O Natal de uma garota chamada Noel – Marcos Vinícios da Silva

Noel já estava cansada das tradições de Natal da sua família. Aliás, a data já não era sua favorita, uma vez que dividia seu aniversário com as festividades. No entanto, quando Samuel, um mero conhecido, como ela faz questão de enfatizar, mostra um outro lado do Natal, Noel conhece um mundo completamente diferente.

O despertador do meu telefone anunciou que a véspera do feriado mais querido do ano havia chegado, isso significava que daqui a poucos minutos meus pais e minha irmã invadiriam meu quarto com um bolo em mãos. 

Não era somente o Natal que era comemorado em minha casa, pois no dia vinte e cinco de dezembro eu celebrava mais um ano de vida. Isso mesmo, meu nascimento ocorreu no adorado dia natalino, exatamente meia noite em ponto. 

Como todos os outros anos, meus pais tinham a mirabolante ideia de fazer o que eles nomearam de “Véspera de Aniversário”. Resumindo, na manhã antecedente ao meu aniversário eles me presenteavam com um bolo. Algo que no início era até legal, mas com o tempo acabou saturando e se tornando menos empolgante, até perder a graça, pelo menos para mim, pois meus pais ainda continuavam empolgados com essa ideia.

— SURPRESA!

O grito de Bianca, minha irmã, ecoou por todo meu quarto, o que fez com que me levantasse do travesseiro assustada, com meu coração batendo aceleradamente.

— Meu Deus! — reclamei colocando a mão sobre meu peito — Vocês querem me matar de susto?

— Parece que alguém acordou de mau humor — sussurrou Bianca no ouvido de minha mãe — Não que isso seja novidade.

— Não estou de mau humor — rebati — Só estou assustada.

 Meu pai riu e colocou o bolo em cima de minha mesa de cabeceira.

— Sei que está cedo, mas parabéns adiantado, minha filha — falou beijando minha cabeça — Que se iniciem as comemorações.

— Até quando vocês vão continuar com essa coisa de véspera de aniversário? — questionei irritada — Não sou mais criança!

— Noel! — exclamou minha mãe — Fazer aniversário no Natal é algo que acontece com poucas pessoas e devemos comemorar da maneira exata.

 Noel, esse foi o “magnífico” nome que meus pais deram para mim, graças ao bendito feriado, um nome terrível para uma garota.

— Ótimo! — falei rispidamente — Mandaram muito bem na surpresa, nota dez!

 Minha mãe suspirou fundo e encarou meu pai e Bianca. 

— Vocês podem nos deixar sozinhas? — perguntou — Precisamos conversar.

— É claro, amor — respondeu meu pai — Vamos, Bianca.

 Os dois deixaram o quarto e notei minha irmã sussurrando um “se ferrou, Noel”. Revirei os olhos e me preparei para o longo discurso  de dona Catarina sobre minhas atitudes.

— O que deu em você, filha?

 Balancei os ombros como resposta.

— É a viagem — falou — Não é?

 Há uma semana alguns de meus amigos haviam se reunido para passarem o Natal em uma casa de praia em Copacabana. Tudo estava planejado para que eu fosse também, até na hora do veredito final, que meus pais desaprovaram o passeio. E enquanto meus amigos aproveitavam o calor e as águas salgadas do Rio de Janeiro eu estava aqui, de cara amarrada no cafundó do Judas.

— Vocês foram injustos comigo! — protestou — Todos meus amigos foram e só eu fiquei trancada dentro de casa.

— Você não é todo mundo! — falou — Sua família toda vai vir aqui para casa hoje para te ver e passar a véspera de Natal conosco e você querendo sair, esqueceu da tradição?

 Ah, a velha tradição de Natal. Desde que eu me conhecia por gente, minha família sempre se reuniu para comemorar o Natal juntos. Algo que vem sendo realizado desde que meu avô Pedro, pai de minha mãe, era criança e fez questão de continuar seguindo essa tradição, com um pequeno jantar com os filhos, genros e noras, até meu nascimento, quando o Natal se tornou um grande evento no ano.

— Como eu poderia esquecer? — murmurei — Só queria que o meu Natal fosse diferente esse ano.

 Minha mãe apoiou sua mão sobre a minha.

— Quem sabe ano que vem?

— Você fala isso todo ano — resmunguei — Só espero que o tio Gabriel não faça a estúpida piada do pavê!

— Pobre Gabriel! — defendeu —  Que ódio gratuito!

— Isso não é ódio gratuito — bufei — Só estou falando que essa piada já está mais que ultrapassada.

 Minha mãe se levantou da cama, pegando o bolo em cima da mesa de cabeceira e saindo.

— Levanta logo e se troca, minha mal-humorada favorita — gritou — O dia hoje é longo.

Enfiei minha cabeça por baixo do travesseiro, cochichando um palavrão e me recompus, preparada para o longo e entediante dia que viria acontecer.

Ao levantar, reparei em um vestido vermelho com várias renas estampadas ao seu redor. Revirei os olhos só de imaginar vestir aquele vestido à noite.

