Os três fantasmas do Natal – Susan B. Pontes

Quando três fantasmas resolvem unir um casal apaixonado, o plano parece perfeito. O que eles não contavam era com os obstáculos colocados pela inspetora-chefe, que tenta, a todo custo, impedir que Passado, Presente e Futuro concluam sua missão.

Todo ano a agência sobrenatural “Fantasmas de Natal” tem a missão de auxiliar adultos que estão muito perdidos, ela os ajuda a enxergarem o significado da vida. As várias filiais espalhadas pelo mundo sempre atuam com os mais diversos estilos de fantasmas, porém cada equipe é composta por três: o Passado, o Presente e o Futuro. 

Ebenezer Scrooge foi um dos que encontraram há muito tempo e que mudou de vida, além de abrir a boca para um certo escritor.

Infelizmente nem todos são bons neste ramo, e todos os anos, os três piores fantasmas são incubidos da maior prova de fogo do Natal, criada pela inspetora-chefe que tem e suas tarefas incomuns para fantasmas.

Numa sala branca, faltando apenas um mês para a maior data do ano, três fantasmas se encontravam sentados lado a lado, olhando para a parede, os semblantes perdidos e a falta de perspectiva enchiam seus pensamentos.

A fantasma do presente,  Allegra, a pequena e irônica, estava sentada no meio e mexia com uma das pernas sem parar  Vestia uma calça cáqui, tênis de cano alto, e sempre estava atrasada, o que era  muito ruim para quem é incubida de mostrar a realidade do momento.

Ao  seu lado esquerdo, estava Vlad, o Natal Futuro. Vestido com um pesado sobretudo preto, com coturnos escuros e um cabelo com um grande topete, tinha um olhar frio e calculista, e seu erro era ser sentimental demais.

No lado direito, Leonard, o Natal Passado. Tinha  cabelos ruivos, sardas nas bochechas e um estilo muito parecido com o da década de 1980, ficava a todo momento tamborilando os dedos das mão nas próprias pernas. Sem querer, era um verdadeiro desastre ambulante.

A Iinspetora-chefe chegou com seus saltos altos barulhentos, um terninho e uma prancheta nas mãos.

— Queridos fantasmas, vocês foram convocados porque são os piores em suas categorias., eEm minha experiência pessoal, nunca vi fantasmas tão horríveis e sem perspectivas de melhora.

Três pares de olhos encaravam a inspetora.

— Mas sou uma profissional que entende as situações, por isso, estou retirando todos os privilégios que vocês têm como fantasmas e para esta missão, vocês serão quase humanos.

Allegra ergueu uma das mãos.

— Excelentíssima inspetora, você está dizendo que não poderemos nos teletransportar para o passado, presente e futuro?

Ela assentiu.

— Na verdade, vocês terão recursos materiais para isso, cada um terá cartão de transporte público, dividirão uma quitinete e lógico, terão uma missão.

Os olhos de Vlad começaram a lacrimejar.

— A missão de vocês é simples, terão que reunir um casal para passar a noite de Natal juntos, essas pessoas já se conhecem e vocês apenas darão um empurrãozinho.

Leonard começou a rir.

— Dona inspetora, sabemos que as missões dos fantasmas que vem pra cá não são nada fáceis. São bem difíceis, na verdade, quase todos são reprovados.mas quando os fantasmas vêm para cá, sabemos que as missões não tem nada de fáceis, na verdade são difíceis e quase todos são reprovados.

Vlad começou a soluçar em desespero.

— Por favor, não faça isso comigo, querida inspetora. Eu não tenho para onde ir.

Seus soluços começaram a deixar todos desconfortáveis. A inspetora interrompeu a cena com um grito.

— Recomponha-se! Você é o do futuro, deveria ser assustador, e não uma mistura de  manteiga derretida com maria mole. Continuando, essas pessoas se separaram porque foram trabalhar em cidades diferentes e acabaram se distanciando, porém sempre foram amigos.

Vlad ainda com os olhos marejados.

— Querida inspetora, não acredito que você está falando de uma friendzone, isso é a segunda pior coisa. Só perde para quando  um dos dois é corno.

Leonard balançou a cabeça dizendo um não.

— Vlad, você está errado, o pior é quando você é traído pelo seu amigo, que casa com a sua friendzone. E aí te convidam para o casamento e ainda pedem para você fazer um discurso lindo sobre o quanto você ama o casal.

Allegra virou para Leonard e indagou.

— Por acaso essa é a história de como você virou fantasma?

Leonard olhou para ela.

— Infelizmente, sim! Ao que parece, se você morrer no fundo do poço emocional, você vira fantasma. E a sua?

Allegra riu.

— Sem querer eu não fui uma pessoa tão boa e virei fantasminha. E você, Vlad?

Vlad pegou um lencinho de pano que sempre carregava.

— Eu pedi para ser um fantasma.

A inspetora olhou para as três criaturas patéticas à sua frente.

— Saibam que vocês também terão smartphones, um cartão de débito e um pequeno arquivo com fotos das pessoas. Agora fechem os olhos, quando sentirem que levaram uma pancada na cabeça, abram.

Os três obedeceram, quando abriram os olhos estavam em uma quitinete minúscula.

Tinha três colchões de ar de solteiro no chão, uma pequena cozinha com um fogão, micro-ondas, geladeira e um banheiro.

Leonard se jogou num dos colchões e um som alto foi ouvido.

— Acabei de estourar o colchão.

Vlad sentou lentamente no chão, depois se deitou e assumiu uma posição fetal chorando baixo.

Allegra, viu o mapa no chão da cozinha com outras coisas ao redor. Observando as informações no papel, começou a deduzir duas coisas:

Primeiro, os dois círculos em vermelho deveriam ser as cidades em que estavam as pessoas, segundo, sua saúde mental iria pelo ralo. 

– Queridos amigos fantasmas, nós não tivemos uma apresentação formal, sou Allegra, faço parte dos fantasmas da Itália.

Vlad parou de chorar e olhou para Allegra.

— Sou Vlad, da Romênia. Em especial, gosto bastante de trabalhar na Transilvânia.

Leonard ainda no chão olhou para Allegra.

— Sou Leonard, da Argentina e provavelmente, daqui a pouco seremos ex- fantasmas, talvez devêssemos distribuir alguns currículos por aí.

Allegra negou com a cabeça.

— Vamos fazer isso da maneira certa, entendi que as pessoas são de duas cidades próximas, uma em Itapetininga e outra em Sorocaba.

Vlad ficou em pé.

— E devemos fazer com se vejam, mas temos que bolar um plano.

Leonard negou.

— Planos não dão certo, vamos apenas seguir com a sorte.

Allegra pegou os celulares e os cartões e distribuiu para eles,

— Bom, estes são aparelhos úteis. Como sou do presente, sei mexer tranquilamente com esta tecnologia.

Desbloqueando o celular, Allegra começou a pesquisar onde estavam.

Vlad pegou as fotos das pessoas. Uma era uma jovem mulher com roupas hospitalares, cabelos loiros e um lindo sorriso. O outro, um homem baixinho, de óculos e com olhos amendoados.

Allegra interrompeu os devaneios de Vlad.

— Temos alguns problemas. Estamos vivendo uma pandemia, apenas uma empresa de transporte vai para Itapetininga e estamos localizados em Sorocaba.

Vlad assentiu.

— Pelo jeito, a jovem trabalha na saúde e o rapaz eu não faço ideia.

Leonard ficou em pé rapidamente.Olhou para as fotos, pensou por alguns segundos.

— Eu sei quem são.

Vlad e Allegra o olharam boquiabertos.

— Como?

Leonard revirou os olhos.

— Porque está escrito atrás da foto os nomes e os locais onde trabalham.

Vlad colocou uma das mãos no ombro de Leonard.

— Você é muito perspicaz, estou realmente emocionado.

Allegra rapidamente digitou os nomes num buscador online.

— Olha, tive uma ideia.Vamos todos juntos até a moça, depois  vamos até o rapaz, isso deve ser muito fácil.

Os dois assentiram.

Magicamente, três máscaras de pano apareceram próximas a eles, cada um pegou uma e colocou sobre o nariz e a boca, antes de saírem da quitinete..

— Precisamos ir ao encontro dele. Ela está aqui. Estou pesquisando onde é o hospital da cidade. Nossa! Essa cidade tem bastante hospital, porém tem bem mais shoppings – Leonard e Vlad se entreolharam. –  Rapazes, deveríamos ir num deles, precisamos passear também, né?

— Querida Allegra, porque os fantasmas do presente só se preocupam com compras? – Leonard indagou.

Allegra fechou a cara e começou a andar.

Vlad, observando a tela do celular, interrompeu a caminhada.

— Precisamos pegar ônibus até lá. Pelo que eu entendi, a linha é fácil de localizar e estamos com os nossos cartões de ônibus. 

