Contagem regressiva para o Natal – Paloma Costa

Mesmo quando as coisas não vão bem, o final do dia pode reservar algo especial. Seja uma lição, um abraço apertado e, por que não, uma árvore nova? O importante é não deixar de acreditar na magia do Natal!

Eram seis horas da tarde do dia 24 de dezembro. Muitas pessoas estavam no aguardo para a virada, inclusive Mirela. Ela amava o Natal! Em todas as datas natalinas, por mais que esta antecedesse um dia ruim, e por mais que o dia tivesse tudo para não ser bom, ainda assim era. Havia uma paz e sensação de tranquilidade que Mirela não sabia descrever. Sua família havia se mudado no início do ano e aquele seria um Natal diferente dos anteriores, já que estaria longe de seus parentes. Mas a garota só esperava o melhor para esse dia, ao lado de sua mãe, sua irmã e o seu tio.

Olhando a decoração de sua casa, Mirela sorriu. Não havia uma linda árvore decorada, daquelas que vemos na TV, mas criatividade era o que não faltava! Com galhos e alguns tipos de papel colorido, a árvore ficou perfeita! Não era a decoração dos sonhos, mas a pequena obra de arte bem que poderia chegar perto.

— Ai meu Deus, finalmente consegui terminar a última peça da árvore! – suspira aliviada.

Malu entrou na sala e olhou com admiração.

— Finalmente! Que linda a estrela! – ela fala, aproximando-se para pegar o objeto.

— Nem vem, não ouse tocar nela. Ainda está secando. Eu quase não consigo consertar depois que certa pessoa derrubou no chão – Mirela faz careta para a irmã que retribuiu o gesto. – Deu trabalho, sabia? Mexi um pouquinho aqui e ali e voilà!

— Ficou perfeita! Mãe vem ver isso! Vou ligar os pisca-piscas — empolgada, Malu corre para realizar a tarefa.

— Eu amei – com os olhos cheios de lágrimas, Mirela sorri pra mãe. – Só queria que tivéssemos umas luzes a mais, mas é o que temos para hoje. Talvez no próximo ano possamos comprar uma árvore de verdade.

— É a árvore mais linda que vi. Eu não trocaria por outra. Minhas filhas talentosas arrasaram de novo — a mãe se aproxima e abraça as filhas. – Eu amo vocês!

A mãe de Mirela sempre dizia: as pessoas valem muito mais do que as coisas materiais. A garota concordava, estar ao lado de quem se ama é bem mais importante do que um número infinito de árvores de natal, mas uma decoração natalina trazia um clima bem mais alegre para as pessoas e não havia nada de errado em desejar uma.

Após o abraço apertado a pergunta que não queria calar precisava ser feita.

— E como estão os preparativos para a ceia de natal?

**

Não haveria ceia. Quer dizer, haveria sim, mas era simples e provavelmente seria consumida antes da meia-noite. Por mais que existisse um esforço para esperar, era um esforço totalmente frustrado. As irmãs haviam passado dias pesquisando as melhores receitas natalinas que coubessem no orçamento, é claro. Muitas encontradas eram desconhecidas para as garotas, umas de aparência deliciosa, outras não tinham uma aparência tão boa assim sendo imediatamente descartadas. E havia aquelas que não poderiam faltar à mesa, já que faziam parte da lista antes mesmo da pesquisa. Depois de uma difícil seleção, elas tinham uma lista respeitável, só precisava ser colocada em prática. Enquanto exerciam o talento culinário, o celular tocou e a mãe de Mirela atendeu.

— O que aconteceu, mãe? – a garota pergunta assustada.

— Seu tio. Sofreu um acidente. Ele estava de moto, bateu em um carro e machucou a  perna. Está indo para o hospital nesse momento. Preciso saber direito o que aconteceu. Acompanhar meu irmão…

— Tudo bem, mãe, é melhor você ir mesmo — fala um pouco triste pelo o que aconteceu e por sua mãe precisar sair.

— Nós vamos cuidar de tudo por aqui, mãe. Não se preocupe. A ceia de Natal estará pronta para quando vocês chegarem – Malu afirma, olhando para a irmã com um sorrisinho no rosto.