 Após me trocar, vestindo uma camiseta azul e uma bermuda jeans picotada, fui para a cozinha onde o cheiro das famosas rabanadas de chocolate dominavam todo o local. Encontrei minha mãe vestida com um avental por cima de sua roupa e misturando algo em uma tigela, enquanto meu pai e  Bianca terminavam de decorar a cozinha.

— Parece que a onça levantou — provocou Bianca.

— Que graça — respondi ironicamente — Podemos partir esse bolo?

 Minha mãe negou com a cabeça.

— Ainda não — disse — Temos que esperar Samuel chegar.

— Vocês chamaram aquele garoto?

 Samuel da Silva, o garoto mais nerd que eu conhecia em toda face da Terra, que vivia no mundo da Lua e era motivo de piada por todos onde estudo. Nada contra o rapaz, mas se alguém desconfiasse que ele apareceu, até mesmo no portão de minha casa, eu viraria motivo de chacota e piada dos meus amigos por um bom tempo.

— Sim — confirmou — Ideia de Bianca.

 Olhei para a garota com cara feia, ela me respondeu a expressão com uma piscadela.

— Ele não pode entrar aqui.

 Meu pai me encarou confuso.

— Por que não?

— Porque se alguém da escola desconfiar que Samuel esteve aqui em casa, será o fim da minha reputação.

— Minha filha, tratar alguém bem e ser amigo dela, não destrói a reputação de ninguém — afirmou. — O que realmente está acontecendo aqui é a vergonha que você sente dele.

— Finalmente alguém me compreendeu.

— Na verdade, não — completou. — Samuel é um bom menino e não merece ser destratado dessa maneira.

— Quer dizer que vocês não vão mudar de ideia?

Meu pai apenas negou com a cabeça como resposta. Bufei e saí para sala, onde a TV estava ligada e passava a propaganda de fim de ano da Globo pela milionésima vez, desliguei o aparelho e peguei meu telefone. Entrei no Instagram e vi as fotos de meus amigos felizes e bronzeados no Calçadão de Copacabana. Como queria estar lá, me divertindo com aquelas pessoas, conversando coisas aleatórias e tostando meu corpo no sol carioca. 

Meus pensamentos são interrompidos quando escutei a campainha tocar e meu pai gritou da cozinha:

— Recepcione a visita, filha!

Respirei fundo e fui até a varanda, encontrando Samuel com um embrulho nos braços. O garoto, como sempre usava uma blusa preta, calças jeans e seu óculos fundo de garrafa. Ao me ver, Samuel sorriu ajeitando sua postura e suas vestimentas.

— Olá, Samuel — cumprimentei —  O que deseja?

— Oi, Noel! — respondeu — Em primeiro lugar, feliz aniversário.

 Apenas dei um sorriso amarelo como resposta.

— Eu trouxe essa lembrancinha para você! — disse me entregando o pacote em suas mãos. — Não sei se você vai gostar.

 Olhei para o presente em minhas mãos, não pude deixar de notar o papel colorido e surrado que o encobria. Curiosa, abri no mesmo instante.

— Um livro! — falei debochada  — Que presente incrível!

 Samuel sorriu de orelha a orelha.

— Fico muito feliz que tenha gostado.

— Então, aceita entrar? — perguntei. — Sei que Bianca lhe convidou para tomar café da manhã.

 O garoto apenas assentiu e o conduzi até a cozinha, onde meus pais o recepcionaram com muita alegria.

— Até que enfim apareceu, Samuel — falou minha mãe o abraçando. — Achei que nem viria mais.

Quem dera, pensei.

— Estava esperando minha mãe acordar — explicou — Ela odeia que eu saía sem avisar.

— Como ela está? — perguntou — Faz bastante tempo que não vejo dona Janete.

— Vai indo — respondeu  — Minha mãe anda um pouco triste ultimamente.

 Pude perceber que, ao falar aquilo, os olhos sempre alegres de Samuel pareceram entristecer. Não sabia muito sobre a vida do garoto, apenas do acidente que havia resultado a morte de seu pai.

— Coitada — falou — Vocês têm algum lugar para ir hoje à noite?

— Na verdade, não — confessou — Feriados assim minha mãe e eu passamos sozinhos.

— Pois muito bem, dessa vez vocês vão passar o Natal aqui em casa! — anunciou minha mãe. – Quando chegar em casa, avise sua mãe.

—  Não queremos perturbar vocês.

— Perturbar não sei como! — disse — Aqui é igual coração de mãe, todo mundo é bom-vindo!

Observei a cena boquiaberta, não estava acreditando que passaria o Natal e o meu aniversário junto com Samuel.

— Tá pensando em que, Noel? — perguntou Bianca — Quando você fica mais de dois minutos sem reclamar,  é porque tem algo de errado.

— Falar o quê? — cruzei os braços irritada, — Não enche.

Bianca revirou os olhos. Minha irmã era do tipo que fazia de tudo para me irritar, o que era uma coisa fácil de ser feita.

 — Isso não é hora de briga, meninas! — interviu meu pai — Vamos logo partir esse bolo!

Minha mãe arrumou os pratinhos na mesa e cortou o bolo, colocando um pedaço em cada lugar. Observei a fatia na minha frente sem muita empolgação. O mesmo tipo de bolo de todas as “vésperas de aniversário”, chocolate com recheio de brigadeiro.