Allegra assentiu.

— Estou nos guiando até o terminal de ônibus da cidade, de lá pegamos a linha e rapidamente estaremos lá.

Quando se depararam com o terminal de ônibus, estava lotado. Viram vários comerciantes que faziam negócio ao lado da placa que proibia o comércio de ambulantes. Ao passarem pela catraca, sentiram como se estivessem em um enxame de formigas, todos com pressa, andando rapidamente.

Instintivamente, Vlad, Leonard e Allegra deram as mãos e começaram a procurar desesperadamente pela plataforma de embarque. Quando a acharam, havia uma fila gigantesca de pessoas esperando o ônibus.

A chegada do ônibus trouxe nervosismo para as pessoas da fila, todos começaram a se empurrar para embarcar. Os três fantasmas foram empurrados para dentro, seguidos da multidão, que entrou no  ônibus. Allegra, Vlad e Leonard ficaram espremidos um contra o  outro.

Vlad ficou com cara de espanto e disse:

— Eu não quero usar ônibus nunca mais.

Allegra gemeu baixo quando pisaram no seu pequeno pé.

Leonard com o maxilar tenso, começou a falar:

— Pensei que a física falava que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço.

De repente um cheiro forte de suor e sujeira contaminou todo o ônibus. Allegra ficou nauseada e o veículo começou a partir para o seu destino, pegando mais e mais pessoas durante o trajeto.

Vlad chorava baixinho enquanto Allegra respirava fundo para não vomitar, Leonard observou pela janela que estavam próximos e quando foi o momento, desceram no ponto. 

Os fantasmas se entreolharam e puderam perceber que estavam pior do que um trapo velho de tecido.

— Estamos péssimos – pontuou Allegra.

Vlad assentiu e Leonard começou a andar em direção ao hospital. Chegando na entrada, observaram que a situação parecia tensa. Todos os profissionais estavam paramentados com equipamentos de proteção individual, com capote, touca, luvas, face shield, máscara e roupa privativa.

Vlad começou a chorar.

— A gente nunca vai achar a moça.

Uma profissional de saúde chegou perto dos três.

— Algum de vocês está com sintomas respiratórios?

Allegra foi responder, quando sentiu que aquela garota era quem procuravam.

—  Seu nome é Íris?

A profissional assentiu.

Leonard a olhou e questionou:

— Seu cabelo é loiro?

Íris assentiu.

— Por acaso, algum de vocês está com sintomas respiratórios?

Vlad começou a chorar, sentou no chão.

Íris rapidamente se abaixou.

— O que o senhor está sentindo?

Vlad, aflito, começou a fazer grande esforço para puxar o ar para os pulmões.

— Crise…de…pânico.

Íris assentiu.

— Eu sou a enfermeira de plantão. Venha, eu te acompanho, você passa pelo médico para que ele possa te prescrever algo. 

Com esforço, a enfermeira e os outros dois fantasmas  seguraram Vlad e o encaminharam até o médico.

— Infelizmente, vocês dois terão que ficar aqui na sala de espera, por favor não se aglomerem.

Os dois assentiram e ficaram sentados em cadeiras marcadas com distanciamento, ambos com olhar distante.

— Vlad tem algum problema? – indagou Allegra.

Leonard deu de ombros.

— Não sei, não trabalho com ele, mas sei que os fantasmas do futuro costumam ter muitos problemas psicológicos, são eles que mais vêem o pior das pessoas.

Allegra apertou as mãos.

— Os fantasmas do presente têm problemas de ansiedade e os do passado?

Leonard respondeu monossilábico: 

— Depressão.

Vlad saiu acompanhado de Íris.

— Vocês são da família dele?

Vlad respondeu que sim com a cabeça, mentindo.

— Ele provavelmente está com burnout, é um estado de estresse crônico, leva a sintomas de exaustão física e mental, sentimento de fracasso, tanto em nível pessoal, quanto profissional.

Leonard e Allegra se entreolharam.

— Não vou conseguir completar a missão, mas eu acredito no potencial de vocês. Ficarei na torcida, nunca fui muito mau neste negócio mesmo.

Íris, curiosa, perguntou:

— Que missão?

— No seu amor secreto por seu amigo Guilhermo – Allegra soltou rapidamente.

Leonard abraçou Vlad e disse:

— Ninguém fica para trás, amigo. Nós três estamos aqui porque somos igualmente péssimos, mas podemos mudar isso.

Foi o que fez Vlad sorrir pela primeira vez.

Íris, ainda em choque, começou a empalidecer e Allegra  tocou seu braço.

— Estamos aqui para te ajudar! Sabemos o segredo dos corações de vocês, mas ao que tudo indica, são tão medrosos que não conseguem assumir para o mundo. Vocês precisam passar o Natal juntos.

— Definitivamente, não! Somos amigos desde sempre, confidentes, contamos muitas coisas um para o outro. E quem são vocês que sabem tudo sobre isso?

Vlad começou a explicar bem devagar.

— Somos fantasmas do Natal, eu sou o do Natal futuro, temos a missão de fazer o desejo desse coraçãozinho e do seu amado, mas agora, eu vejo que nunca ficarão juntos.

Os olhos de Íris se encheram de lágrimas e Allegra se voltou para Vlad.

— O que quer dizer?

Vlad continuou calmamente:

— Eu ainda consigo ver o futuro, ela não vai correr atrás dele agora.

Allegra tocou as mãos de Íris e tentou se concentrar. Ela era durona, mas tinha um enorme coração, iria sempre colocar os desejos de seus pais acima dos seus e não iria cometer um gesto de coragem para ir atrás do seu amor.

Leonard tocou a mão de Íris e pôde ver que havia muita tristeza em seu passado. O divórcio dos seus avós mexeu com ela, aquilo a fazia sabotar seus sentimentos sempre. 

Seus Natais do passado foram todos em família, no sofá, comendo arroz com uva passa, salpicão com maçã verde e muita farofa, que voava, por estar perto do ventilador. E de sobremesa, sorvete de flocos. Íris sentia a felicidade, mas não se sentia completa.

— O que eu vou dizer agora, vai parecer estranho. Mas preciso que seja corajosa! No Natal, quero que vá em um endereço e rompa com todo o seu medo – disse Leonard.

— Precisamos  que seja corajosa por você.Seus pais vão entender seu sumiço neste Natal, diga que passará em um plantão – Allegra completou e Vlad sorriu novamente.

— Um futuro tão bonito começa a vir na minha mente, por favor, não desperdice.

Íris assentiu e questionou:

— Que horas e qual o endereço?

Allegra passou as informações e os três saíram do hospital.

Vlad contemplou a brisa e começou a se sentir melhor. Leonard observava as pessoas e parecia gargalhar baixinho.

Allegra interrompeu o devaneio dos dois.

— Então usaremos a quitinete para eles se encontrarem, mas como faremos para ele vir até aqui?

Vlad ficou pensativo, enquanto Leonard respondeu rápido.

— Precisamos convencê-lo, talvez com um pouco de magia, igual fizemos agora. Mas como ainda temos esses poderes?

Allegra começou a gargalhar histericamente.

— É simples, isso vem da nossa essência, a inspetora não poderia tirar isso nunca.

Leonard curioso.

— Como sabe disso?

Allegra sorriu.

— Estudei isso no manual dos fantasmas.

Os três decidiram caminhar até a quitinete. Demoraram um pouco e quando chegaram, estavam exaustos. 

Leonard deitou no chão, Vlad sentou delicadamente em um dos colchões e Allegra começou a pesquisar pratos natalinos.

– Precisaremos de uma ceia, enfeites de natal, o casal e logicamente, ficaremos fora daqui – Vlad começou a raciocinar e Leonard assentiu.

Allegra olhou para Leonard.

— O que tinha nas ceias passadas dela?

Leonard olhou para ela.

— Tinha arroz com uva passa, salpicão com maçã, farofa e sorvete de flocos.

Allegra digitou no celular.

— Certo, já busquei as receitas.

Vlad interrompeu gentilmente.

— Precisamos ver o dele também, vamos tentar encontrá-lo amanhã?

Leonard pegou o celular para verificar os horários de ônibus e sugeriu.

— Vamos pegar o ônibus para Itapetininga às 7h15, pode ser?

— Combinado – respondeu Allegra.

No dia seguinte, decidiram ir a pé, mesmo que fosse demorar.

Chegaram na rodoviária, encontraram o guichê da companhia de ônibus, compraram as passagens e foram até a área de embarque. Chegando lá, perceberam que tinha mais pombos do que pessoas.Havia várias placas proibindo  alimentar estes animais, mas as pessoas alimentavam da mesma forma.

Os três se sentaram nas cadeiras azuis duras para esperar.

