Voltei para casa para ligar para Carla e saber como andavam as coisas do lançamento do livro e sobre meu apartamento. A sala da vovó estava iluminada naquele início de noite e a árvore de natal repleta de presentes.

— A velhinha se antecipou. Será que descubro o que ganharei esse ano? — aproximei-me da árvore à procura do meu presente. Encontrei duas caixas, mas uma me chamou atenção pois tinha selo postal. Olhei o remetente e vi a marca da minha nova editora. Sentei-me no chão e abri o pacote, e a surpresa mais linda me aguardava: meu primeiro livro. A capa era cheia de detalhes nostálgicos e uma lágrima sorrateira escorreu do meu olho esquerdo. Abri meu livro e encontrei um envelope fechado na contracapa. Dentro havia uma carta em nome de Alex.

“Julia,

Queria me desculpar pelo mal entendido. Eu estava tão nervoso naquele dia. De verdade, eu não deveria ter começado o assunto daquela forma, eu deveria ter dito que estava indo visitar meus pais e que pensava sim em voltar a morar na Irlanda, mas que seria maravilhoso ter você comigo lá. Eu te amo, Julia, e isso me deixou abobado novamente, como se voltasse àquele dia de despedida na biblioteca e eu não conseguisse confessar que estava apaixonado por você. 

Acho que das coisas que herdei do meu pai, a pior foi a capacidade de emudecer em meio às coisas importantes ou que me deixam sem chão e você é uma delas. Desculpa se fiz você pensar o contrário. Amei cada segundo do que vivemos e da nossa história digna de livro e seria incrível ter você ao meu lado na noite de Natal. Aqui está uma passagem pra você. Como vai ver, é só de ida, pois espero que, ao aceitar, você prometa nunca mais se afastar de mim, pois quero terminar aquela história do livro com você.

Com amor, Alex”

Ao fundo do envelope tinha uma passagem e um papel com o endereço de sua casa. As lágrimas não me deixavam raciocinar novamente. Em um momento de intensidade ou diriam alguns, insanidade, corri para meu quarto, joguei meus documentos e roupas mais quentes em minha mala e corri para o aeroporto. No caminho, deixei uma mensagem para minha mãe, que chorava de alegria ao lado da minha avó e do meu pai. Elas compreenderam que aquele era o momento decisivo para o desfecho da minha história.

E depois de longas horas de voo e corrida de táxi, aqui estou eu. Parada diante desta porta de madeira maciça, olhando para esta guirlanda de Natal com bolas vermelhas, sentindo o ar frio do inverno irlandês congelar meus pulmões. Estou de pé, mirando minhas botas, enchendo-me de coragem e prestes a mudar por completo a minha vida. Aperto o botão da campainha, tentando controlar a ansiedade que me invade por completo. Esse era o momento que fechava o romance. A cena final do capítulo que não coloquei no livro.

Ouvi passos se aproximarem e podia ouvir um som de músicas natalinas ao fundo. Claro, era véspera de natal. O dia em que as famílias estavam reunidas comemorando e festejando o renascimento, ali estava eu, longe de casa, mas me encontrando pela primeira vez na vida. A porta se abriu e meu coração disparou dentro do peito.

Olhei aquele homem à minha frente, com seu suéter brega de renas e flocos de neve e pensei realmente chegar onde deveria estar.

— Oi Alex Sorriso.

— Julia? — gaguejou inseguro.

Não podia mais segurar o que estava sentindo e, com toda coragem que reuni até ali, envolvi meus braços em torno do seu rosto e lhe fisguei o beijo mais apaixonado, como se lhe desse todos os meus sentimentos de bandeja, misturados, atrapalhados, mas muito sinceros. Nem em sonho, muito menos em cena de novela ou filme. Aquele era o momento mágico entre Julia e Alex, que depois de tantos desencontros finalmente se achavam. E, como em um ponto final “natalesco”, a neve pareceu brindar a noite encantada da Irlanda, envolvendo ainda mais nosso instante, como um presente de Natal que sempre havia pedido.

Afastamo-nos por uns segundos. Podia notar uma lágrima ou outra brotarem em seus olhos de amor. Olhos que queria ver pra sempre.

— Julia — disse abrindo o sorriso que iluminava meu coração. — Você veio? Isso é real? — perguntou.

— Sim. É real, Alex.

— Este é o melhor presente que poderia encontrar na minha porta — seus pés juntaram-se aos meus, suas mãos às minhas e seu rosto permaneceu colado ao meu, sem vontade alguma de desgrudar. — Você precisa voltar, Julia?

— Não, Alex. Eu vim para ficar.

Tulipa Editora

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