— Por que vocês nunca mudam o sabor do bolo? — perguntei e os meus pais se entreolharam confusos — Poderia ser, sei lá, de abacaxi, coco, algo diferente.

— Sempre achamos que você adorava esse bolo, por isso é este todo ano.

— Noel está apenas sendo dramática — começou Bianca — Ela só está nervosa por não estar na praia com amigos.

Bati minha mão com força na mesa, enraivada.

— Cale sua boca, pirralha! — gritei — Pare de encher a droga da minha paciência.

Me levantei da mesa e saí para a parte de fora da casa, ignorando os gritos atrás de mim. Coloquei os fones de ouvido no meu celular, e liguei uma música aleatória no volume mais alto possível. Estava cansada das provocações de Bianca, das mesmas comemorações de todos anos, de sempre ficar trancada em uma caixinha.

Refugiei-me sentando em um degrau de uma antiga casa, em frente a praça da cidade. Enquanto o som do fone impedia que o barulho ao meu redor chegasse aos meus ouvidos, observei as decorações daquele lugar. Mas o que chamava mais atenção era um Papai Noel no seu trenó, em cima de uma grande árvore de Natal. O bondoso São Nicolau, que viajava em um trenó guiado por renas, presenteando as crianças de todo o mundo. 

Durante toda minha infância, eu acreditei nessa historinha até que, aos meus nove anos, tomei um banho de água fria. Ao me ver escrevendo uma cartinha para o amado velhinho, uma professora desmentiu a lenda. “Papai Noel é apenas um ser imaginário que criaram para ganhar dinheiro”, essa frase sempre retornava ao meu consciente toda vez que essa época chegava. Talvez seja por isso que eu seja assim: a garota sem espírito Natalino.

Após um tempo, fui surpreendida com alguém que se sentou ao meu lado e cutucou minhas costas. Nem precisei me virar para saber quem era.

— Samuel! — disse tirando um dos fones de ouvidos. — Há quanto tempo está aqui?

— Tempo suficiente para saber que você está ouvindo Lady Gaga!

Revirei os olhos.

— Como você soube que eu estava aqui?

— Esse é o lugar mais óbvio que você viria — afirmou — Pois não há muitos lugares para fugir aqui.

Suspirei.

— Droga — murmurei — Esse é um dos lados ruins de morar em uma cidadezinha no interior, nem uma fuga dramática a gente consegue fazer.

Samuel sorriu e olhou em direção à árvore de Natal.

— Posso te fazer uma pergunta?

— Já está fazendo.

O garoto riu.

— É sério!

— Está esperando o que, então? — perguntei — Pode falar.

— Por que você está nervosa com seus pais?

Hesitei por um minuto.

— Não é da sua conta. 

— É sério! — insistiu Samuel — Talvez eu possa te ajudar.

— Vai me levar para o Rio de Janeiro em sua cacunda? — questionei sem paciência — Se for esse tipo de ajuda que estiver oferecendo.

— Você está revoltada apenas por não ter ido viajar?

— Não é só isso — falei e o rapaz ao meu lado me encarou — Eu só queria ter um Natal diferente esse ano.

 Samuel levantou animado.

— Por que não falou isso antes?

— Por que você é esquisito?

O garoto entortou os olhos, tirando seu celular do bolso.

— Você pode participar das minhas atividades pré-Natalinas!

— Como?

— Todo ano eu faço algumas coisas antes do Natal para já sentir o espírito natalino em mim. — explicou— E você pode participar também, é claro, se quiser.

Até que não era uma má ideia, tirando o fato de ficar com Samuel ao meu lado praticamente o dia todo, porém era uma excelente forma de ficar longe das provocações de Bianca por um tempo, além de sair fora das tarefas que teria que cumprir se estivesse em casa.

— Estou dentro — disse apertando a mão de Samuel. — Só vou mandar uma mensagem avisando meus pais.

Digitei uma breve mensagem, que foi respondida rapidamente com um “ Ok, divirta-se” e um emoji de beijinho. Me surpreendi por nenhum dos dois terem colocado obstáculos.

— E aí? — perguntou o garoto.

— Meus pais liberaram — falei — Agora me diga, qual é o primeiro item da sua lista?

 Samuel olhou no telefone.

— Iremos fazer bengalas de Natal! — disse empolgado — Mas primeiro teremos que ir à mercearia  do senhor Chico comprar algumas coisinhas.

Assenti me levantando, até que lembrei de algo.

— Só mais uma coisinha — comecei — Passar o dia com você não significa que sou sua amiga.

— Mas é claro — afirmou — Vamos?

Assenti e o segui, observando sua forma de descer os degraus das escadas, como se estivesse protagonizando um musical. Me levantei, coloquei meus fones de ouvidos e deixei que a voz de Lady Gaga quase estourasse meus tímpanos.

Ao chegarmos na mercearia, Samuel pegou uma cestinha e fomos até a única prateleira do local, toda enfeitada de pisca-piscas e festões com laços vermelhos. O garoto pegou açúcar refinado, farinha de trigo, chocolate e uma gelatina de morango.

— Na falta de corante, usamos gelatina — brincou e olhei confusa — Daqui a pouco você vai entender.