Mirela entende bem aquele gesto: as duas irmãs eram um desastre na cozinha! Sozinhas, as coisas até que iam, mas, juntas? Elas já poderiam esperar que algo desse errado no jantar.

Quase oito horas da noite, a mãe se despediu e saiu. As meninas esperavam passar os dias de feriado ao lado da mulher e aquele seria um dia de folga para as três aproveitarem juntas. Infelizmente, coisas assim acontecem.

**

Enquanto as irmãs preparavam o banquete (ou tentavam, as discordâncias entre elas eram imensas na cozinha), Mirela ouviu alguém batendo na porta da frente da casa. Olhou para o relógio, eram pouco mais de oito da noite. Quem poderia ser? Ao abrir a porta, se deparou com quem menos esperava encontrar naquela noite: a vizinha.

— Ah, boa noite, Sra. Francisca! Você quer falar com minha mãe? Desculpe, ela saiu.

— Boa noite, Mirela. Ela foi pra onde? É Natal! Nossa, a patroa dela não deu folga? É por isso que trabalhar na casa dos outros é ruim. É muito trabalho e pouca folga, não tem nenhum direito…

— Não é isso!  Ela precisou resolver outra situação, mas volta logo.

Antes que a vizinha tivesse oportunidade de perguntar outra coisa,  mulher curiosa aquela, Mirela adiantou.

— Mas pode dizer! A senhora precisa de ajuda com alguma coisa?

Essa era a pergunta que NÃO deveria ter sido feita.

— Isso mesmo! Preciso de alguém pra ficar com o Joãozinho e o Miguel, é que…

E naquele momento, as palavras se tornaram mudas. Não. Não. E N-Ã-O. Aquelas crianças não eram crianças comuns. Não eram “gente”, como Mirela costumava definir. “Por favor, por favor, por favor, não”, pensou. Aquela mulher precisava ir embora e levar os garotos com ela.

— Sabe o que é? Eu, eu… – gagueja Mirela, pensando em todas as possíveis desculpas que existiam, sem conseguir decidir a melhor.

— É muito rápido Mirela! – insistiu a mulher.

— Mas é que eu..

Onde estão as “boas desculpas” quando se precisa delas?

— Só até sua mãe chegar, você só tem 13 anos, mas consegue, já está mocinha. – emendou Sra. Francisca.

-Tenho 17, a Malu que tem 13 – reclama Mirela. Qual era o problema das pessoas em relação à idade alheia?

— Sério? Tão pequenas para idade. Mas, então, sua mãe já está quase voltando, você mesma disse. É só enquanto ela chega. A não ser que ela esteja resolvendo algo mais urgente – insistiu a mulher, com um olhar de acusação.

Mirela queria contar, mas em uma situação anterior, a Sra. Francisca havia espalhado para todos do bairro como o seu tio era problemático e que estava “perdido”. Saber sobre o acidente iria comprovar que o rapaz era irresponsável em todos os sentidos e Mirela não concordava com isso. “Tudo bem! São apenas duas criancinhas!”, pensou. “Que mal poderia acontecer?”. Mas, foi quando Mirela ouviu o som da voz de Joãozinho, a menina mudou de ideia.. De novo.

— Oi, tia.

A paz que a menina tanto ansiava no natal se perdia naquele momento.

— Tá aqui a chave da casa se precisar de algo – Sra. Francisca apressou-se em informar os detalhes básicos do cuidado dos filhos e, em seguida, saiu.

A noite já não estava indo bem, agora isso. Miguel era um menino de sete anos, agitado, mas “controlável”. Tinha medo de ameaças, tanto que só através do olhar de Mirela, o menino se acalmava e a dona do olhar gostava disso. Já Joãozinho, um menino de quatro anos, seria mais difícil de lidar. A menina já havia cuidado das crianças antes e até aquele dia nunca havia descoberto uma forma de acalmar os nervos do garoto. Uma vergonha.

— Joãozinho, você vai assistir com o Miguel. Olha, que legal! O filme da Barbie de Natal está passando na TV!

