Dez para a meia noite – Cristinna Sheila

Se você tivesse a chance de reencontrar uma pessoa que se foi, você aproveitaria? Mesmo contra sua vontade, já que o clima natalino o irritava, Renato decidiu viver aquelas últimas horas com Carlos, criando memórias e sentindo todo amor do mundo, no que seria o melhor presente de Natal que ele poderia receber.

Os monstros surgem e desaparecem. Alguns duradouros, estes que até mesmo uma vida inteira não pode eliminar por completo. Outros tão rápidos quanto a velocidade da luz, o qual depois do sofrimento, acabamos por não lembrarmos mais da dor causada. Alguns fazem questão de posicionarem suas presas no mais profundo da nossa alma. Outros são apenas o medo do desfecho, o instante em que você está correndo de seu predador, o momento onde tudo está em jogo, mas que, após o fim, poderá ser esquecido facilmente.

E o que sabemos é que muitos deles não surgem nem desaparecem, simplesmente dormem, esperando a hora exata em que devem despertar. O momento exato em que o dano deve ser causado. Esses monstros normalmente são os piores. As noites em claro buscando maneiras para fazê-lo não despertar, mesmo sabendo ser inevitável, elas nunca voltarão. As noites em claro após o despertar. As noites em claro esperando o fim de tudo, desejando isso. Elas não voltarão. Elas não valem a pena, porque é inevitável. Monstros são inevitáveis. E o monstro agora havia voltado. De novo, diante de seus olhos, configuravam-se as imagens do pior dia de sua vida.

Enquanto preparava um cappuccino, com uma melodia aleatória soando suavemente por entre seus lábios, o tele-jornal anunciava: um avião da companhia United States International Airlines (USIA) com 93 pessoas a bordo caiu hoje por volta das 6 horas da manhã na cidade de Michigan, enquanto se dirigia até Nova Iorque.

As memórias começaram a se desfazer em sua mente no momento em que tudo pareceu se perder. Sentiu as pernas perdendo o equilíbrio assim que ouviu o destino da aeronave. Os pensamentos passaram rapidamente de um desinteresse entediado para incredulidade total. A imagem de seu namorado surgiu em sua mente. Não só em sua mente.

“Entre as vítimas, havia um jovem chamado Carlos Galloway . Foi o caso mais triste e que mais chamou atenção dentre os mortos desse triste incidente. No bolso do garoto, havia uma carta juntamente de um presente que nunca pôde ser entregue. Não há confirmação sobre quem é o destinatário da carta, nem a relação com a vítima, mas nossa companhia oferecerá todo o apoio necessário às famílias do passageiros”.

E a escuridão aparentava nunca ter fim. As horas passavam arrastadas, cada minuto parecia levar milhões de segundos. As lembranças pareciam correntes presas ao fundo de um poço, poço esse que com certeza logo seria esvaziado, dando-lhe o ar necessário para respirar, mas enquanto isso não acontecia, ele continuava ali, com a cabeça submersa pela água. E as pessoas dizem que devemos viver o presente, não dizem? No fundo sabia que querer escapar daquilo talvez fosse apenas negar o próprio destino, ou o próprio passado. Aquele momento atormentador logo viria a ser apenas memórias perdidas em sua mente, ideias confusas e soltas de coisas que algum dia podem ter acontecido. 

Os passos lentos eram dados como se não estivesse em seu próprio corpo, a mente flutuava para outro lugar. Um lugar muito mais sombrio do que desejava que fosse. E era impossível fugir.

Uma névoa pareceu cobrir seus olhos e seu raciocínio. Sentia que pensar era algo pesado demais para ser feito nesse momento. Quem sabe, a mínima parte racional que continuava funcionando soubesse o quanto pensar só pioraria a situação. A questão era que ouvir o nome do amor de sua vida em um acidente como esse, sabendo que nunca mais veria o sorriso doce do garoto, com certeza era a pior sensação do mundo. Bem, pensar não iria realmente ajudar.