Logo depois foi ao freezer e pegou uma manteiga, indo ao caixa logo em seguida, sendo recepcionado por um senhor de barba comprida, que sorriu ao vê-lo.

— Samuel! — exclamou o homem — Parece que está bem acompanhado hoje, com uma bela dama!

— Senhor Juca — cumprimentou — Essa é Noel, ela é minha…

Revirei os olhos.

— Colega — completei — Não somos nada além de colegas, cadê o senhor Chico?

Juca ergueu uma sobrancelha.

— Chico saiu para comprar um presente para sua amada — respondeu — O pobre coitado anda com a cabeça tão quente, que esqueceu que hoje a noite vai sair com a namorada.

Após pagar os produtos, peguei uma das sacolas e fomos para a casa de Samuel com o silêncio pairando entre nós novamente. Em poucos instantes, estávamos em frente a uma casa azul, toda enfeitada,  com um Papai Noel subindo uma escada, enquanto rebolava sua bunda.

Samuel abriu  o portão do local e me encarou.

— Queria te avisar que aqui não é nenhuma mansão, assim como sua casa. 

— Eu não vim aqui para julgar sua casa. 

O segui até a cozinha, lá encontramos uma mulher de cabelos grisalhos, amarrados em um coque e óculos parecidos com os do garoto. Ela tricotava o que parecia ser uma meia colorida. 

— Mãe, temos visita hoje — anunciou Samuel.

A senhora deixou a atenção do tricô ao me ver e logo veio na minha direção, segurando minhas mãos.

— Noel! — exclamou e quase me sufocou em um abraço — Como você cresceu menina, pelo jeito eu vou ter que aceitar minha velhice.

— É muito bom ver a senhora novamente, dona …

— Janete — acrescentou — E dona Catarina e o senhor Maurício, como estão?

— Melhor impossível — garanti.

— E a que devo o prazer dessa visita?

— Noel vai passar o dia conosco — interrompeu Samuel — Vamos fazer bengalas natalinas.

— Que legal — respondeu empolgada — Vocês podem utilizar a cozinha à vontade, eu vou ajeitar umas coisinhas no meu quarto para a visita no abrigo dos idosos mais tarde.

Samuel assentiu e a mulher deixou a cozinha.

— Então — falei. —, vamos fazer essas bengalas ou não?

— Mão na massa — disse, arregaçando as mangas — Vou pegar uma tigela e os ovos.

O garoto pegou dois ovos na geladeira, uma tigela vermelha, enfeitada por desenhos de árvores de Natal, e juntou alguns ingredientes:  farinha,  ovos, manteiga e misturou tudo.

— Você sabe a receita de cabeça? — questionei.

— Assisti a ela umas vinte vezes no YouTube — certificou — Mas preciso confessar que anotei um pouco da receita na mão.

Ergui uma das sobrancelhas.

— Muito bem, o que você quer que eu faça?

— Você pode ir misturando essa massa para mim enquanto eu diluo a gelatina para usarmos como corante.

 Olhei para ele confusa.

— Você tem certeza que vai dar certo?

O garoto deu de ombros.

— Vamos ter que tentar — afirmou.

Misturei a massa por um tempo, até Samuel trazer uma outra tigela e dividir o conteúdo ao meio.

— Agora é hora de colorir uma parte dessa massa.

O garoto colocou a gelatina, agora diluída em um pouco de água, e misturou, fazendo com que a massa ficasse vermelha.

— Parece que deu certo.

Samuel comemorou batendo as mãos.

— Eu te falei — disse empolgado — Uma estátua minha, por favor.

— Não mesmo — respondi — Vamos ver se vai ficar gostoso.

 — Provavelmente.

Ajudei Samuel a guardar as massas em plástico filme, e deixamos na geladeira por vinte minutos. Enquanto isso, nos sentamos e notei que o garoto me encarava, retribuí o olhar, fazendo com que seu rosto ficasse todo vermelho.

— E depois, o que vamos fazer? — questionei.

— Não posso acabar com as surpresas.

Revirei os olhos e Samuel riu.

— Vai valer a pena — afirmou.

Me lembrei de Janete e o que havia dito antes de ir para seu quarto.

— Vocês visitam os idosos na véspera de Natal?

— É uma tradição nossa — esclareceu — Todo ano recolhemos doações para o abrigo.

— Legal! — falei — Isso faz parte da lista que você montou?

— Com toda certeza.

Mantivemos em silêncio por um bom tempo, até Samuel se levantar e retirar a massa da geladeira.

— Está na hora de modelamos os biscoitos — falou, enchendo a mesa de farinha — Observe e faça o mesmo.

Fiquei por um bom tempo reparando o garoto e seu jeito desengonçado de transformar aquela massa em uma bengala. Quem diria, eu me divertindo com quem era considerado a pessoa mais insuportável do mundo.

— Entendeu? 

Samuel perguntou logo após terminar de modelar o biscoito e apenas assenti, me juntando a ele. Cortei os dois tipos de massa, as afinando e logo depois enrolando as duas, até conseguir o formato da bengala, algo um pouco complicado, mas confesso que bem divertido. Finalizamos rapidamente e colocamos os biscoitos para assar.