 — Eca! Filme de  mulherzinha! – Reclamou Miguel.

— Não é não, garoto, quem foi que te disse isso? Os outros canais não estão passando desenho, então vai ser esse mesmo!

 — Não quero isso, eu quero o desenho do homem aranha – gritou Miguel e Joãozinho põe-se a repetir.

— E eu, tia. Homem Aranha! – Joãozinho repetia, gritando cada vez mais alto.

— Não, só tem esse – disse, olhando para Miguel com o olhar ameaçador. – Fiquem aí assistindo, volto já.

Com uma chuva de reclamações, Mirela saiu da sala para, quem sabe, transferir a missão de cuidar dos “anjinhos” para a irmã.

— Malu me deixa preparar o jantar e vai lá para a sala.

— Não vou ficar vigiando aqueles pestinhas. Nem vem! – retrucou a irmã, já conhecedora da situação.

— E nem eu!

— Vai dar certo, minha irmã. Eles não são tão danados assi…

E nesse momento, as meninas ouviram o barulho de algo caindo no chão e se apressaram para a sala.

— Você quebrou o prato? Quem deixou esse prato aqui? Ah, não importa. Meninos, fiquem onde estão. Malu vai limpar a bagunça.

— Mas por que eu?

— Por que você não quer me ajudar com eles e provavelmente deve ter deixado esse prato aí.

— Foi você que deixou os meninos sozinhos – provocou Malu.

— Ah, pelo amor de Deus, não me culpe por isso! Joãozinho e Miguel, parem de correr ou eu juro que vou amarrar os dois na cadeira!

As crianças começaram a sorrir, mas Mirela realmente falava sério. Respirando fundo, a garota propôs uma ideia.

— Já sei, que tal eu contar uma história?

— Chato! – Miguel resmungou parecendo entediado. Joãozinho repetiu.

— Ah, meninos, vai ser legal. Que histórias vocês querem?

— Terror. Eu aposto um real que eles não aguentam – Malu interrompeu e prosseguiu. – E se vocês aguentarem a história sem chorar, eu pago vocês.

— Só se forem R$ 5 reais – pediu Miguel.

— Fechado. – Malu concordou fazendo um olhar de quem nunca perderia aquela aposta.

Mirela considerava aquela uma péssima ideia, mas com a insistência de Malu acabou cedendo. E assim começaram os preparativos.

**

Já eram nove horas da noite quando, finalmente, estavam prontas. As meninas apagaram as luzes da sala e, então, iniciaram a história.

Malu entra na sala vestida com uma roupa colorida e um penteado infantil segurando urso de pelúcia nas mãos. A menina aparentava ser a criança mais meiga que existia no mundo, porém, no segundo seguinte ela estava chutando os móveis da sala, jogando as coisas no chão e mostrando a língua para pessoas invisíveis (Mirela achou um pouco exagerada aquela cena, mas não interrompeu). Em seguida, Malu começa a falar com um tom de voz mais infantil.

— Hoje é Natal. O papai Noel vai trazer presentes para mim e eu vou jogar todos os que eu tenho fora, pois não gosto mais deles. Eu fiz uma lista bem grande de Natal e vou ganhar um monte. Agora só esperar ele chegar – terminou a sua fala com um sorrisinho maldoso.

Nesse momento, Mirela adentra a sala produzida da cabeça aos pés: vestido vermelho, sapatos e cinto pretos, um chapéu de Papai Noel e maquiada com o tom mais vermelho de todos os tons vermelhos nos lábios. Isso sim que era produção.

— Olá, criancinhas, eu sou a mamãe Noel. Tudo bem com vocês?

— Não existe esse negócio de mamãe Noel! – interrompeu Miguel.

— Cadê o papai Noel? – acompanhou Joãozinho.

— Não interrompam. Se o Papai Noel existe, a mamãe Noel também, então silêncio! Prosseguindo. Estou aqui porque ouvi a voz dessa menininha que espera por mim. Bom, querida, estou aqui. Diga o que queres.

— Mamãe Noel! Eu sabia que viria, onde estão meus presentes?

— Ah, os seus presentes! Eles estão lá em cima no telhado, junto ao meu trenó. Aliás, são bem carinhos, viu?