— Tivemos sorte, pegamos assentos na janela do ônibus. Viram? Hoje a sorte está sorrindo para nós – disse Allegra empolgada.

A estrada se abria à frente, o sol estava refletindo nos montes verdejantes. As nuvens brancas contrastando com o céu azul.

Vlad sorria observando a janela, enquanto Leonard dormia e Allegra mexia no celular.

Após aproximadamente uma hora e vinte minutos, e muitas paradas pela estrada para embarque de passageiros, a visão da rodoviária de Itapetininga era um bálsamo para os olhos.

A rodoviária era menor do que a de Sorocaba, mas havia um certo charme e, definitivamente, muito menos pombos.

Quando desembarcaram na plataforma, Allegra rapidamente abriu o aplicativo de mapas no celular e organizou a caminhada até a biblioteca pública.

Leonard e Vlad foram resmungando por todo o trajeto, enquanto Allegra observava alegremente o caminho pela tela do aparelho. 

Passaram por muitas ruas e cruzamentos, quando pareciam que não podiam mais chegar, avistaram a biblioteca municipal.

Os sorrisos dos fantasmas desapareceram quando se depararam com a biblioteca de portas fechadas.

Vlad começou a chorar, enquanto Leonard tentava olhar pelo vão da chave. Allegra observou que havia uma bicicleta com uma grande cesta de livros em cima.

— Pessoal, quais as chances desta bicicleta cheia de livros seja de um bibliotecário?

Os outros dois fantasmas observaram a bicicleta e por alguns segundos, os três ficaram formulando hipóteses e teorias.

Talvez fosse a bicicleta de alguma outra pessoa.Talvez fosse uma bicicleta abandonada, ou talvez o bibliotecário até fosse o dono, mas a abandonou.

De repente, a porta se abriu e um rapaz de óculos e máscara no rosto saiu com uma caixa lotada de livros.

Os quatro se observaram por alguns momentos, até que Vlad perguntou:

— Por acaso, o senhor é o Guillermo?

O jovem com a caixa assentiu.

— Sim, sou eu, bibliotecário daqui, precisam de algum livro?

Allegra abriu um sorriso de orelha a orelha, porém a máscara não deixava mostrar.

— Querido senhor bibliotecário Guillermo, precisamos que nos ajude em uma missão. Íris pediu que você a encontre no dia de Natal, em uma quitinete, para passarem  juntos a ceia.

Vlad e Leonard ficaram surpresos com a amiga e Guillermo olhou para ela assustado.

— Não sei quem são vocês, nem sei como conhecem a Íris ou qualquer coisa deste tipo, mas não irei a lugar algum, não faço ideia de quem sejam – disse colocando mais livros na cesta e entrando novamente  para a biblioteca.

Leonard observou Allegra com sangue nos olhos.

— Por acaso você sabe que colocou toda a missão na privada e deu a descarga com essa sinceridade?

Allegra olhou para o chão envergonhada, não tinha  a intenção de fazer isso, mas simplesmente a sua sinceridade havia sido mais rápida do que qualquer outro  pensamento lógico.

Vlad começou a caminhar em direção a porta, mas Leonard o interrompeu.

— Querido Vlad, duvido que neste caso você possa ajudar. Tá na cara que o lerdo do garoto tem algum problema no  passado, que é a minha especialidade.

Leonard abriu a porta e entrou na biblioteca.

O local era simples, havia um balcão enorme feito de vidro e concreto, onde ficava o computador do bibliotecário e os registros.

Algumas prateleiras de metal ostentavam vários livros: suspense, terror, romances em geral, espiritualidade, poesia, ficção científica. Tinha também duas grandes mesas rodeadas de cadeiras para o uso dos frequentadores.

“Isso aqui tem jeito de ser frequentado por cultos e também por muitos nerds”, pensou Leonard.

Guillermo observou o inconveniente homem.

— Senhor, por favor, estamos fechados. Saia ou chamarei a polícia.

Leonard olhou para o rapaz.

— Querido, além de lerdo, você é um fraco, saquei na hora que te vi, deixa eu adivinhar, trauma no Natal?

Guillermo sentiu uma raiva invadir a sua mente.

— Por favor, se retire.

Leonard começou a rir.

— Querido, eu sou o fantasma do passado. Minha intuição diz que seus pais se separaram há muitos anos, sua mãe arranjou outra pessoa, você até gosta dele. Sua irmã se assumiu lésbica e arranjou sua atual cunhada, que você ama, porque sente que apenas elas são sua família.

Guilhermo se aproximou rapidamente de Leonard e o segurou pelo colarinho.

— Você não sabe nada sobre mim ou sobre a minha família.

Leonard pousou a mão no ombro dele e de repente, foi transportado a um certo Natal, o Natal do ano retrasado.

Guillermo olhou atônito para a casa de sua mãe, todos estavam felizes, menos ele. Encontrou seu “eu” do passado largado no sofá, com várias garrafas de cerveja ao lado, olhando para a parede.

Leonard se aproximou.

— Seu primeiro Natal apaixonado por ela. Na verdade, ela já te amava nesta época, mas você não percebeu.

Guillermo olhou tristemente para o seu passado.

— Por acaso estou alucinado com tudo que está acontecendo?

Leonard, sutilmente, repousou a mão no ombro do rapaz.

— Pela primeira vez, o destino está te mostrando a realidade da maneira mais cristalina possível, mas não podemos optar por você, decida o que quer fazer.

Leonard o trouxe de volta ao presente.

— Senhor fantasma, de todas as pessoas do mundo, por que nos escolheram?

Leonard olhou para ele, parecia ser um bom rapaz, daqueles que tem o sonho de formar família, brincar com os filhos e viajar em família.

— Infelizmente, vocês arranjaram os piores fantasmas para vocês, mas acredito que seja porque estão distantes do seu destino, afinal, tem que ter coragem para amar e ser amado.

Leonard apontou para um bloco de notas próximo e Guillermo o entregou, o fantasma  escreveu o endereço da quitinete e o horário combinado, antes de sair com um sorriso de triunfo no rosto. 

— Queridos fantasminhas, aprendam com o passado, ok?

Vlad, Allegra e Leonard começaram a pular eufóricos.

— Ao que tudo indica, estamos no caminho certo, agora precisamos arrumar as coisas! 

disse Allegra, entusiasmada. Ainda faltava bastante tempo e daria tudo certo.

Os fantasmas retornaram a Sorocaba e compraram enfeites, luzinhas  e uma linda árvore de Natal. Planejaram a ceia perfeita: arroz com uvas passas, salpicão com maçã verde, muita farofa e sorvete.

Os dias seguintes passaram rapidamente e, quando menos esperavam,  a véspera do Natal chegou.

Íris estava ansiosa, havia conseguido tirar férias e estava com mais tempo livre. Ponderava sobre que roupa deveria usar para ir ao encontro do…aquele pensamento a fez estremecer, afinal, o que eram? Amigos com sentimentos a mais? Deveria ir vestida para um encontro, ou para uma visita na casa de um amigo?

A moça apostou no meio termo, optou por ir de vestido midi azul, com sandálias pretas, pouca maquiagem e cabelo solto.

Guillermo estava na rodoviária, vestido com calças jeans pretas, a camisa floral que Íris havia elogiado uma vez, e uma mochila com alguns pertences.

Havia conseguido apenas o último horário para a passagem, o das 19h30, esperava que ela estivesse com paciência para o seu provável atraso.

Os três fantasmas estavam ansiosos, Vlad havia cozinhado o dia todo, enquanto Allegra havia deixado tudo perfeito na decoração. Leonard apenas ficou olhando o dia todo. Ouviram um estrondo forte e de repente, surgiu a inspetora-chefe.

— Tenho que confessar que fizeram um bom trabalho, por isso resolvi dar um presente a vocês. Terão todas as suas habilidades devolvidas.

Allegra se aproximou dela.

— Em nome dos meus amigos fantasmas e eu, gostaria de agradecer, mas queremos  pedir uma coisinha a mais.

— E o que seria?

— Precisamos de um lugar para ficar por esta noite, eles ficarão aqui, mas nós não podemos.

— Querida, vocês são fantasmas! Apenas assombrem aqui.

Allegra assentiu com a cabeça.

Ouviram um barulho e a inspetora-chefe sumiu num passe de mágica. 

Vlad foi atender, quando abriu a porta ficou espantado com a beleza daquele anjo.Vestida daquela maneira, Íris parecia a personificação de uma deusa grega, uma beleza divina que deveria ser admirada pelos olhos dos mortais.

Ela, por sua vez, quando viu Vlad sentiu algo emergir dentro de si. Algo como uma paixão à primeira vista.

Allegra percebeu a tensão e Leonard sentiu  a ameaça que tudo aquilo simbolizava.

Rapidamente, Allegra se aproximou e convidou Íris para entrar, servindo uma taça de vinho para ela, o relógio marcava 19 horas. 

Guillermo ainda estava na rodoviária.

Vlad e Íris começaram a conversar alegremente, enquanto Leonard interrompia. Allegra tentava se teletransportar para ir ao encontro de Guillermo a todo custo, mas sua ansiedade não deixava.

Enquanto Íris pensava sobre o que deveria fazer, estava dividida. Foi apaixonada por Guillermo desde sempre, mas Vlad parecia fazê-la se sentir diferente, mesmo sendo um desconhecido. 

Vlad sentia-se menos cansado, com mais vitalidade perto dela, começando a se questionar sobre o que deveria fazer.

Eram oito horas da noite e Guillermo ainda estava no ônibus a caminho de  Sorocaba. Estava com medo de chegar atrasado.

Allegra decidiu sair da quitinete, o  clima de romance entre Vlad e Íris estava deixando- a cada vez mais apreensiva.

Leonard ficou no apartamento  para evitar possíveis interações mais românticas.

Concentrada, Allegra tentou pensar em todas as situações em que estava atrasada. O presente nunca se atrasa, sempre está lá na hora certa de ocorrer. Todos os seus fracassos passaram por sua cabeça, frustrações desde a época que não era fantasma. Sua mente sempre acelerada, pensando em tudo e não focando em nada. Até que sentiu que estava focando em Guillermo. Decidiu fechar os olhos e quando os abriu estava em um ônibus intermunicipal, olhando para o lado direito, ele estava lá.

Rapidamente, pousou a mão em seu ombro e o teletransportou até a porta de entrada da quitinete.

— Agora é com você, Guillermo. Mostre para a sua princesa de Natal que ela é a única do mundo para você –  disse Allegra, abrindo a porta.

Guillermo entrou e observou a cena que foi pior do que um soco no estômago.

Íris estava aos beijos com Vlad.

O sorriso de Allegra se apagou,  Leonard chegou  na sala junto com ela e Guillermo. Ele havia se ausentado para servir a ceia.

Íris abriu os olhos e viu Guillermo na porta, ele estava com os olhos cheios de lágrimas, pálido e parecia vulnerável. Íris tentou se aproximar, mas ele se virou.

Foi quando Allegra ouviu uma risadinha no corredor.Seguindo a sua intuição, encontrou a inspetora-chefe olhando para a tela do celular.

— Inspetora-chefe?

Tirando os olhos da tela, empalideceu com a visão de Allegra.

— Allegra, que surpresa te encontrar aqui.

— Inspetora-chefe, sabe que sou a fantasma do presente, eu sinto que algo no presente está errado, a senhora conseguiria me explicar esse sentimento?

Os olhos da inspetora cintilavam.

— Querida, o meu trabalho sempre foi expulsar fantasmas ruins iguais a vocês, o teste é uma mera ilusão, porque simplesmente eu saboto todos, ou você acha que a Íris se apaixonaria pelo Vlad subitamente?

Allegra riu.

— A senhora sabe que passado, presente e futuro estão entrelaçados, e a questão do tempo é observada de acordo com a perspectiva do observador?

Allegra correu rapidamente de volta à quitinete.

Íris falava desesperadamente:

— Eu não sei o que deu em mim, eu estava aqui para passar o Natal com você, porque eu quero passar todos os Natais que puder com você, Guillermo.

Guillermo estava revoltado e arfando de raiva.

— Eu ia me declarar para você, poderíamos estar ceando juntos, construindo algo.Mas agora eu estou aqui, com mais um trauma relacionado ao Natal.

Vlad chorava,  com as mãos na cabeça.

— A culpa é minha foi sem querer, não sei o que houve.

Enquanto isso, Leonard, tirava o ventilador de perto da farofa.

Allegra gritou.

— A culpa foi da inspetora.

Todos os olhos se voltaram para ela.

— Ela manipula todas as missões para os fantasmas de Natal ruins nunca voltarem a ativa, ela enfeitiçou Vlad e Íris, e eu posso comprovar, mas preciso da ajuda de Leonard para isso.

Leonard entendeu o pedido.

— Precisamos formar um círculo, todos de mãos dadas, vamos ver o que aconteceu.

Leonard teletransportou todos para aquele recorte do passado, todos observaram pasmos o que rolavam pelos seus olhos, a falta de ética da inspetora e a fantasma do presente, que não se atrasou pela primeira vez.

Voltando ao presente, todos ficaram em silêncio por alguns instantes, até que Guillermo interrompeu.

— Eu me sinto abençoado de ter fantasmas de Natal tão competentes, eu passei todos os Natais de um jeito medíocre, como se estivesse fingindo um personagem e pensando em distrações, maspercebi que não pertencia.Eu precisava de amor, foi quando eu a encontrei, apenas uma menina, uma  mulher, tão focada em sua carreira, que nem olhava para o lado e eu percebi que para ficar ao menos perto de você precisava virar seu amigo.

Os olhos de Íris se encheram de lágrimas.

— Guillermo, eu me apaixonei por você lentamente, mas eu só percebi isso quando você foi embora de Sorocaba. Eu queria tanto que você tivesse ficado aqui. Quando os fantasmas apareceram, eu percebi que este Natal seria a única oportunidade que teríamos de ser sinceros, somos especialistas em esconder sentimentos e, mais ainda, em fingir que não sentimos isso.

Guillermo sorriu.

— As pessoas dizem que temos que ter química para sermos um casal, mas na verdade, nós temos química, física e biologia a nosso favor, só  não tínhamos a magia para nos fazer revelar tudo. Eu te amo, Íris.

Os olhos da moça  se encheram de lágrimas, não sabia como o relacionamento entre os dois iria funcionar, mas não importava, desde que mantivessem aquela magia de Natal em suas vidas.

O beijo dos dois foi comemorado como um milagre da data.

— Quem quer farofa?

Perguntou Leonard, enquanto Vlad colocava uma música sertaneja para tocar e criar um clima.

Allegra observava a cena. O Natal no Brasil era diferente e ao mesmo tempo apaixonante, menos a parte da uva passa, porque essa era ruim.

A ceia foi maravilhosa. Muitas risadas, discussões sobre a maçã no salpicão, e a falta de opção de sorvetes foi o ponto fraco da comemoração, mas nada é perfeito.

Allegra aproximou-se de Leonard e Vlad.

— Precisamos conversar sobre o nosso futuro. Que acham de largarmos o lance de colocar a vida de uma pessoa nos trilhos e partimos para criar uma nova tradição. Os amores de Natal, topam?

Leonard sorriu, levemente alcoolizado.

— Acho essa ideia fantástica, mas como faremos isso?

Vlad olhou fixamente Leonard.

— É simples, apenas diremos para a inspetora-chefe nossa próxima missão e ela fará, caso contrário, contamos o que ela fez conosco. Que acham?

Allegra assentiu com a cabeça.

— Mas eu tenho uma condição, que nós sempre sejamos uma equipe, concordam?

Os três se abraçaram, enquanto Íris e Guillermo também se abraçavam.

Íris repousando a cabeça nos ombros dele, estava pensativa.

— Não ficou com medo que eu não viesse? – Íris perguntou rindo. .

— É claro que fiquei, e quando vi o beijo eu pensei que já não tinha mais chances, afinal, eu sou lerdo e um dos fantasmas me disse isso. Apesar deles serem meio estranhos, eles têm razão.

— Você não é o único lerdo nesta história, também fui muito lenta, pensei que você não me quisesse e observei nosso afastamento como algo natural e não como algo que iria poder definir nossas vidas. Agora vejo tantas oportunidades que perdemos, porque fomos medrosos.

Allegra, Leonard e Vlad sorrateiramente saíram da quitinete, precisavam encontrar a inspetora-chefe. Procuraram pelo corredor, mas não encontraram, foi quando pensaram que ela poderia ter ido para a rua.

Chegando até lá, ela estava com um semblante triste, sentada na sarjeta, Allegra se sentou ao seu lado.

— Sabe, eu lembro da sensação de ser uma fantasma ruim, o medo e a incerteza do que iria acontecer comigo me dilacerava por dentro, você deve estar sentindo o mesmo.

A inspetora assentiu com a cabeça, Leonard se juntou a elas.

— Quando você está ruim, só dá para melhorar, porque pior não fica.

Vlad também se sentou ao lado da inspetora e de seus amigos fantasmas.

— Às vezes, as pessoas podem nos apontar algumas saídas para nossas situações difíceis, assim como você fez conosco. Temos uma proposta vantajosa para nós e para a senhora.

A inspetora arregalou os olhos e Allegra percebeu que ali estava uma esperança de que a proposta poderia funcionar.

— É o seguinte, nós três seremos uma equipe, porém não faremos uma única pessoa voltar para os trilhos corretos da vida dela, mas sim, faremos as pessoas se apaixonarem no Natal. Em troca não contamos nada sobre o que você fez e esperamos que não faça isso novamente.