— E agora, vai me revelar qual é o próximo item da lista?

— Enfeitar a árvore de Natal, mas de uma forma bem peculiar — respondeu — Espere aí que eu vou buscar os materiais que vamos utilizar.

Samuel saiu empolgado para dentro de casa, enquanto continuei sentada esperando que voltasse para a cozinha. Não demorou muito e o garoto trazia vários papéis na cor verde, cortados em círculos, com uma fita brilhante amarrada neles, junto com duas canetas.

— O negócio é o seguinte, nós iremos colocar em cada papelzinho tudo que desejamos para nossas vidas — explanou — Como paz, saúde.

— Uma passagem para Copacabana — acrescentei — Seria ótimo.

— Se é isso que deseja, quem sou eu para te contradizer? — perguntou — Escreva aquilo que seu coração mandar.

Samuel me entregou o papelzinho e uma caneta, mas eu estava cheia de dúvidas. O que desejava para minha vida? Claro que queria paz, saúde e felicidade, mas tinha que existir mais alguma coisa além de tudo isso, algo único, somente meu. Talvez não houvesse respostas adequadas para responder a essas perguntas, e a única forma de descobrir o correto era viver. Não de forma certinha, mas como um pisca-pisca, emanando luz por todos os lugares. Escrevi no papel e entreguei a Samuel, que me olhou confuso.

— Você deseja um pisca-pisca para sua vida?

— Viver como um pisca-pisca, meu caro — falei — Iluminando o mundo ao meu redor.

— Bela filosofia — elogiou — Vai escrever mais alguma coisa?

Pensei por um tempo.

— Aventuras — afirmei —, para brilhar é necessário se aventurar.

Anotei a palavra no papel e acrescentei outras coisas como amor, bênçãos, força, e quando terminei, fui até a sala do edifício e encontrei uma enorme e belíssima árvore de Natal enfeitada por anjos, luminárias e bolas coloridas. Penduramos nossos papéis em seus galhos, sua beleza me fez ficar boquiaberta. 

— Ficou maneiro — falou o garoto e assenti — Parece que os biscoitos estão quase prontos.

O cheiro das bengalas de Natal já pairava no ar, fazendo com que meu estômago roncasse e me lembrei que não havia comido nada até o momento.

— Não sei se é porque estou com fome, mas o cheiro disso está espetacular.

— Está mesmo — afirmou uma voz por trás de mim.

Quando olhei, vi que Janete havia surgido na sala, fantasiada de Mamãe Noel, segurei o riso. A mulher observou a árvore e falou:

 — Gostei do que fizeram na árvore.

— Foi apenas um pequeno retoquezinho. — disse Samuel — A senhora já organizou tudo?

— Sim — comunicou. — Está na hora dos dois se arrumarem para sairmos.

— Eu também? — questionei e a mulher assentiu — Mas eu nem trouxe roupa adequada para isso.

— Isso não é um problema, pois eu tenho um conjunto reserva para essa ocasião — assegurou — É claro, se você quiser ir.

Quando Janete disse que havia roupas sobrando para mim, eu jamais imaginaria que seria uma blusa ciganinha vermelha com pompons brancos, uma calça de couro preta, falsa e um par de botas. Vesti o traje e me olhei no espelho, até que não estava tão horrível como imaginei. Escutei uma batida na porta do quarto de Janete e, ao atendê-la, a mulher entrou me admirando incrédula.

— Você está linda! — confessou — Mas faltam alguns retoques para ficar perfeito.

Janete pegou dois elásticos de cabelo decorado com laços vermelhos, ajeitou minha franja e fez duas marias-chiquinhas. Logo após, colocou um gorro na minha cabeça.

— Agora sim!

Me sentia uma criança naquele penteado, porém não queria chatear a mulher e acabei deixando meu cabelo do jeito que estava. 

Ao sair do quarto, gargalhei da cena que vi, Samuel estava com  uma barba branca falsa, vestido de Papai Noel, e tinha como barriga o que parecia ser várias blusas, emboladas umas nas outras.

— Eu sei, está ridículo — confessou — Mas não é para tanto.

— Ficou excelente — afirmei — Perfeito para as comédias natalinas em que o cara precisa se fantasiar de Papai Noel para agradar os filhos e a esposa.

O garoto ergueu uma das sobrancelhas e me observou. Tentei fingir que não estava notando seu olhar em mim, até que falou:

— Você seria o duende que odeia o Natal, ou alguma coisa do tipo?

 Encarei ele incrédula e nervosa.

— Tá de sacanagem comigo? — pergunto — Eu estava achando que você iria exaltar a minha beleza e você me pergunta se eu sou uma duende malvada?

O garoto riu.

— Achei que nem era preciso — explicou — Você está perfeita.

Não sei o porquê, mas acabei com as bochechas coradas. Mudei de assunto.

— E as bengalas de Natal deram certo? 

— Sim, já ia me esquecendo! — respondeu — E ficaram deliciosas, você tem que experimentar.

Samuel me puxou até a cozinha e me entregou um dos biscoitos ainda quentes. Assoprei antes de comê-lo, e que sabor incrível tinha aquilo.