— Pois então o que você está esperando para buscar? Vai logo! – Reclamou Malu cruzando os braços.

— Calma, criança, não é assim que funciona. Você só ganha os brinquedos com uma condição!

— Sério? Eu achei que só precisava pedir e pronto!

— Não, não funciona assim. Eu preciso saber apenas uma coisa: você tem sido uma criança bondosa?

— É claro que sim, mamãe Noel.

— Tem certeza? Ontem eu vi você empurrando uma coleguinha, desobedecendo a seus pais, xingando a professora e quebrando os seus brinquedos. Isso é mentira?

— Não, mamãe Noel – choraminga, fazendo beicinho.

— Então, eu sinto muito em informá-la que crianças assim não ganham presentes e sabe o que mais?

Mirela fica uns instantes encarando Malu e depois dá alguns passos para o canto da sala de costas para os telespectadores. Quando começa a voltar, ainda de costas para o seu público, acaba tropeçando em uma cadeira, se desequilibrando em direção da árvore decorada da família. A menina não conseguiu desviar da árvore, mas conseguiu segurá-la deixando somente a estrela cair no chão. De novo.

O que se ouviu posteriormente foram gritos de todos os lados. Mirela e Malu gritavam pela estrela, enquanto Miguel e Joãozinho gritavam apavorados pelos gritos das meninas e por causa do rosto de Mirela, que havia mudado, já que a menina estivera fazendo traços em sua maquiagem para parecer assustadora, segundos antes de tentar realizar a sua virada dramática. Mirela inspirava e expirava para se acalmar, quando enfim conseguiu falar:

— Tudo bem, era só uma estrela!

— Só uma estrela? Calma aí, na última vez você quase surtava quando eu derrubei, mas quando é você que tem a culpa, então tudo bem? – protestou Malu, diante da situação.

— Foi um acidente!

— Na minha vez também foi um acidente!

— Eu… eu… – gaguejou Mirela, preste a chorar.

— Espera. Que cheiro é esse? – questiona Malu, de repente.

Voltaram às pressas até a cozinha para encontrar os planos do jantar indo por água abaixo. O frango, que perfeitamente bem substituiria o peru de natal, acabara de queimar. As meninas, então, estavam prestes a começar outra briga quando Miguel chegou ofegante e falando que Joãozinho havia fugido e que de jeito nenhum o menino conseguia segurá-lo. Mais essa agora. Mirela saiu correndo na busca por Joãozinho.

Já na rua, a garota avistou Joãozinho que não estava tão longe. Graças aos céus não havia uma agitação na rua, sem risco de acidente pelo visto. Por enquanto. Era melhor se apressar. Ao gritar o nome do menino, este correu mais ainda, obrigando um cenário de fuga.

— Você não me pega, cai e escorrega – o menino gritava, mostrando a língua antes de cada repetição.

Ninguém merece. Quando finalmente chegou perto do menino, conseguiu segurá-lo. Extremamente ofegante, reconheceu a necessidade de fazer mais exercícios físicos, ninguém deveria cansar tão rápido.

— Joãozinho, você não pode sair correndo assim na rua. Que perigo. Vou contar para sua mãe. Eu quase morro de susto!

— Me solta, me solta, vou dizer pra mamãe.

— Por favor, não grite. Só solto se você me prometer que não vai correr.

Joãozinho concordou. Então a menina o soltou. Pra quê? Joãozinho saiu em disparada de novo e mais uma perseguição se iniciou. Quando conseguiu segurá-lo novamente, Mirela avistou uma sombra de um rapaz se aproximando em uma moto. Não podia ser. Justo agora. “Por que essas coisas acontecem comigo?”

— Oi, Wallace, tudo bem? – pergunta, soprando os cabelos do rosto.

— Eu que pergunto! Está tudo bem aí, Mirela? Precisa de ajuda? – O rapaz perguntou levantando uma das sobrancelhas.

Por que aquele garoto precisava ter um sorriso tão encantador? Mirela conhecia Wallace há pouco tempo, ele estudava na mesma série que ela, mas em outra turma. Através das amizades em comum, começaram a conversar e, desde então, se encontravam, às vezes, nos encontros de amigos.