A inspetora olhou para aqueles três rostos de fantasmas, de locais diferentes, culturas diferentes e que surpreendentemente trabalharam bem.

— Eu aceito, e a partir de agora, eu espero que vocês unam os casais no Natal e para garantir isso, eu serei a chefe de vocês, assim também irei me redimir de tudo que fiz, temos um trato?

Os três fantasmas se entreolharam e viram verdade nas palavras.

— Feito – gritaram ao mesmo tempo.

Enquanto isso, Íris e Guillermo planejavam o futuro dos dois juntos e pensavam nos incontáveis Natais que passariam juntos por toda a vida.

Infelizmente, nem todos são bons neste ramo, e todos os anos, os três piores fantasmas são incubidos da maior prova de fogo do Natal, a Inspetora-chefe e suas tarefas incomuns para fantasmas.

Numa sala branca, faltando apenas 1 mês para a maior data do ano, três fantasmas se encontravam sentados lado a lado, olhando para a parede, o semblante perdido e a falta de perspectiva enchiam seus pensamentos.

Uma fantasma do presente estava sentada no meio, Allegra, a pequena e irônica, mexia com uma das pernas sem parar, com uma calça cáqui e tênis de cano alto, sempre estava atrasada, o que é muito ruim para quem é incubida de mostrar a realidade do momento.

Em seu lado esquerdo, estava Vlad, o Natal Futuro, vestido com um pesado sobretudo preto, com coturnos escuros e um cabelo com um grande topete, com um olhar frio e calculista, seu erro, ser sentimental demais.

No lado direito, Leonard, o Natal Passado, com seus cabelos ruivos, sardas nas bochechas e um estilo muito parecido com a década de 1980, ficava a todo momento tamborilando os dedos das mão nas próprias pernas, sem querer, era um verdadeiro desastre ambulante.

A Inspetora-chefe chegou com seus saltos altos barulhentos, um terninho e uma prancheta nas mãos.

— Queridos fantasmas, vocês foram convocados porque são os piores em suas categorias, em minha experiência pessoal, nunca vi fantasmas tão horríveis e sem perspectivas de melhora.

Três pares de olhos encaravam a Inspetora.

— Mas, sou uma profissional que entende as situações, por isso, estou retirando todos os privilégios que vocês tem como fantasmas e para esta missão, serão quase humanos.

Allegra ergueu uma das mãos.

— Excelentíssima Inspetora, você tá dizendo que não poderemos nos teletransportar para o passado, presente e futuro?

Ela assentiu.

— Na verdade, vocês terão recursos materiais para isso, cada um terá cartão de transporte público, dividirão uma quitinete e lógico uma missão.

Os olhos de Vlad começaram a lacrimejar.

— A missão de vocês é simples, vocês terão que reunir um casal, para passar a noite de Natal juntos, essas pessoas já se conhecem e vocês apenas darão um empurrãozinho.

Leonard começou a rir.

— Dona Inspetora, mas quando os fantasmas vêm para cá, sabemos que as missões não tem nada de fáceis, na verdade são difíceis e quase todos são reprovados.

Vlad começou a soluçar em desespero.

— Por favor, não faça isso comigo, querida Inspetora, eu não tenho para onde ir.

Seus soluços começaram a deixar todos desconfortáveis. A Inspetora interrompeu a cena com um grito.

— Recomponha-se, você é o do futuro, deveria ser assustador e não uma mistura de  manteiga derretida com maria mole. Continuando, essas pessoas se separaram porque foram trabalhar em cidades diferentes e acabaram se distanciando, porém sempre foram amigos.

Vlad ainda com os olhos marejados.

— Querida Inspetora, não acredito que tá falando de uma friendzone, isso é segunda pior coisa, só perde para quando é corno.

Leonard balançou a cabeça dizendo um não.

— Vlad, você tá errado, o pior é quando você é traído pelo seu amigo que casa com a sua friendzone e aí te convidam para o casamento e ainda você tem que fazer um discurso lindo sobre o quanto você ama o casal.

Allegra virou para Leonard e indagou.

— Por acaso, essa é a sua história de como virou fantasma?

Leonard olhou para ela.

— Infelizmente sim, ao que parece se você morrer no fundo do poço emocional você vira fantasma.E a sua?

Allegra riu.

— Eu, sem querer, fui uma pessoa não tão boa e aí virei um fantasminha. E o seu Vlad?

Vlad pegou um lencinho de pano que sempre carregava.

— Eu pedi para ser um fantasma.

A Inspetora olhou para as três criaturas patéticas à sua frente.

— Saibam que vocês também terão smartphones, um cartão de débito e um pequeno arquivo com fotos das pessoas. Agora fechem os olhos, quando sentirem que levaram uma pancada na cabeça abram.

Os três obedeceram; quando abriram os olhos estavam em uma quitinete minúscula.

Tinham três colchões de ar de solteiro no chão, uma pequena cozinha com um fogão, microondas, geladeira e um banheiro.

Leonard se jogou num dos colchões e um som alto foi ouvido.

— Acabei de estourar o colchão.

Vlad sentou lentamente no chão, depois se deitou e assumiu uma posição fetal chorando baixo.

Allegra, viu o mapa no chão da cozinha com outras coisas ao redor.

Observando as informações do mapa, começou a deduzir duas coisas:

  1. Os dois círculos em vermelho devem ser as cidades em que estavam as pessoas;
  2. Sua saúde mental iria para o ralo.

Queridos amigos fantasmas, nós não tivemos uma apresentação formal, sou Allegra, faço partes dos fantasmas da Itália.

Vlad parou de chorar e olhou para Allegra.

— Sou Vlad, da Romênia, em especial, gosto bastante de trabalhar na Transilvânia.

Leonard ainda no chão olhou para Allegra.

— Sou Leonard, da Argentina e provavelmente, daqui a pouco seremos ex— fantasmas, talvez devêssemos distribuir alguns currículos por aí.

Allegra negou com a cabeça.

— Vamos fazer isso da maneira certa, entendi que as pessoas são de duas cidades próximas, uma em Itapetininga e outra em Sorocaba.

Vlad ficou em pé.

— E devemos fazer com se vejam, mas temos que bolar um plano.

Leonard negou.

— Planos não dão certo, vamos apenas seguir com a sorte.

Allegra pegou os celulares e os cartões e foi distribuindo para eles,

— Bom, estes são aparelhos úteis, como sou do presente, sei mexer tranquilamente com esta tecnologia.

Desbloqueando o celular, Allegra começou a pesquisar onde estavam.

Vlad pegou as fotos das pessoas. Uma era uma jovem mulher com roupas hospitalares, cabelos loiros e um lindo sorriso. O outro, um homem baixinho, de óculos e com olhos amendoados.

Allegra interrompeu os devaneios de Vlad.

— Temos alguns problemas. Estamos vivendo uma pandemia e apenas uma empresa de transporte vai para Itapetininga e estamos localizados em Sorocaba.

Vlad assentiu.

— Pelo jeito, a jovem trabalha na saúde e o rapaz eu não faço ideia.

Leonard ficou em pé rapidamente.Olhou para as fotos, pensou por alguns segundos.

— Eu sei quem são.

Vlad e Allegra o olharam boquiabertos.

— Como?

Leonard revirou os olhos.

— Por quê está escrito atrás da foto os nomes e os locais onde trabalham.

Vlad colocou uma das mãos no ombro de Leonard.

— Você é muito perspicaz, estou realmente emocionado.

Allegra rapidamente digitou os nomes num buscador online.

— Olha, tive uma ideia, vamos todos juntos até a moça, após vamos até o rapaz, isso deve ser muito fácil.

Os dois assentiram.

Magicamente, três máscaras de pano apareceram próximas a eles.

Cada um pegou uma e colocou na cara.

Saíram da quitinete.

— Precisamos ir ao encontro dele. Ela está aqui. Estou pesquisando onde é o hospital da cidade. Nossa! Essa cidade tem bastante hospital, porém tem bem mais shoppings.

Leonard e Vlad se entreolharam.

— Rapazes, deveríamos ir num deles, precisamos passear também, né.

Leonard indagou.

— Querida Allegra, porque os fantasmas do presente só se preocupam com compras?

Allegra fechou a cara e começou a andar.

Vlad, observando a tela do celular, interrompeu a caminhada:

— Precisamos pegar ônibus até lá, a linha pelo que entendi, é fácil de  localizar e estamos com nossos cartões de ônibus.

Allegra assentiu.

— Estou nos guiando até o terminal de ônibus da cidade, de lá pegamos a linha e rapidamente estaremos lá.

Quando se depararam com o terminal de ônibus, estava lotado com vários comerciantes ao lado da placa que, proibia o comércio de ambulantes. Passaram pela catraca.

Parecia um enxame de formigas, todos com pressa, andando rapidamente.

Instintivamente, Vlad, Leonard e Allegra deram as mãos e começaram a procurar desesperadamente pela plataforma de embarque.

Quando a acharam, havia uma fila gigantesca esperando o ônibus.

A chegada do ônibus trouxe nervosismo para as pessoas da fila, todos começaram a se empurrar para embarcar.

Os três fantasmas foram empurrados para dentro. A multidão entrou toda dentro do ônibus.

Allegra, Vlad e Leonard ficaram espremidos um ao outro.

Vlad com cara de espanto.

— Eu não quero usar ônibus nunca mais.

Allegra gemeu baixo, quando pisaram no seu diminuto pé.

Leonard com o maxilar tenso, começou a falar:

— Pensei que a física falava que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço.

De repente um cheiro forte de suor e sujeira contaminou todo o ônibus.

Allegra começou a ficar nauseada e o ônibus começou a partir para o seu destino.

Durante o trajeto, mais e mais pessoas embarcaram.

Vlad chorava baixinho, enquanto Allegra respirava fundo para não vomitar, Leonard observou pela janela que estavam próximos.

Desceram no ponto.

Os fantasmas se entreolharam e puderam perceber que estavam pior do que um trapo velho de tecido.

— Estamos péssimos.

Pontuou Allegra.

Vlad assentiu e Leonard começou a andar em direção ao hospital.

Chegando na entrada, observaram que a situação parecia tensa. Todos os profissionais estavam paramentados com equipamentos de proteção individual, com capote, touca, luvas, face shield, máscara e roupa privativa.

Vlad começou a chorar.

— A gente nunca vai achar a moça.

Uma profissional de saúde chegou perto dos três.

— Algum de vocês está com sintomas respiratórios?

Allegra foi responder, quando sentiu que aquela garota era quem procuravam.

—  Seu nome é Íris?

A profissional assentiu.

Leonard a olhou e questionou:

— Seu cabelo é loiro?

Íris assentiu.

— Por acaso, algum de vocês está com sintomas respiratórios?

Vlad começou a chorar, sentou no chão.

Íris rapidamente se abaixou.

— O que o senhor está sentindo?

Vlad, aflito, começou a fazer grande esforço para puxar o ar para os pulmões.

— Crise…de…pânico.

Íris assentiu.

— Eu sou a enfermeira deste plantão, vamos agora passar pelo médico e te prescrever algo.

Com esforço, os três seguraram Vlad e o encaminharam até o médico.

— Infelizmente, vocês dois terão que ficar aqui na sala de espera, por favor não aglomerem.

Os dois assentiram.

Sentados, com distanciamento, os dois estavam com um olhar distante.

— Vlad tem algum problema?

Indagou Allegra.

Leonard deu de ombros.

— Não sei, não trabalho com ele, mas sei que os fantasmas do futuro costumam ter muitos problemas psicológicos, são eles que mais vêem o pior das pessoas.

Allegra apertou as mãos.

— Os fantasmas do presente, tem problemas de ansiedade e os do passado?

Leonard, monossilábico, respondeu:

— Depressão.

Vlad saiu acompanhado de Íris.

— Vocês são da família dele?

Vlad respondeu que sim com a cabeça, mentindo.

— Ele provavelmente está com burnout, é um estado de estresse crônico, leva a sintomas de exaustão física e mental, sentimento de fracasso, tanto em nível pessoal quanto profissional.

Leonard e Allegra se entreolharam.

— Não vou conseguir completar a missão, mas eu acredito no potencial de vocês, eu vou torcer por vocês, nunca fui muito mal neste negócio mesmo.

Íris, curiosa, perguntou:

— Que missão?

Allegra disse rapidamente.

— No seu amor secreto pelo seu amigo Guilhermo.

Leonard, rapidamente abraçou Vlad.

— Ninguém fica para trás amigo, nós três estamos aqui, porque somos igualmente péssimos, mas podemos mudar isso.

Soltando Vlad.

Vlad sorriu pela primeira vez.

Íris, ainda em choque, começou a empalidecer.

Allegra a tocou no braço.

— Estamos aqui para te ajudar, sabemos o segredo dos corações de vocês, mas ao que tudo indica, são tão medrosos que não conseguem assumir para o mundo, vocês tem que passar o natal juntos.

— Definitivamente não, somos amigos desde sempre, confidentes, contamos muitas coisas um para o outro e quem são vocês que sabem tudo sobre isso?

Vlad começou a explicar bem devagar.

— Somos fantasmas do Natal, eu sou o do Natal futuro, temos a missão de fazer o desejo desse coraçãozinho e do seu amado, mas agora, eu vejo que nunca ficarão juntos.

Os olhos de Íris se encheram de lágrimas.

Allegra olhou para Vlad.

— O que quer dizer?

Vlad, calmamente, começou a explicar.

— Eu ainda consigo ver o futuro, ela não vai correr atrás dele agora.

Allegra tocou as mãos de Íris e tentou se concentrar. Ela era durona, mas tinha um enorme coração, iria sempre colocar os desejos de seus pais acima dos seus e não iria cometer um gesto de coragem e ir atrás do seu amor.

Leonard tocou a mão de Íris. Havia muita tristeza em seu passado, o divórcio dos seus avós mexeu com ela, aquilo a fazia sempre sabotar seu sentimentos, seus natais do passado, foram todos em família, no sofá comendo arroz com uva— passa, salpicão com maçã verde e muita farofa, que voava por estar perto do ventilador. E de sobremesa, sorvete de flocos, sentia a felicidade, mas não se sentia completa.

— O que eu vou dizer agora, vai parecer estranho; mas preciso que seja corajosa, no dia de natal, quero que vá em um endereço e rompa com todo o seu medo.

Disse Leonard.

Allegra completou.

— Eu preciso que seja corajosa por você, seus pais vão entender seu sumiço neste natal, diga que passará em um plantão.

Vlad sorrindo.

— Um futuro tão bonito começa a vir na minha mente, por favor, não desperdice.

Íris assentiu e questionou:

— Que horas e o endereço?

Allegra passou.

Os três saíram do hospital.

Vlad sentiu a brisa, estava se sentindo melhor. Leonard observava as pessoas e parecia gargalhar baixinho.

Allegra interrompeu o devaneio dos dois.

— Então usaremos a quitinete para eles se encontrarem, mas como faremos para ele vir até aqui?

Vlad ficou pensativo, Leonard respondeu rápido.

— Precisamos convencê-lo, talvez com um pouco de magia, igual fizemos agora. Mas como ainda temos esses poderes?

Allegra começou a gargalhar histericamente.

— É simples, isso vem da nossa essência, a Inspetora não poderia nunca retirar isso.

Leonard curioso.

— Como sabe disso?

Allegra sorriu.

— Estudei isso no manual dos fantasmas.

Os fantasmas decidiram caminhar até a quitinete.

Demoraram um pouco.

Quando chegaram estavam exaustos.

Leonard deitou no chão. Vlad sentou delicadamente em um dos colchões.

Allegra começou a pesquisar pratos natalinos.

Vlad começou a raciocinar.

Precisaremos de uma ceia, enfeites de natal, o casal e logicamente, precisamos ficar fora daqui.

Leonard assentiu.

Allegra olhou para Leonard.

— O que tinha nas ceias passadas dela?

Leonard olhou para ela.

— Tinha arroz com uva— passa, salpicão com maçã, farofa e sorvete de flocos.

Allegra digitou no celular.

— Certo, já busquei as receitas.

Vlad interrompeu gentilmente.

— Precisamos ver o dele também, vamos tentar encontrá-lo amanhã?

Leonard pegou o celular, verificou os horários de ônibus.

— Vamos pegar o ônibus para Itapetininga às 7h15, pode ser?

— Combinado.Respondeu Allegra.

No dia seguinte, decidiram ir a pé, mesmo que fosse demorar.

Chegaram na rodoviária, encontraram o guichê da companhia de ônibus, compraram as passagens e foram até a área de embarque.

Chegando lá, perceberam que tinha mais pombos do que pessoas, havia várias placas de proibição de alimentar estes animais, mas as pessoas alimentavam da mesma forma.

Os três se sentaram nas cadeiras azuis duras para esperar.

— Tivemos sorte, pegamos assentos na janela do ônibus. Viu? Hoje a sorte está sorrindo para nós.Disse Allegra empolgada.

A estrada se abria à frente, o sol estava refletindo nos montes verdejantes. As nuvens brancas contrastando com o céu azul.

Vlad sorria observando a janela, enquanto Leonard dormia e Allegra mexia no celular.

Após aproximadamente uma hora e vinte minutos e muitas paradas pela estrada para embarque de passageiros, a visão da rodoviária de Itapetininga era um bálsamo para os olhos.

A rodoviária era menor do que a de Sorocaba, mas havia um certo charme e definitivamente menos pombos.

Quando desembarcaram na plataforma, Allegra rapidamente abriu o aplicativo de mapas no celular e organizou a caminhada até a biblioteca pública.

Leonard e Vlad foram resmungando por todo o trajeto, enquanto Allegra observava alegremente a tela do celular e o caminho.

Passaram por muitas ruas e cruzamentos, quando pareciam que não podiam mais chegar, avistaram a biblioteca municipal.

Os sorrisos dos fantasmas desapareceram, quando se depararam com a biblioteca de portas fechadas.

Vlad começou a chorar, enquanto Leonard tentava olhar pelo vão da chave. Allegra observou que havia uma bicicleta com uma grande cesta de livros em cima.

— Pessoal, quais as chances desta bicicleta cheia de livros seja de um bibliotecário?

Os dois fantasmas observaram a bicicleta.

Por alguns segundos, os três ficaram formulando hipóteses e teorias.

Talvez fosse a bicicleta de alguma outra pessoa?

Talvez fosse uma bicicleta abandonada?

Talvez o bibliotecário fosse o dono mas,abandonou?

De repente a porta se abriu e um rapaz de óculos e máscara no rosto saiu com uma caixa lotada de livros.

Os quatro se observaram por alguns momentos, até que Vlad perguntou:

— Por acaso, o senhor é Guillermo?

O jovem com a caixa assentiu.

— Sim, sou eu, bibliotecário daqui, precisam de algum livro?

Allegra abriu um sorriso de orelha a orelha, porém a máscara não deixava mostrar.

— Querido senhor bibliotecário Guillermo, precisamos que nos ajude em uma missão. Íris nos pediu que você a encontre no dia de Natal em uma quitinete para passarem  juntos a ceia.

Vlad e Leonard ficaram surpresos com a amiga.

Guillermo olhou para ela assustado.

— Não sei quem são vocês, nem sei como conhecem a Íris ou qualquer coisa deste tipo, mas não irei a lugar algum, não faço ideia de quem sejam.

Colocou mais livros na cesta e entrou para a biblioteca.

Leonard observou Allegra com sangue nos olhos.

— Por acaso você sabe que colocou toda a missão na privada e deu a descarga com essa sinceridade?

Allegra olhou para o chão, envergonhada, não tivera a intenção de fazer isso, mas simplesmente a sua sinceridade havia sido mais rápida do que qualquer pensamento lógico.

Vlad começou a caminhar em direção a porta, mas Leonard o interrompeu.

— Querido Vlad, duvido que neste caso, você possa ajudar, tá na cara que o lerdo do garoto tem algum problema no  passado que é a minha especialidade.

Leonard abriu a porta e entrou na biblioteca.

O local era simples, havia um balcão enorme feito de vidro e concreto, onde ficava o computador do bibliotecário e os registros.

Algumas prateleiras de metal ostentavam vários livros: suspense, terror, romances em geral, espiritualidade, poesia, ficção científica. Tinha também duas grandes mesas rodeadas de cadeiras para o uso dos frequentadores.

Isso aqui tem jeito de ser frequentado por cultos e também por muitos nerds, pensou Leonard.

Guillermo observou o inconveniente homem.

— Senhor, por favor, estamos fechados, saia ou chamarei a polícia.

Leonard olhou para o rapaz.

— Querido, além de lerdo, você é um fraco, saquei na hora que te vi, deixa eu adivinhar, trauma no natal?

Guillermo sentiu uma raiva invadir a sua mente.

— Por favor, se retire.

Leonard começou a rir.

— Querido, eu sou o fantasma do passado, minha intuição diz que, seus pais se separaram há muitos anos, sua mãe arranjou outra pessoa, você até gosta, sua irmã se assumiu lésbica e arranjou sua atual cunhada, você ama, porque sente que apenas elas são sua família.

Guilhermo se aproximou rapidamente de Leonard, segurou no colarinho.

— Você não sabe nada sobre mim ou sobre a minha família.

Leonard pousou a mão no ombro dele e de repente, foi transportado a um certo natal.

O natal do ano retrasado.

Guillermo olhou atônito para a casa de sua mãe, todos estavam felizes, menos ele.

Encontrou seu “eu” do passado largado no sofá, com várias garrafas de cerveja ao lado, olhando para a parede.

Leonard se aproximou.

— Seu primeiro natal apaixonado por ela, na verdade ela já te amava nesta época, mas você não percebeu.

Guillermo olhou tristemente para o seu passado.

— Por acaso estou alucinado com tudo que está acontecendo?

Leonard, sutilmente, repousou a mão no ombro.

— Pela primeira vez, o destino está te mostrando a realidade da maneira mais cristalina possível, mas não podemos optar por você, decida o que quer fazer.

Leonard trouxe de volta ao presente.

— Senhor fantasma, de todas as pessoas do mundo, porque nos escolheram?

Leonard olhou para ele, parecia ser um bom rapaz, daqueles que tem o sonho de formar família, brincar com os filhos e viajar em família.

— Infelizmente, vocês arranjaram os piores fantasmas para vocês, mas acredito que seja porque estão distantes do seu destino, afinal, tem que ter coragem para amar e ser amado.

Leonard apontou para um bloco de notas próximo. Guillermo o entregou.

Ele escreveu o endereço da quitinete e o horário.

Leonard saiu com um sorriso de triunfo na cara.

— Queridos fantasminhas, aprendam com o passado, ok?

Vlad, Allegra e Leonard começaram a pular eufóricos.

— Ao que tudo indica, estamos no caminho certo, agora precisamos arrumar as coisas,

disse Allegra, entusiasmada. Ainda faltava bastante tempo e daria tudo certo.

Os fantasmas retornaram a Sorocaba.

Começaram a comprar enfeites, luzes e uma linda árvore de natal.

Começaram a planejar a ceia: Arroz com uva— passa, salpicão com maçã verde, muita farofa e sorvete.

Os dias passaram rapidamente e a véspera do natal chegou.

Íris estava ansiosa, havia conseguido tirar férias e estava com mais tempo livre. Ponderava sobre que roupa deveria usar para ir ao encontro do…

Aquele pensamento a fez estremecer, afinal, o que eram? Amigos com sentimentos a mais?

Deveria ir vestida para um encontro ou para uma visita na casa de um amigo?

Optou por ir de vestido midi azul com sandálias pretas, pouca maquiagem e cabelo solto. Estava no meio termo.

Guillermo estava na rodoviária, vestido com calça jeans pretas, camisa floral que Íris havia elogiado uma vez que o vira usando, uma mochila com alguns pertences.

Havia conseguido apenas o último horário para a passagem, o das 19h30, esperava que ela estivesse com paciência para o seu provável atraso.

Os três fantasmas estavam ansiosos. Vlad havia cozinhado o dia todo, enquanto Allegra havia deixado tudo perfeito na decoração. Leonard apenas ficou olhando o dia todo.

Ouviram um estrondo forte e de repente surgiu a Inspetora-chefe.

— Tenho que confessar que fizeram um bom trabalho, por isso resolvi dar um presente a vocês. Terão todas as suas habilidades devolvidas.

Allegra se aproximou dela.

— Eu em nome dos meus amigos fantasmas agradecemos, mas gostaríamos de pedir uma coisinha a mais.

— E o que seria?

— Precisamos de um lugar para ficar por esta noite, eles ficarão aqui, mas nós não podemos.

— Querida, vocês são fantasmas, apenas assombrem aqui.

Allegra assentiu com a cabeça.

Ouviram um barulho na porta.

A Inspetora-chefe sumiu num passe de mágica.

Vlad foi até a porta, quando a abriu, ficou espantado com a beleza daquele anjo.

Vestida daquela maneira parecia a personificação de uma deusa grega, uma beleza divina que deveria ser admirada pelos olhos dos mortais.

Íris, por sua vez, quando viu Vlad sentiu algo emergir dentro de si. Algo como uma paixão à primeira vista.

Allegra percebeu a tensão. Leonard percebeu a ameaça que tudo aquilo simbolizava.

Rapidamente, Allegra aproximou e convidou Íris para entrar.

Serviu uma taça de vinho tinto para ela. Eram 19h.

Guillermo ainda estava na rodoviária.

Vlad e Íris começaram a conversar alegremente, enquanto Leonard tentava interromper.

Allegra a todo custo, tentava se teletransportar para ir ao encontro de Guillermo, mas sua ansiedade não deixava.

Enquanto Íris começava a pensar sobre o que deveria fazer, estava dividida, foi apaixonada por Guillermo desde sempre, mas Vlad parecia algo fazê-la se sentir diferente mesmo não o conhecendo tão bem.

Vlad sentia-se menos cansado, com mais vitalidade perto dela, começando a se questionar sobre o que deveria fazer.

Eram 20h

Guillermo ainda estava no ônibus indo para Sorocaba.Estava com medo de estar atrasado.

Allegra decidiu sair da quitinete. O  clima de romance entre Vlad e Íris estava deixando— a cada vez mais apreensiva.

Leonard ficou dentro da quitinete para evitar possíveis interações mais românticas.

Concentrada, Allegra tentou pensar em todas as situações em que estava atrasada. O presente nunca se atrasa, sempre está lá na hora certa de ocorrer.Todos os seus fracassos passaram por sua cabeça, frustrações desde a época que não era fantasma, sua mente sempre acelerada pensando em tudo e não focando em nada. Até que sentiu que estava focando em Guillermo. Decidiu fechar os olhos e quando os abriu estava em um ônibus intermunicipal, olhando para o lado direito, ele estava lá.

Rapidamente, pousou a mão em seu ombro e o teletransportou até a porta de entrada da quitinete.

— Agora é com você Guillermo, mostre para a sua princesa de natal que ela é a única do mundo para você, disse Allegra abrindo a porta.

Guillermo entrou e observou a cena que foi pior do que um soco no estômago.

Íris estava aos beijos com Vlad.

O sorriso de Allegra se apagou. Leonard chegou na sala, havia se ausentado para servir a ceia.

Íris abriu os olhos e viu Guillermo na porta.

Ele estava com os olhos cheios de lágrimas, pálido e parecia vulnerável.

Íris tentou se aproximar, mas ele se virou.

Foi quando Allegra ouviu uma risadinha no corredor, seguindo a sua intuição, encontrou a Inspetora-chefe olhando para a tela do celular.

— Inspetora-chefe?

Tirando os olhos da tela, empalideceu com a visão de Allegra.

— Allegra, que surpresa te encontrar aqui.

— Inspetora-chefe, sabe que sou a fantasma do presente, eu sinto que algo no presente está errado, a senhora conseguiria me explicar esse sentimento?

Os olhos da Inspetora cintilavam.

— Querida, o meu trabalho sempre foi expulsar fantasmas ruins iguais a vocês, o teste é uma mera ilusão, porque simplesmente eu saboto todos ou você acha que a Íris se apaixonaria pelo Vlad subitamente?

Allegra riu.

— A senhora sabe que passado, presente e futuro estão entrelaçados, e a questão do tempo é observada de acordo com a perspectiva do observador?

Allegra correu rapidamente de volta à quitinete.

Íris falava desesperadamente.

— Eu não sei o que deu em mim, eu estava aqui para passar o natal com você, porque eu quero passar todos os natais que puder com você.

Guillermo, revoltado e arfando de raiva.

— Eu ia me declarar para você, poderíamos estar ceando juntos, construindo algo juntos, mas agora eu estou aqui, com mais um trauma relacionado ao natal.

Vlad chorando com as mãos na cabeça.

— A culpa é minha, foi sem querer, não sei o que houve.

Enquanto isso, Leonard, tirava o ventilador de perto da farofa.

Allegra gritou.

— A culpa foi da Inspetora.

Todos os olhos voltaram para ela.

— Ela manipula todas as missões para os fantasmas de natal ruins nunca voltarem a ativa, ela enfeitiçou Vlad e Íris, e eu posso comprovar, mas preciso da ajuda de Leonard para isso.

Leonard entendeu o pedido.

— Precisamos formar um círculo, todos de mãos dadas, vamos ver o que aconteceu.

Leonard teletransportou todos para aquele recorte do passado.

Todos observaram pasmos o que rolavam pelos seus olhos, a falta de ética da Inspetora e a fantasma do presente que não se atrasou pela primeira vez.

Voltando ao presente, todos ficaram em silêncio por alguns instantes.

Guillermo interrompeu.

— Eu me sinto abençoado de ter fantasmas de Natal tão competentes, eu passei todos os natais de um jeito medíocre, como se eu estivesse fingindo um personagem e pensando em distrações, mas eu percebi que não pertencia, eu precisava de amor, foi quando eu a encontrei, apenas uma menina— mulher, tão focada em sua carreira, que nem olhava para o lado e eu percebi que para ficar ao menos perto de você, decidi virar seu amigo.

Os olhos de Íris se encheram de lágrimas.

— Guillermo, eu me apaixonei por você lentamente, mas eu só percebi isso, quando você foi embora de Sorocaba. Eu queria tanto que tivesse ficado aqui, quando os fantasmas apareceram, eu percebi que este natal seria a única oportunidade que teríamos de ser sinceros, somos especialistas em esconder sentimentos e mais ainda em fingir que não sentimos isso.

Guillermo sorriu.

— As pessoas dizem que temos que ter química para sermos um casal, mas na verdade, nós temos química, física e biologia a nosso favor, mas não tínhamos a magia para nos fazer revelar tudo.Eu te amo Íris.

Os olhos de Íris se encheram de lágrimas, não sabia como o relacionamento entre os dois iria funcionar, mas não importava, desde que mantivessem aquela magia de natal em suas vidas.

O beijo dos dois foi comemorado como um milagre de natal.

— Quem quer farofa?

Perguntou Leonard, enquanto Vlad colocava um sertanejo para tocar para criar um clima.

Allegra observava a cena. O natal no Brasil era diferente e ao mesmo tempo apaixonante, menos a parte da uva— passa, porque essa era ruim.

A ceia foi maravilhosa, com muitas risadas, discussões sobre a maçã no salpicão e a falta de opção de sorvetes foi o ponto fraco da comemoração, mas nada é perfeito.

Allegra aproximou-se de Leonard e Vlad.

— Precisamos conversar sobre o nosso futuro. Que acham de largarmos o lance de colocar a vida de uma pessoa nos trilhos e partimos para criar uma nova tradição. Os amores de natal, que acham?

Leonard sorriu, levemente alcoolizado.

— Acho essa ideia fantástica, mas como faremos isso?

Vlad olhou fixamente Leonard.

— É simples, apenas diremos para a Inspetora-chefe nossa próxima missão e ela fará, caso contrário, contamos o que ela fez conosco. Que acham?

Allegra assentiu com a cabeça.

— Mas eu tenho uma condição, que nós sempre seremos uma equipe, concordam?

Os três se abraçaram, enquanto Íris e Guillermo se abraçavam.

Íris repousando a cabeça nos ombros dele, estava pensativa.

— Não ficou com medo que eu não viesse? Ele riu.

— É claro que fiquei e quando vi o beijo eu pensei que já era para mim, afinal, eu sou lerdo e um dos fantasmas me disse isso, apesar deles serem meio estranhos, eles tem razão.

— Você não é o único lerdo nesta história, também fui muito lenta, pensei que você não me quisesse e observei nosso afastamento como algo natural e não como algo que iria poder definir nossas vidas, agora vejo tantas oportunidades que perdemos, porque fomos medrosos.

Allegra, Leonard e Vlad sorrateiramente, saíram da quitinete, precisavam encontrar a Inspetora-chefe.

Procuraram pelo corredor, mas não encontraram Foi quando pensaram que ela poderia ter ido para a rua.

Chegando até lá, ela estava com um semblante triste, sentada na sarjeta.

Allegra se sentou ao seu lado.

— Sabe, eu lembro da sensação de ser uma fantasma ruim, o medo e a incerteza do que iria acontecer comigo me dilacerava por dentro, você deve estar sentindo o mesmo.

A Inspetora assentiu com a cabeça. Leonard sentou também na sarjeta.

— Sabe, quando você está na pior, só dá para melhorar, porque pior não fica.

Vlad sentou lentamente na sarjeta.

— Às vezes, as pessoas podem nos apontar algumas saídas para nossas situações difíceis, assim como você fez conosco. Temos uma proposta vantajosa para nós e para a senhora.

A Inspetora arregalou os olhos.

Allegra percebeu que ali estava uma esperança de que a proposta poderia funcionar.

— É o seguinte, nós três seremos uma equipe, porém não faremos uma única pessoa voltar para os trilhos corretos da vida dela, mas sim, faremos as pessoas se apaixonarem no natal, em troca não contamos nada sobre o que você fez e esperamos que não faça isso novamente.

A Inspetora olhou para aqueles três rostos de fantasmas, de locais diferentes, culturas diferentes e que surpreendentemente trabalharam bem.

— Eu aceito, e a partir de agora, eu espero que vocês unam os casais no natal e para garantir isso, eu serei a chefe de vocês, assim também irei me redimir de tudo que fiz, temos um trato?

Os três fantasmas se entreolharam e viram verdade nas palavras.

— Feito.

Gritaram ao mesmo tempo.

Enquanto isso, Íris e Guillermo planejavam o futuro dos dois juntos e pensavam nos incontáveis natais que passariam juntos por toda a vida.

Tulipa Editora

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