— Preciso confessar que a gelatina ficou perfeita como corante — falei com a boca cheia — Mandou bem.

— Quem diria, consegui arrancar um elogio de Noel! — exclamou surpreso.

Janete surgiu na cozinha com um saco lotado de presentes, e com uma das mãos, pegou um biscoito e o comeu.

— Isso está muito bom! — elogiou — Mandaram muito bem!

— Obrigado — Samuel e eu respondemos em uníssono e rimos pela coincidência.

— Vamos, então?

Assentimos e a acompanhamos até sua caminhonete, me sentei ao lado do garoto, mas separados pelo saco de presente entre nós.

— Música, por favor! — pediu a mulher — All I Want For Christmas Is You.

Samuel ligou o rádio e em poucos instantes a voz de Mariah Carey dominava todo carro, a velha e mais conhecida canção da cantora, que sempre era descongelada no último mês do ano. Observei a cena ao meu lado, Janete cantando a música em um tom desafinado e no que parecia ser uma língua desconhecida e Samuel coreografando uma dança estranha com as mãos, acabei cedendo um breve sorriso. 

— Acompanhe a gente, Noel! — falou a mulher.

— Não sou boa cantora — afirmei  — Nem boa dançarina.

— Como assim você não é boa cantora? — questionou revoltada — Eu ainda me lembro da apresentação do coral em que você cantou Noite Feliz e foi mágico, uma voz de anjo,  literalmente.

— Isso é coisa do passado — afirmei — Minha voz mudou muito daquele ano para cá, naquela época eu só tinha oito anos.

Os dois começaram a gritar juntos:

— Canta! Canta!

Entortei os olhos, os fechando logo em seguida, respirei fundo e soltei a voz logo em seguida. Cantei com toda entonação possível, tentando não desafinar muito, mas mantive minha visão selada. Não queria saber a reação deles, apenas foquei em minha voz. Após terminar, encarei minhas mãos enquanto Samuel batia palmas e percebi a expressão admirada de Janete ao lhe olhar.

— Não dá para entender — falou — Uma garota que canta maravilhosamente bem, mas que odeia fazer isso.

— Eu não odeio cantar — me defendi — Só não me sinto à vontade com muita gente.

A mulher apenas assentiu e parou o carro em frente ao asilo.

— Chegamos!

Pegamos as coisas e fomos até o portão, onde uma enfermeira nos atendeu com um grande sorriso no rosto.

— Seja bem vinda, Janete — disse — O povo já estava te procurando!

— Eu atrasei um pouquinho porque hoje tenho mais um acompanhante — respondeu apontando para mim — Essa daqui é Noel.

A enfermeira sorriu para mim, apertando minha mão.

— Prazer, Noel — cumprimentou — Sou a Elisa, seja bem-vinda ao nosso Abrigo Amor Sem Fim.

— Obrigada — agradeci.

Seguimos a funcionária do local, até chegarmos a uma grande varanda onde vários idosos estavam reunidos. Alguns conversavam em uma mesa, outros estavam apenas pensativos, até que uma senhora, de cabelos grisalhos e cadeiras de rodas, percebeu nossa presença e gritou empolgada:

— Papai-Noel!

Todos os indivíduos nos encararam empolgados, principalmente para o lado de Samuel. O garoto foi em direção àquelas pessoas abraçando cada um calorosamente, enquanto Janete e eu distribuímos os presentes, até a senhora da cadeira de rodas segurar uma das minhas mãos.

— Olha só, Papai-Noel trouxe mais uma ajudante — certificou — Qual é seu nome, doce jovem?

— Noel — respondi — E qual é o nome da senhora?

— Me chamam de Senhorita B, ou Barbara — falou — E você o que é de Samuel?

Aquela pergunta insolente novamente.

— Conhecida — certifiquei — Apenas isso.

— Samuel é um bom menino — afirmou — Ele sempre nos tratou com muito amor e carinho, ainda não entendi como não conseguiu nenhuma namoradinha.

— É claro, ele é o garoto menos popular da escola.

— Não devemos julgar alguém pela sua popularidade, e sim pelo que é —  manifestou — E é por isso que eu admiro esse garoto. Ele não olha a popularidade, nem a idade para tratar bem alguém.

Olhei para Samuel e percebi o carinho que ele tinha com aqueles idosos. Escutava atentamente o que um senhor lhe falava, logo depois, pediu a benção de uma idosa que tricotava um pano de prato. Não pude evitar a onda de admiração que senti pelo garoto naquele instante.

— Eles amam Samuel — disse Janete ao meu lado — Meu filho é um garoto especial.

Assenti e me sentei ao seu lado conversando com senhorita B e outras mulheres que nos contaram sobre seus Natais passados. Fiquei hipnotizada com a história de cada uma, percebendo que não é necessário ter muito para ter um Natal incrível. Após um tempo, um homem surgiu com um violão em mãos e entregou a Samuel.

— Só falta você tocar para nós, Samuel! — exclamou Barbara — Aquela que nós amamos.

O garoto olhou para mim e já pude decifrar o que seu olhar significava, mas estava tão à vontade que acabei cedendo e me sentando ao seu lado no chão, por cima de vários travesseiros, enquanto as pessoas nos rodeavam.