— Está tudo sobre controle por aqui. Só estamos brincando, não se preocupe!

Mirela tentou parecer mais convincente o possível, até sorriu com aqueles sorrisos de orelha a orelha, até mesmo ela teria se convencido daquilo se não fossem os dentinhos de Joãozinho em sua pele. Claro que ela não conseguiu evitar o grito e também precisou soltar Joãozinho que estava livre de novo para correr, porém, dessa vez não fez isso.

— Você está bem, Mirela? Garotinho, você sabia que é feio fazer isso?

— Feio é você.

Feio nunca. Que ofensivo! Já não bastava tentar enlouquecer Mirela, Joãozinho ainda proferia calúnias contra seu… Wallace.

— Joãozinho, chega. Vamos pra casa agora!

Quando pegou a mão do menino, algo inesperado aconteceu: Joãozinho abaixou-se e expeliu tudo o que havia comido recentemente. Mirela não esperava por isso, vômito não era sinal de coisa boa. A menina começou a ajudá-lo, fez aquilo que a sua mãe sempre fazia quando isso acontecia com ela, passava as mãos no estômago do menino e até seguraria os seus cabelos se fossem longos como o dela, mas não era preciso, naquele momento ela só precisava identificar por que aquilo estava acontecendo.

— Acho que ele está com febre. Ele não comeu nada nessa última hora, eu não sei o que ele tem.

— O hospital não é longe daqui, eu posso levar vocês. Ele não parece bem – sugeriu Wallace, também sem entender a situação.

Os adolescentes resolveram esperar uns instantes ali mesmo próximos a uma calçada. Joãozinho parecia piorar, o vômito voltou dando a conclusão de que precisavam ir ao médico. O relógio marcava quase dez da noite quando estavam a caminho do hospital. Mirela deveria ter passado na sua casa para avisar o que tinha acontecido, só estava há alguns quarteirões de distância, mas não o fez. Quando chegasse ao hospital avisaria. Naquele momento, pensou na mãe, será que havia dado notícias? E será que Malu conseguiria sozinha dar um jeito no desastre com o jantar? Mirela estava morrendo de fome.

**

Havia muitas pessoas no hospital, e, como das outras vezes que estivera lá, Mirela sabia que precisariam esperar. Essa espera demorava bastante, a não ser em casos realmente urgentes, se o paciente pudesse esperar, a ordem de chegada era seguida rigorosamente.

Joãozinho não estava bem, o garoto estava muito quieto em seus braços na fila de espera. E ainda tinha Wallace, tão gentil, ao seu lado. Enquanto refletia a situação, Mirela olhou ao seu redor e notou que as pessoas a olhavam de maneira diferente, outras até riam. Será que essas pessoas nunca viram alguém vestida de mamãe Noel?

— Por que estão todos me encarando? – perguntou para Wallace, tirando o chapéu da cabeça. Deveria ser isso, ninguém esperava uma pessoa fantasiada no local. O garoto sorriu e se aproximou um pouco mais de Mirela.

— Deve ser por causa da sua representação inédita de mamãe Noel. Eu gostei bastante. Você estava fazendo alguma apresentação ou iria fazer?

A maquiagem! Como Mirela pôde esquecer aquela maquiagem?

— Você pode me emprestar o seu celular, por favor? – Ao ver seu reflexo na tela do celular prosseguiu. – Ai meu Deus. Por que você não me falou antes que eu estava parecendo uma louca?

Wallace começou a gargalhar pelo o que pareceu uma eternidade, até que o garoto finalmente conseguiu falar.

 — Você não está parecendo uma louca, está linda com um toque dramático.

Que gentil da parte dele. 

— Estamos no hospital, é por isso que as pessoas estão me encarando. Preciso dar um jeito nisso. Você pode ficar com Joãozinho?