Assim que sua consciência retornou à realidade, aos poucos, as pessoas que, ao lado de fora, viviam suas vidas normalmente, começaram a dispersá-lo de todos os flashbacks. No mundo real, sem seu namorado, apenas a dor residindo em seu peito… O som das vidas agora parecia incomodá-lo intensamente.

— Porra, como eu odeio o Natal — murmurou para si mesmo, afinal quem mais poderia ouvir? 

Ao levantar-se da cama, seus olhos chocando-se constantemente com a imagem irreal de Galloway deitado no colchão, e a sensação de impotência diante dos fatos crescendo, sentiu que talvez pudesse ser a hora de estragar tudo. Checou o relógio próximo à batente da porta. 

— Já são duas da tarde. Ótimo, mais dez horas dessa porcaria!

O garoto, que mal usou seu tempo para arrumar-se, saiu de seu quarto bruscamente, sem se importar com o cabelo bagunçado ou a blusa amassada. Assim que abriu a porta de entrada e viu as chamativas luzes natalinas de variadas cores, Renato sentiu seu sangue ferver.

— AAAAAH, SACO! 

Andando furiosamente pelas ruas da grande cidade de Nova Iorque, o jovem destruía tudo o que lhe aparecia pela frente que o lembrava dessa época do ano em que a muitos é um sonho, mas à ele, um de seus maiores pesadelos.

Chutando latas de lixo decoradas, derrubando pinheirinhos iluminados e jogando brinquedos natalinos no asfalto propositalmente são algumas das formas que Renato mais gostava de fazer para estragar o natal das pessoas à sua volta. Não era como se fizesse isso por maldade, mas sim, para que não se sentisse o único nas trevas enquanto todos se divertem na resplandecência do fim do ano.

Assim que Myers estava prestes a roubar o doce de uma criança, algo o impediu. Um rosnado baixo foi ouvido de seu lado esquerdo. Renato tentou mover sua perna para que pudesse pegar o doce, mas a criança já tinha ido embora.

— Ora seu…

Olhando para baixo, percebeu um cãozinho, não muito grande, mordendo a barra de suas calças. O garoto curvou-se para apanhar o cachorro, porém, o mesmo foi capaz de soltar a calça assim que estava prestes a ser pego, e agora estava latindo para o ele. Myers viu aquilo como uma forma de provocação, então logo foi para cima do cão. Pequeno labrador, não desistindo facilmente, correu pela calçada, aparentemente sem nenhum rumo, ao menos era o que Renato pensava. Mas ainda assim, a raiva o cegou, não conseguindo pensar em mais nada além de perseguir o cão e fazer com que ele se arrependesse de ter impedido seu plano.

Sua respiração já soava ofegante, seus passos estavam pesados. A cena chegava a ser cômica: um jovem estressado perseguindo um pequeno cão ao som de um filme de perseguição, vindo da barulhenta Broadway, não muito distante.

Ao virar três quadras ou mais, a visão dos prédios era algo escassa e à esquerda, localizava-se um sereno campo de jasmins. Para o azar de Myers, o labrador entrou no meio das flores esbranquiçadas, sendo capaz de se esconder com muita facilidade.

— AH VOLTA AQUI, SEU COVARDE DE QUATRO PATAS! — gritou enfurecido em direção à enorme vastidão florida.

Um passo de cada vez, uma flor ou outra amassada no meio do caminho. Com uma investida agressiva de Renato, a primeira pétala caiu.

— Vamos, não pode se esconder para sempre! — Disse em tom de ironia. Com o vento que criou usando seus braços, a segunda pétala caiu.

Olhava de um lado, nada ali. Olhava do outro, nada também. O cãozinho já estava longe, longe o suficiente para que os olhos do jovem não pudessem mais o encontrar. Possivelmente havia despistado Myers andando em círculos, para logo em seguida sumir totalmente (e para sempre) de vista, esgueirando-se furtivamente em direção à saída do local.

— AH VAI SE FODER, BICHO DESGRAÇADO! — a terceira pétala caiu.