— Qual é música? — sussurrei 

— A Paz, da banda Roupa Nova — respondeu — Você conhece?

— Mais ou menos — disse — Estou com medo de errar.

O garoto apertou minha mão.

— Eu estou aqui do seu lado para te ajudar — assegurou — Apenas deixe que o espírito natalino invada seu coração.

E foi o que fiz ao fechar meus olhos, assim que Samuel começou a tocar o violão. Deixei que as boas memórias dos Natais passados refletissem como um filme em minha mente e soltei a voz. Cada refrão da música me fazia lembrar de vários momentos incríveis da minha vida, lembrei do primeiro Natal que passei com minha irmã, recordei também dos abraços em dose tripla que minha família me dava toda manhã na véspera de meu aniversário, que graças ao meu mau humor gratuito, havia perdido. Minha mão e a de Samuel ainda estavam entrelaçadas quando terminei de cantar e lágrimas escorriam em meus olhos. Fomos ovacionados por todos ali e percebi que Janete olhava orgulhosa para o filho, o encarei e sorri.

— Mandamos bem — afirmou — Formamos uma boa dupla.

— Não acredito que vou dizer isto, mas tenho que concordar — confessei — Não sabia que você tocava violão.

— Na verdade, quase ninguém sabe — revelou. — Isso acontece quando você é o garoto excluído da escola.

Senti um peso na consciência.

— Me desculpe por ter te tratado mal antes — pedi — Eu sou uma pessoa terrível.

— Tudo bem, Noel — ele me tranquilizou. — Você não é uma pessoa terrível, muito pelo contrário, só foi preciso acender a luz que estava apagada aí no seu coração.

— Meninos, vamos nos despedir porque temos que ir — chamou Janete — Outra hora voltamos novamente.

Me despedi de cada idoso daquele lugar com um abraço apertado e ao chegar em senhora B, lhe disse em seu ouvido:

— Preciso confessar que a minha relação com Samuel subiu de nível, somos amigos agora.

— Por enquanto — analisou — No Natal tudo pode acontecer.

Fiquei atônita.

— Como assim?

— Você vai entender na hora certa — assegurou.

Concordei com a cabeça e segui Janete e seu filho até o portão, onde Elisa abriu para nós e lhe agradecemos. 

— O que você achou, Noel? — perguntou Janete.

— Foi legal — declarei — Obrigada por terem me levado junto.

— Não tem de quê, minha querida — falou — É muito bom ter uma companhia a mais com a gente.

No caminho me lembrei do convite que minha mãe havia feito para o Samuel, e reparei que ele ainda não havia dito nada para sua mãe. 

— Dona Janete — a chamei —, Samuel deve ter esquecido, mas minha mãe convidou vocês para passarem o Natal conosco.

— Oh minha querida, faremos de tudo para ir — disse — O problema é que eu sei que também é seu aniversário, e nós não compramos nenhuma lembrancinha para você.

— Não precisa de lembrancinha não dona Janete, a presença de vocês já é um presente e tanto para mim.

Samuel olhou para mim surpreso, como se eu não fosse a mesma pessoa que ele havia encontrado naquela manhã. E na verdade, até eu não estava me reconhecendo. Estava mais leve e extremamente em paz.

Entramos no carro e fomos embora, conversando coisas aleatórias sobre a vida, até chegarmos novamente na casa deles. Troquei minha roupa, mantendo apenas as marias-chiquinhas. 

— Acho que já vou indo — comuniquei.

— Mas já? — questionou Janete — Espere o almoço!

— A gente nem terminou as atividades pré-natalinas — acrescentou o garoto.

— É que eu preciso fazer algo — expliquei — Uma coisa que eu deveria ter feito hoje cedo.

— Tudo bem então, querida — falou — Nos vemos mais tarde.

— Eu vou junto com Noel até perto da casa dela — avisou Samuel — Se a senhora deixar.

— Pode ir sim, meu filho — confirmou — Mas não demore muito, está bem?

Samuel assentiu e me acompanhou, até que quebrei o silêncio que pairava sobre nós.

— Foi uma manhã incrível, Samuel — falei — Muito obrigado.

— Na verdade tem mais algumas coisas — revelou — Conversamos sobre isso à noite, pode ser?

— É claro — afirmei — Conto com a sua presença e de sua mãe hoje!

Me despedi de Samuel com um tímido e atrapalhado aperto de mão, entrei em casa e encontrei meus pais e Bianca reunidos na mesa almoçando.

— Filha, achei que você só chegaria mais tarde — falou minha mãe.

— É, eu ia vir mais tarde, mas me lembrei de uma coisa — esclareci — Vocês acham mesmo que eu ia passar o dia sem o meu abraço em dose tripla?

Falei isso e meus pais se entreolharam, antes de me enlaçarem em seus braços. Minha irmã ficou nos encarando e eu a chamei. Bianca relutou por um tempo, mas no fim acabou se juntando ao abraço também.

— Eu amo muito vocês — manifestei enquanto breves lágrimas desciam em meu rosto — Me desculpe pelo que fiz hoje cedo.

— Eu realmente não estou te reconhecendo, Noel — expôs Bianca — O que deu em você?