O garoto concordou e Mirela saiu pelos corredores do hospital em busca do banheiro. O hospital era um lugar onde muitas vidas eram salvas, mas ao mesmo tempo era um ambiente muito triste. Era véspera de Natal e muitas pessoas passariam a virada da noite ao lado de seus familiares ali. Sem comemorações, sem risos compartilhados com a família e amigos, sem músicas alegres tocando ao redor, sem decorações. Só havia a esperança de que seu ente querido ficasse bem.

**

>> Wallace: Oi, Malu. Mirela aqui. Joãozinho passou mal no meio da rua. Estamos no hospital e espero que por aí esteja tudo ok. Talvez eu encontre a mamãe aqui. Ela vai enfartar quando me ver. Se quiser falar comigo, mande mensagem para este número. É o contato do Wallace. Bjs!

Mirela mandou mensagem para irmã às às dez e vinte da noite e esperava que ela respondesse quando Wallace quebrou o silêncio.

— Agora me conta tudo. Porque o garotinho estava te mordendo no meio da rua? – curioso, ele quis saber.

Mirela não conseguiu segurar a gargalhada (não tão alta assim, eles estavam em um hospital) ao ouvir aquela pergunta e começou a contar tudo (ou quase tudo) o que havia acontecido.

— Me deixa ver se entendi: você está me dizendo que queimou o banquete de natal? Essa foi uma das piores coisas que aconteceu, sabia? Não estou querendo dizer que ser obrigada a virar babá e perseguir um garoto pelas ruas do bairro foi fácil. Caramba, ao final você ainda vem parar no hospital!

Mirela assentiu. Ouvindo o que aconteceu, a situação parecia hilária, no sentido mais desastroso da palavra.

— Chega de falar de mim! O que você estava fazendo andando pelo meu bairro?

— A casa dos meus avós é na rua atrás da sua.

Com a expressão surpresa de Mirela, Wallace prosseguiu.

— Eu também não sabia, descobri isso hoje. Você passou correndo por lá e te segui. Fingi que estava de passagem, mas eu confesso que queria saber o que estava acontecendo – confessa, com um sorriso de canto no rosto.

— Ai meu Deus. – Mirela corou.

— Foi engraçado. Não tem porque se envergonhar, quem nunca sofreu nas mãos de uma criança não sabe nada da vida.

— Com certeza – olhando para Joãozinho que continuava a se mexer em seu colo, o garoto parara de chorar, mas continuava febril e inquieto.

Nesse momento foi necessário haver uma quebra do protocolo na ordem dos atendimentos, já que o Joãozinho vomitou novamente, levando o menino a ser o próximo a ser atendido.

A situação não passava de uma virose gastrointestinal. Joãozinho gritou horrores quando precisou tomar remédios para febre (que estava baixa, graças a Deus), vômito e para colocarem um soro com algum tipo de vitamina.

Depois que finalmente parou de chorar, ele dormiu. Como pode uma criança tão bela dormindo ter a capacidade de tirar a paz quando estava acordada?

>> Malu: Mirela, agora que vi a mensagem! Finalmente! Eu estava quase chamando a polícia para fazer um boletim de ocorrência. O que aconteceu com o garoto? Comeu comida do chão da rua? A vizinha está aqui,  já vou soltar a bomba. Tô com medo da reação dela. Ela chegou pouco depois que você saiu atrás do menino, eu falei que vocês tinham ido passear na pracinha. Coisa boa: nossa querida vizinha salvou o banquete. Você vai amar o que tem por aqui. Mamãe deu notícias, mas talvez você já saiba já que está no hospital também. Enfim, acho que é isso. Tchau!

>> Wallace: Vamos ter uma ceia de natal! Retiro tudo de ruim que já falei da vizinha! Será que a culpa seria minha se por acaso, sob meus cuidados, Joãozinho comesse algo que encontrou na rua? Graças aos céus que ele não fez isso! É só uma virose. E sobre a notícia para a vizinha, vai na fé que Deus é Pai! Até mais.

>> Wallace: Ah, você pode fazer um favor pra mim?

O relógio marcava quase onze da noite, quando Sra. Francisca chegou ao hospital. Mirela contou a situação (não toda) para a mulher que agradeceu pelos cuidados com o filho.

— Vim o mais depressa que pude. Já estava preocupada pela demora quando Malu viu as mensagens. Mas confio em você, sei que fez o que achou melhor para meu menino.

A Sra. Francisca passou uns minutos olhando para o filho e Mirela concluiu que seu trabalho ali estava terminado.

— Já estamos indo, Sra. Francisca. Vou ver se encontro a minha mãe.

Ao notar Wallace, a mulher falou:

— E quem é esse lindinho? – piscando o olho para o garoto.

— É meu… amigo da escola, o nome dele é Wallace.

— Prazer em conhecer, Sra. Francisca.

— O prazer é todo meu. E não me chame de senhora. Você ajudou com o meu filho, não é? Muito obrigada. – disse piscando o olho novamente. Desnecessário.

— Já está tarde, precisamos ir. E onde está Malu? – apressou-se Mirela, antes de qualquer outro comentário da mulher.

— Na sua casa. Onde mais ela estaria? Essas duas inventam cada coisa! Até queimaram o frango de natal! Sabia disso garoto? – se dirigindo a Wallace que concordou fazendo a mulher gargalhar. E logo continuou. – Sua mãe vai ter uma surpresa quando chegar em casa. Eu sei que ela está aqui, não sei por que você não me disse isso mais cedo.

— Ah, porque não era nada sério. Você sabe como o meu tio está?

— Bem, foi uma fratura na perna, acho que vai precisar de muletas pelo que eu ouvi – disse balançando a cabeça negativamente.

E quando iam saindo da sala, a Sra. Francisca puxou a menina novamente e falou baixinho para que somente Mirela ouvisse:

— Esse tal de Wallace é um pedaço de mau caminho. Ah, se eu fosse mais jovem! Investe nele que vale a pena!

Mirela, então, saiu da sala. Como assim Malu estava em casa? Ela afirmou que viria. Os adolescentes saíram e foram para frente do hospital. Wallace checou as mensagens do celular e havia mais uma:

>> Malu: Estamos chegando. A Sra. Francisca não permitiu que eu contasse o plano, só saiu em disparada para aí. Estou me virando aqui com o Miguel, até que estou gostando do moleque. Me aguardem. Vai dar certo!

Mirela e Wallace esperavam na frente do hospital em silêncio quando a garota se aproximou de um banco e se deitou. Estava cansada demais para somente sentar.

— Noite, feliz… noite feliz… – sussurrava a letra da canção, e depois em um som mais auditivo, continuou – Que horas são?

— Onze e trinta e cinco. Você está bem? – perguntou Wallace, se aproximando da menina.

— Sim, só não consigo levantar. – disse pensando nos acontecimentos da noite.

— Eu percebi que, desde quando te encontrei na rua, você olha para o relógio de vez em quando. Está ansiosa com alguma coisa?

— É tão perceptível assim? – Mirela sorriu e prosseguiu – É véspera de Natal, faltam poucos minutos para a virada do dia e eu aguardo pela contagem dos segundos. É emocionante perceber a virada do dia ao lado de quem você gosta e poder abraçá-los à meia-noite. Eu espero por isso todos os anos, é uma tradição, não é? É estranho se importar tanto com esse momento?

— Não, não é nada estranho. Acredito que você vai conseguir fazer isso hoje.

Mirela sorriu. E nesse momento ouviu um grito ao longe de Malu por ajuda. Eles se levantaram rapidamente do banco e correram até Malu, que tentava carregar a árvore de Natal da família com a ajuda de Miguel.

— Finalmente vocês chegaram. Obrigada irmãzinha – disse Mirela, abraçando Malu.

— Precisei desconcertar algumas coisas para conseguir trazer, mas está tudo aqui.

— Pois vamos cuidar disso logo. Que Deus nos ajude!

E voltaram para dentro do hospital, para convencê-los a deixar a árvore ficar ali. Ela havia passado dias pensando em como fazer uma decoração bonitinha de Natal na sua casa. Mirela e Malu improvisaram ao máximo para conseguir algo que deixasse a casa mais em clima natalino, mais alegre. Olhando para o hospital, percebeu que sua arvorezinha ficaria mais bonita ali e a irmã concordou.

Não foi difícil convencer mais gente disso. As enfermeiras, as recepcionistas, o vigia e os que estavam ali, elogiavam a pequena árvore e sugeriam o melhor lugar para ela. Até que encontraram o ponto perfeito. Enquanto terminavam os detalhes na decoração, Wallace alertou.

— Mirela, faltam dois minutos para a meia-noite. Se você correr, pode encontrar a sua mãe para a contagem dos segundos.

Aquela tradição era importante, porém o Natal também era dia de se doar às pessoas, aquele momento poderia esperar.

— Vamos contar os segundos aqui.

E quando o relógio marcou meia-noite, as pessoas começaram a desejar felicitações umas às outras. A recepção estava diferente, a árvore sem estrela iluminava alegremente.

Mirela abraçou demoradamente a irmã, Wallace e até Miguel (que agora não era tão uma criança tão terrível assim). Abraçou e desejou um Feliz Natal para quem pôde, até para as pessoas que passavam na rua. Era algo que nunca tinha feito e estava muito feliz com isso.

Quando Mirela parou para olhar para sua arvorezinha, viu algo diferente brilhando bem no topo dela. Era uma estrela! Como assim? A garota se aproximou para ver melhor e uma funcionária do hospital lhe contou que havia comprado a pequena estrela na tarde daquele dia e pretendia levar para casa depois do plantão. Porém, ao ver aquela árvore sem nenhuma, concluiu que a pequena estrela ficaria perfeita ali. Mirela concordava, era perfeita. A última peça da árvore esperava por elas bem ali em um lugar totalmente inesperado.

Mirela acompanhou Wallace até a saída do hospital. Malu já deveria ter encontrado a mãe naquele momento. O encontro com a mãe poderia esperar, só precisava se despedir do garoto que a ajudou tanto.

— Obrigada por tudo. Mesmo.

— Eu que agradeço pela noite cheia de emoções. Eu queria te falar uma coisa: amanhã vai ter um almoço especial de Natal na minha casa, estou te convidando. Se você puder e quiser ir, sinta-se bem vinda, eu gostaria muito que fosse.

— Ah, claro! Eu quero – respondeu envergonhada.

— Ah, fico feliz! Eu mando mensagem para acertar tudo. É… eu preciso ir.

E então Wallace se aproximou um pouco mais de Mirela, que quase recuou, mas não o fez. E aconteceu algo totalmente inesperado para o dia: primeiro o toque delicado das mãos, depois o esperado toque dos lábios. Enquanto Wallace se afastava, Mirela continuava ali a observar, contava os segundos para encontrá-lo de novo.

**

O Natal havia chegado. Eram uma e onze da manhã quando todos estavam na frente do hospital, decidindo se chamariam um táxi.

— Nós podíamos voltar para casa a pé. Olha que noite linda! Precisamos aproveitar! – sugeriu Mirela, animada com a ideia.

— A ceia de Natal espera por nós, quanto mais cedo chegarmos, melhor – observou Malu.

— A menina quer aproveitar a noite, a ceia vai continuar lá mesmo se demorarmos uns dez minutos a mais. Apoio à ideia! – ajudou a Sra. Francisca, com Joãozinho bem melhor em seu colo.

— Tio Albert não consegue andar, esqueceram? – lembrou Sra. Mônica.

— Estou bem aqui, maninha, essas gracinhas aqui – disse mostrando as muletas – são bem úteis. Eu aguento. Vamos?

— Ninguém merece. Agora que vamos demorar mesmo. Pois vamos logo! – reclamou Malu.

A véspera de Natal de Mirela foi inesquecível, para guardar na memória. Durante um tempo, as coisas iam de mal a pior, até se consertarem. Mesmo quando o frango queima, as coisas quebram e é necessária uma visita ao hospital, ainda assim o final do dia pode reservar algo especial, talvez um abraço demorado ou o beijo mais esperado. É preciso acreditar. Acreditar na magia do Natal.

— Sabe o que poderíamos fazer agora?

— Lá vem. Diz logo! – disse Malu.

— Então é Natal… – cantarolou Mirela.

Todos começam a sorrir, e, logo em seguida, acompanham a canção.

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