Assim que a terceira pétala do jasmim tocou o chão gramado das terras férteis, um brilho não muito forte desceu meio metro e tocou o chão com os pés logo após a pétala do jasmim.

— Caramba — a voz vinha de trás de Renato, que retomou a postura ao ouvir uma única palavra. Seus olhos se arregalaram. — Se passaram tantos meses e, ainda assim, você não aprendeu nada que eu te ensinei? — A voz doce deixou uma leve risada escapar dentre os lábios. — Vou precisar ensinar tudo de novo? Sério? 

Myers se virou o mais rápido que o seu corpo lhe permitia, tendo assim, a visão que mais desejava ter. O amor de sua vida, que supostamente estava morto, estava bem ali, diante de seus olhos.

— C-Carlos… — O mais velho correu de braços abertos na direção do garoto, mas ao tentar abraçá-lo, seu corpo desapareceu e ressurgiu à sua esquerda, como se tivesse teletransportado para desviar daquele abraço.

— Não, sem abraços agora — ele riu de forma inocente. — Foi mal!

— O que foi então? — uma pequena lágrima se formou no olho de Renato. — Não sabe como o idiota aqui ficou mal sem você? Aaaah, cara… Eu tô enlouquecendo, eu tô louco!

— Não, Renato, para! — segurou o rosto do mais velho gentilmente, secando a lágrima antes que esta pudesse escorrer. Por mais que Myers sentisse o toque do mais novo, não podia sentir o calor de suas mãos da forma que sempre fizera. — Você não tá louco, eu tô aqui mesmo, mas não pra sempre. Então acho bom que me escute quando falar com você. Capiche?

— M-Mhm — murmurou, tentando ao máximo manter o controle de seu corpo. — Capiche.

— Ótimo — riu de forma inocente — Não me pergunte como, porque eu também não sei, mas eu estive olhando você e essas coisas que andou fazendo. — O sorriso de seu rosto desapareceu no que pareceu um solavanco repentino. — Se você me ama, por que estragar minha época favorita do ano?

— Desculpa! — desviou o olhar, fitar o chão parecia menos doloroso. — Você não tá aqui mesmo, é bem mais fácil descontar em coisinhas alegres, felizes e brilhantes do que alguma coisa que já tá destruída!

— Eu te amo, mas cala a boca, hein? — houve uma grande mudança de voz no mais novo. — Cara, no Natal tudo é mágico, nada pode te abalar. As pessoas são mais gentis, e somos mais unidos que nunca.

Renato riu de modo amargo.

— E no resto do ano todo mundo caga para todo mundo — um suspiro insistiu em escapar. — Enfim, já acabou o momento emocionante e meloso? — questionou, cruzando os braços.

— Eu vou te provar que o Natal é a época mais foda do ano inteiro até o final do dia! — Soava confiante. — Vem!

O mais novo saiu do campo, com uma corrida mais apressada que nunca, poderia ser confundido com um maratonista perdido. Se ao menos mais alguém pudesse vê-lo. Os passos não deixavam marcas na grama, nem nas flores, que permaneciam intactas a cada vez que uma investida era dada por parte de Carlos.

— Como você corre tanto? Porra, deixa eu ser sedentário!

— Hoje não! — Os braços agora abertos, em direção ao ar, com um sorriso animado em seu rosto. Renato não se conteve, também sorriu; como, por um momento, teve a capacidade de esquecer que essa era exatamente a personalidade de Carlos? Como esqueceu que foi exatamente isso que o fez se apaixonar pelo mais novo? 

Juntou todas as forças que sobravam em seu corpo e se pôs a correr logo atrás do rapaz. Após um ou dois minutos correndo, ambos pararam próximos à uma rua qualquer, muito bem decorada.

— Aonde vai?

— Aonde vamos — Carlos o corrigiu. — E a resposta é: lugares que eu mais amo durante o natal.

— Ah, que saco — resmungou, e o outro riu; ele sempre resmungava. — Mas tudo bem, parece que não estou em posição de reclamar — disse, tentando soar formal.

— Não mesmo. — ambos riram.

Enquanto caminhava seguindo Galloway, Myers percebeu que algumas pessoas o encaravam, mas decidiu não dar a mínima para isso. Já estava acostumado, sem se arrumar, tinha a aparência de um mendigo. Poucas quadras à frente, os jovens entraram em um salão especial usado para aprendizagem de patinação no gelo.

— Brrr — Renato murmurou baixo, esfregando os próprios cotovelos. — É muito frio aqui dentro, não quero nem tentar subir naquilo.

— Ah, mas você vai — falou em tonalidade brincalhona, pegando um par de patins especiais.

— Mano, como você consegue me fazer te amar e te odiar?

— Também te amo — Carlos fez biquinho.

Sem mais dizer uma palavra, Myers se sentou em um banco próximo a alguns outros casais que estavam se preparando. Alguns saindo da pista, outros entrando assim como ele. Seu corpo estava frio, tanto pelo ar climatizado para manter a pista de gelo, quanto pelo nervosismo. Nunca havia patinado no gelo antes, e agora, sozinho, era ainda mais desesperador.

— Carlos, eu não quero mais, mudei de ideia. — O casal ao lado de Renato trocou olhares confusos, e logo, voltou o olhar ao jovem.

— Nem vem com essa, agora vamos — ele riu. — Eu tô aqui para te ensinar, né!

As mãos do mais velho tremiam, gélidas. Talvez não só pelo frio, mas por diversos motivos. Estava sozinho, nunca havia patinado no gelo, estava conversando com o espírito de seu namorado e as pessoas acham que é esquizofrênico. O quão mal isso poderia acabar? Era como um combo, mas um combo ruim.

— Me dá sua mão — disse Carlos.

— Eu posso?

— Dã?

Hesitante, o mais velho estendeu as mãos para Galloway, que estava parado em sua frente, com as mãos à frente de seu corpo. Com um leve sorriso formado no rosto, segurou as mãos gélidas do mais novo e levantou-se do banco, com os patins posicionados em seus pés. O casal sentado ao lado de Myers, apavorado, retirou-se do local com uma expressão incrédula nas faces de ambos. Renato percebeu o que tinha acontecido: ele se apoiou no nada e levantou normalmente. Ninguém além dele era capaz de ver Carlos, afinal não passava de um espírito, uma retratação do que um dia fora um jovem doce e sorridente.

Ainda assim, Renato fez o máximo para não ligar. Tentava a todo momento dizer a si mesmo que já havia perdido tudo, e que se precisasse passar vergonha para saciar o grandioso sentimento de saudade que assolava seu peito, era isso que iria fazer.

Sua mão esquerda, segurando a mão de Carlos. Sua mão direita, apoiando-se em todas as barreiras da pista de gelo.

— Eu to com medo, porra — murmurou.

— Você vai se sair bem, só não se desesperar. — Galloway provocou, rindo, enquanto entrava na pista de gelo. — Vem!

Myers entrou na pista também, cauteloso. Era bem escorregadia, então todo cuidado era necessário para que não sofresse algum acidente em público.

Agarrando-se pelas barreiras internas da pista, Renato patinava de forma desengonçada, enquanto Carlos o observava com um sorriso se formando no rosto.

— Eu patinava com meu irmão alguns anos atrás. — Comentou o mais novo, na tentativa de fazer Renato se animar.

— AH, VOCÊ JURA? — o plano de Carlos falhou, mesmo assim, o mesmo pôs-se a rir.

— Eu posso te ajudar com isso, mas vai ter que manter a cabeça no lugar.

— Não, não vai dar. — o guia encarou Renato por um instante, estranhando o modo que ele falava olhando para o vazio. Tendo consciência disso, mesmo na situação em que se encontrava, Myers teve uma momentânea imensa vontade de rir. O quão hilário ele estava parecendo para as pessoas ao redor? Muito, provavelmente. Um louco, mais provável ainda.

– Vamos, Renato? Só uma vez? Por mim? — sorriu, colocando as mãos atrás do corpo. 

O mais velho suspirou.

— Tá bom, só uma vez, e vê se não me deixa cair.

— Não vou deixar.

Formalmente, sem citar uma única palavra, Galloway convidou Myers para uma dança, que logo aceitou o convite. O mais novo posicionou-se atrás de Renato, colocando a mão em sua cintura. Com passos leves, levou-o até o centro da pista.

— Não se empolgue — disse Renato em um sussurro quase inaudível. Carlos não respondeu, limitou-se a sorrir.

Notando a música Dusk Till Dawn que tocava ao fundo, dançando no ritmo, da forma que mais gostava de patinar com seu irmão. Posicionando-se atrás de Renato, levou novamente uma das mãos na cintura do mais velho. Nos primeiros momentos da música, foram alguns passos simples que Galloway sabia. Um giro longo e aberto, deslizar sobre o gelo elegantemente.

Cause I wanna touch you baby, and I wanna feel you too…

Renato saiu de sua consciência racional durante a música, deixou-se levar pela melodia e as mãos frias de Carlos. As palavras que eram identificadas em seus ouvidos agora estavam se desfazendo das frases, seus olhos se fecharam. Pensava nas letras que eram ditas em Dusk Till Dawn, como identificava ela ao casal. Mas agora, era um jovem vivo e um espírito que lhe guiaria por tempo indeterminado. Quão peculiar isso soava?

Cause you’ll never be alone, I’ll be with you from dusk till dawn, I’ll be with you from dusk till dawn, baby I’m right here.

O público que estava pela pista havia aberto espaço para Renato rodopiar. Era absolutamente fascinante. Na visão de todos, Myers era capaz de fazer giros difíceis, saltar de modo clássico e elegante e patinar livremente em um círculo, tudo de olhos fechados, quando na verdade, era Galloway.

Num piscar de olhos, a música já tinha acabado. Renato só abriu os olhos quando ouviu palmas e gritos de empolgação, gritando “Bravo!”, ou “Lindo!”. Ele não sabia se estavam dando em cima dele ou apenas estavam elogiando a apresentação de Carlos.

Dando um sorriso de orelha a orelha, o mais velho olhou nos olhos do mais novo, cujo na visão das pessoas, estava olhando para alguém aleatório.

— Obrigado, por tudo!

Renato saiu da pista de forma tímida. Quando se sentaram no banco, com a ideia de retirarem o equipamento e irem embora, o mais velho mal conseguia prestar plena atenção em Galloway tagarelando coisas aleatórias sobre como tudo aquilo havia sido incrível, e o quão difícil tinha sido dar o saltos, considerando a massa de Renato em contraste com o peso nulo de Carlos. Ele simplesmente não conseguia prestar atenção, estava entorpecido pelo momento, pela voz do mais novo, pela companhia. Vez ou outra pegava-se olhando para o nada, sorrindo, enquanto ouvia a voz de seu amado ecoando em seus ouvidos. 

Estava tão distraído que mal percebeu quando uma garota se aproximou dos dois, calmamente. Carlos notou a presença e, de súbito, cessou sua fala sobre o quanto tinha saudade de tocar teclado. Myers estranhou, para só então perceber a garota que o encarava.

— Hey — ela disse de uma forma tão doce que Renato até pensou em deixar ela como exceção da “lista de crianças que odeio”, que no caso, incluía todas as crianças do mundo (e do universo, se por acaso existisse vida em outros planetas). — Você deixou seus óculos caírem durante o show.

— Nem tinha notado, sou cego mesmo. — Carlos riu, a garota não deixou de formar um sorriso no rosto também.

— Pff, aqui. — ela entregou os óculos para Renato, que terminou de colocar seus sapatos e posicionou o acessório no rosto no rosto.

— Obrigado — Myers sorriu, desviando o olhar ao chão.

— Não foi nada, e aliás, a apresentação de vocês foi incrível — Ela sorriu, olhando nos olhos do mais novo.

— Como você… —  Confuso, Renato estava prestes a questionar como aquilo era possível.

— Dova! Temos que ir! — Myers foi interrompido. Uma garota da mesma idade estava a chamando, provavelmente eram amigas ou coisas do tipo.

— Isso é segredo — “Dova” deu uma risada baixa dentre um sorriso já formado. — Se cuidem e aproveitem o dia! — ela voltou para a pista de gelo.

— Cara, ela me viu! — Carlos foi o primeiro a levantar do banco, animado.

— Não sei como, mas viu mesmo — Myers nunca esteve tão confuso.

Ambos saíram do salão, ainda se questionando como aquilo foi possível. Renato tentou ao máximo evitar qualquer contato com outras pessoas, mesmo que fosse para elogiar ele mais uma vez.

O entardecer iluminava-os como se fosse a última vez. O céu ilustrava-se em um degradê de cores quentes, desde amarelo, a um vermelho de tonalidade viva. As nuvens brilhavam com os últimos raios de sol, reluzindo em rosa.

— Tem mais um lugar que quero te levar — Carlos analisou um grande relógio que havia próximo da praça central, eram quase seis horas da tarde. O sol estava quase a se pôr.

— Mais um? Não tá cansado, não?

— O dia não acabou, sunshine — Renato ficou com suas bochechas em um tom avermelhado.

— Não me chama assim — ficou alguns segundos em silêncio, Galloway o encarou, esperando que continuasse. — Tudo bem, me chame assim mais vezes.

— Era isso o que eu queria ouvir! — deu um pequeno pulinho, jogando as mãos ao altos, com um pequeno grito de comemoração.

Ambos riram, enquanto caminhavam em direção à praça. O céu já estava escurecendo, as primeiras estrelas começando a surgir, as luzes se acendendo em poucos minutos. Em um curto período de tempo, a praça estava toda iluminada: árvores decoradas com pisca-piscas, fonte temática de água iluminada, caminhos destacados no meio da grama. O pinheirinho de Natal público, estava da ponta até a base totalmente decorado. Eram uns três ou quatro metros só de bolinhas, luzinhas e anjinhos natalinos.

— Compra chocolate-quente? — Galloway pediu de forma infantil propositalmente.

— Não — Myers respondeu de modo seco.

— Renato Myers Junior da Silva, se você não comprar esse chocolate, eu não cozinho mais para você. — Implicou, tentando parecer superior.

— Primeiro, esse nem é meu nome — riu, levantando o dedo indicador. — Segundo, faz tipo, um ano que você não cozinha para mim.

— Ah, por favorzinho, vai? — Carlos sentou em um banco próximo. — Eu também quero tomar um pouco. — O mais velho suspirou pesadamente.

Enquanto Carlos aguardava ansiosamente por Renato, sentado em um banco entre a fonte e o grande pinheiro, o mesmo se encontrava comprando chocolate-quente em uma banquinha, se questionando se um espírito poderia beber uma matéria líquida.

— Eu tô aqui — Renato aumentou o tom de voz por estar longe de Carlos, mas logo sentou ao lado do mais novo. — Quer tentar tomar isso aqui? — falou de forma mais doce dessa vez.

— Passa pra cá — riu.

Myers alcançou o copo de isopor para Galloway, mas ele não o pegou. Sem dirigir uma palavra, Carlos bebeu a bebida do copo de Renato, ainda na mão dele. Myers ficou corado quase que instantaneamente, desviando o olhar para a fonte.

— É, até que tá bom. — riu, com uma mão sobre boca. — Valeu, Renato.

— Era pra pegar o copo, não tomar com ele na minha mão… Mas de nada — Myers bebeu o chocolate-quente após terminar a frase.

Um tempo considerável se passou até que o mais velho acabasse com seu chocolate quente. O jovem levou o copo de isopor até uma lixeira próxima, e o olhar de Carlos o acompanhava. Quando voltou para o banco, Galloway continuava o observando.

— Ei, o que aconteceu nesse último ano? — o mais novo pediu curiosamente.

— Sei lá, foi um ano complicado para caralho, não quero comentar sobre ele — Myers arrumou os óculos no rosto com o dedo indicador enquanto desviava o olhar para o chão da praça.

Carlos soltou um leve suspiro, permanecendo em silêncio para que Renato pudesse pensar melhor sobre isso. Voltando a fechar seus olhos, o jovem se manteve em silêncio. Decidiu não interromper o momento de raciocínio de seu amor, na esperança de que isso ajudasse-o a se acalmar. Devia ser um assunto delicado, e Galloway secretamente estava se culpando por não ter sido capaz de ficar ao lado de Myers nesses tempos difíceis.

— Eu não consegui outro namorado — riu baixo. — Não queria outro alguém, não tem homem que consiga te substituir.

— Eu fico aliviado ouvindo isso, mas não é a melhor coisa do mundo saber que você ainda está preso no passado.

— Eu tô legal, ok?

— Renato, Renato, Renato. Teimoso como sempre — Carlos sorriu, com uma tristeza notável. — Eu também te amo, mas tudo o que quero é que você seja feliz. — O mais novo deu um peteleco na testa do mais velho.

Renato suspirou. Dessa vez, a falta de palavras veio da parte do mais velho, que tentava encontrar algo capaz de animar o mais novo.

— Eu vou ficar com um namorado no dia que eu morrer — provocou.

— Pff! — Carlos soltou ar pelas narinas. — Como vai fazer isso? 

— Vou ficar com você né, dã.

— Idiota — Galloway bateu a mão no rosto.

— Pelo menos é o idiota que tu amas — a indecisão deu uma pontada no peito de Renato assim que terminou a frase. — Tu me amas, né?

— O que você acha?

Um silêncio de tensão reside no banquinho. Assim que Renato olhou assustado para Carlos, ele sorriu.

— Óbvio que amo! — falou entre risadas. — Pare de ter essa insegurança aí.

— Um dia você ainda vai me fazer infartar.

Ambos ficaram rindo por um momento depois da conversa. Era uma sensação muito boa. Algum tempo se passou antes que pudessem se dar conta disso. Carlos inclinou-se à esquerda, até se encostar em Renato e assim descansou sua cabeça no ombro do mais velho. Passaram assim horas que pareciam minutos, minutos que pareciam segundos. Apenas bebericando o chocolate-quente que esfriou despercebido, observando as luzes reluzentes da praça, a fonte iluminada, o grande pinheiro decorado. Tudo estava perfeito. Perceberam que o tempo estava a passar quando algumas pessoas começaram a se aglomerar em frente ao relógio próximo à praça central onde estavam.

— Ôh Renato, olha lá para mim, que horas são? — Galloway falou dentre um bocejo, esfregando os olhos. Já estava quase pegando no sono no ombro do mais velho.

-— Ah, sei lá — Forçou a visão enquanto arrumava seus óculos, o relógio. — Onze e cinquenta e nove?

— ONZE E CINQUENTA E NOVE? — Carlos levantou bruscamente do banco.

— Ei, o que que foi? — Renato levantou logo em seguida, segurando gentilmente o braço do mais novo, demonstrando grande preocupação.

— Eu tô sem tempo!

— QUE TEMPO?

— SÓ VEM, CORRE! — Galloway saiu o mais rápido que pôde da praça.

— ME ESPERA, CARALHO, SABE QUE SOU SEDENTÁRIO — gritou Myers, indo logo atrás de Carlos.

A ansiedade começou a crescer no peito de Renato. Queria pedir o que significava “estar sem tempo”, mas ao mesmo tempo, não queria ouvir a resposta. Não queria ouvir do seu amor que nunca mais o veria novamente. A respiração de ambos já estava ofegante, após uma longa corrida por quadras e quadras.

Carlos parou de correr quando estava no campo de jasmins, no mesmo local em que apareceu no início do dia. Algumas pétalas e raminhos estavam flutuando com a brisa leve da noite.

— Que… — Renato parou a alguns metros de distância de Carlos, apoiado em seus joelhos para recuperar o fôlego. — P-porra foi essa? — seus pulmões pareciam queimar. Em toda sua vida, nunca tinha corrido tanto em tão pouco tempo. Mas ao menos, tinha um motivo razoável: uma emergência amorosa.

— Renatinho, eu tenho que ir agora. Me desculpa — Carlos abriu os braços.

— Não! NÃO! — Myers colocou as mãos em seus próprios cachos, bagunçando seu cabelo. Sua respiração passou a ser descompassada, não queria passar por tudo de novo. — Eu não quero, e-eu não… — Renato caiu de joelhos no chão, os óculos caíram sobre a grama. Uma lágrima escorreu pelo rosto do mesmo, logo caindo sobre a lente direita da armação.

— Renato — Carlos se aproximou do mais velho e sentou na grama em frente a ele. As extremidades dos lábios do mesmo estavam levemente curvadas, esboçando um sorriso em sua face.

10

A contagem regressiva para o natal havia começado.

— Ei, me escuta — colocou a mão no rosto de Myers, podia sentir as lágrimas umedecendo-a.

9

O tempo se esgotava, mas parecia apenas ficar mais longe.

— N-não… 

8

Era tarde para qualquer coisa que tentassem.

— Escuta — sussurrou. — Eu quero ver você feliz, ok? — Renato assentiu lentamente com a cabeça.

7

Mesmo assim, a esperança não se apagou.

-— Você vai arranjar alguém e ser feliz, por mim! — sorriu, enquanto acariciava a bochecha do mais velho.

6

Esse é o espírito do Natal. Mesmo que o ano tenha sido difícil.

— E quando a gente se encontrar de novo, em alguma próxima vida… 

5

A luz da esperança nunca deve se apagar. Esse é o Natal.

— Vamos ficar juntos, de novo! Eu prometo. 

Carlos segurou o rosto de Renato com as duas mãos, o puxando para um beijo. Um simples toque dos lábios macios de Galloway foi o suficiente para fazer o coração de Myers disparar, mas ao mesmo tempo, fazer com que ele se sentisse mais calmo, mais acolhido e mais seguro.

4,  3, 2

A essência do Natal é o amor. Sempre foi. Amor à família, amor ao mundo, amor às pessoas, amor ao próximo.

1

O tempo acabou.

A lua era minguante, mas brilhava como se fosse cheia. A visão de Carlos começou a se esvair dos pés à cabeça. Uma espécie de clarão divino o envolvia, sua imagem agora não passava de um mero resquício. Myers levou as mãos ao rosto, prestes a segurar as mãos do mais novo para retribuir o beijo, mas tudo o que fez foi tocar o próprio rosto. O rapaz, antes a sua frente, já havia desaparecido.

— Pff.

Renato olhou para baixo e colocou seus óculos novamente no rosto. Um pouco abaixo de seu queixo, havia um jasmim plantado. Ele não estava lá antes, brotara no instante que Galloway fora embora. Jasmim sempre foi a flor favorita deste, pois significa sorte, doçura e alegria. Possui perfume marcante que se acentua durante a noite, e, por causa disso, é conhecido como o Rei das Flores. Ninguém além dele podia saber o quanto aquela flor era identificável com seu namorado. É, não mesmo.

Myers normalmente ficaria irritado e frustrado por não ter conseguido abraçar seu amor, nem mesmo segurar as mãos dele no último momento juntos, mas não. Dessa vez, estava feliz. Havia encontrado algum sentido nessa data tão trágica, que se tornou tão especial.

Natal não se trata apenas de um encontro chato de família, comida gostosa, presentes incríveis ou horríveis. Natal é amor. Natal é doar para as pessoas necessitadas aquilo que você não usa mais, por amor. Natal é ajudar ao próximo, sem esperar algo em troca, por amor. Natal é reencontrar parentes queridos com um abraço apertado, por amor. Natal é sorrir para seus amigos e receber sorrisos de volta, também, por amor. Renato sorriu, olhando para a lua, alta no céu decorado pelas estrelas e constelações.

— Feliz Natal, Carlos. Eu te amo.

Tulipa Editora

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