Dei de ombros e minha mãe notou meu penteado.

— Que visual é esse, Noel? — perguntou — Gostei.

— Dona Janete que fez. — disse — Fomos visitar os idosos hoje.

— Que bom, filha.

Me juntei a minha família e almocei. Falei sobre o passeio, e todos se entreolharam admirados quando contei a respeito do dueto com Samuel.

— Você está cantando? — questionou meu pai, encantado — Que benção.

Depois que terminamos de comer, passamos o resto da tarde arrumando as  coisas para a ceia de Natal. Ajeitei as decorações e ajudei minha mãe a preparar as refeições. Depois de tudo pronto, tomei um banho, coloquei o vestido vermelho e percebi que ficou incrível em mim. Ajeitei meus cabelos fazendo um coque, deixei apenas algumas mechas de cabelo soltas, coloquei um par de brincos com formatos de bonecos de neve e me maquiei, passando um batom vermelho nos lábios e um pouco de rímel nos olhos. Ao sair do banheiro, encontrei minha mãe, que me olhou dos pés a cabeça emocionada.

— Você está linda filha! — disse com  os olhos marejados — O tempo passou rápido, parece que foi ontem que você cabia nos meus braços, e agora se tornou essa moça maravilhosa que é.

— Eu te amo tanto, mãe — declarei — Obrigado por tudo.

— Na verdade sou eu que tenho que agradecer — assegurou — Por ter sido o melhor presente de Natal que já ganhei na vida.

Lhe abracei e ficamos ali por um tempo, até que tio Bernardo, junto com tia Natasha e minha prima Bruna, chegaram. Foram nossos primeiros convidados, mas não demorou muito e a casa já estava lotada. Cumprimentei a todos com um abraço, mas os convidados mais importantes ainda não haviam chegado. Será que Janete e Samuel haviam desistido?

Já eram onze e quarenta da noite e eu estava conversando com Bruna, quando meu coração foi até a boca após ver Janete chegar sozinha. Fui até ela, que me abraçou e entregou um papel dobrado sussurrando em meu ouvido:

— Samuel me pediu para entregar isso.

“Terraço da minha casa”

— Preciso sair! — anunciei.

— Mas Noel, e o amigo-oculto? — perguntou Bianca.

Chamei Janete e lhe disse o nome de que eu havia tirado, depois avisei meus pais para que entregassem o presente. Em seguida, não me importei com que falavam atrás de mim, apenas corri. Ao chegar em sua casa, vi a escadaria que dava até o terraço e subi. Chegando lá, encontrei Samuel sentado em uma cadeira de frente para a praça. As luzes dos pisca-piscas iluminavam seu rosto levemente. Ao me ver, seus olhos cintilaram.

— Você veio.

— Não sei se cheguei na hora certa.

— Dez para meia noite — esclareceu — Chegou na hora perfeita, sente-se.

Me sentei e contemplei admirada a beleza diante dos meus olhos, a árvore de Natal da praça cintilava, junto das outras casas enfeitadas.

— Que visão mais linda — falei admirada.

Samuel demorou a responder.

— Meu pai adorava ficar aqui observando as luzes — cochichou. — Ele amava o Natal.

— Sinto muito — tentei o consolar — Deve ser difícil para você e sua mãe.

— Um pouco, às vezes — afirmou — Mas tenho feito de tudo para agradar minha mãe, para que a dor dela amenize, mas é tão complicado.

Segurei a mão dele.

— Ei! — chamei — Sua mãe tem muito orgulho de você!

Peguei meu telefone, ligando a música Underneath The Christmas Lights, da cantora Sia,  deixei o aparelho em cima de minha cadeira e levantei, puxando Samuel.

— Você já me surpreendeu mostrando ser um bom cozinheiro e violista,  agora quero ver se sabe dançar — desafiei — Aceita?

— Claro.

O garoto se levantou, colocou suas mãos na minha cintura e eu pus as minhas em seus ombros. Nossas testas coladas, enquanto nos movíamos lentamente, seguindo o ritmo da música.

Tudo havia mudado entre Samuel e eu desde aquela manhã. Não queria mais afastá-lo e rir da cara daquele garoto, muito pelo contrário, queria beijá-lo e o abraçá-lo de forma que nunca mais fugíssemos um do outro. Acariciei seu rosto e  disse:

— Você é tudo que preciso essa noite.

O garoto sorriu e o beijei. Samuel se surpreendeu, mas retribuiu o gesto apertando um pouco mais minha cintura e eu lhe abracei pelo pescoço. A voz de Sia e tudo ao meu redor havia se silenciado, sobrando somente o som da nossa respiração ofegante e do coração acelerado de Samuel. Nos beijamos por um bom tempo, até escutarmos sons de fogos de artifício e, é claro, sabíamos o que aquilo significava.

— Feliz Natal, Noel! — disse — E feliz aniversário!

— Feliz Natal, Samuel! 

Tulipa Editora

Comments 10

  1. Parabéns Marcos Vinicius! Você é espetacular! Tem futuro como escritor, não desista,escreva sempre!!

  2. Que história atraente. Meus parabéns, Marcos! Continue desenvolvendo sua capacidade de escrita, produzirá textos ainda melhores.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *