Desejo de Natal – Paula Marques Ribeiro Albertão

A gente sempre espera que o amor apareça de uma troca de olhares, um suspiro e uma cena de filme, né? Mas nem sempre é o que acontece! E, quando a gente menos espera, o sentimento brota e dá todo o significado que procuramos para as nossas vidas.

A Paula Marques Ribeiro Albertão trouxe essa lindeza em forma de conto, pra alegrar nossa noite de sexta!

Todo Natal, me sentava na minha velha poltrona, presente do meu filho mais velho em uma celebração passada, e observava a animação dos meus três netos abrindo seus presentes, sentados ao redor da nossa árvore, enquanto o resto da família conversava.

Não sentia  necessidade de ganhar  presentes e todos os anos precisava reafirmar isso para meus filhos. Eu tive um único desejo de Natal, muitos anos atrás, e sentia como se tivesse tirado a sorte tão grande, que já fui presenteado até o fim da minha vida.

**

Eu costumava ser um garoto comum, numa casa normal, que ia para a escola a pé e voltava para casa sozinho. Passava as tardes assistindo filmes deitado no sofá ou lendo um livro em qualquer canto da casa em silêncio.

Foi quando o silêncio da casa deu lugar para discussões constantes que minha vida começou a ser caótica. Eu era muito novo para entender, mas as brigas dos meus pais eram dramáticas a ponto de meu pai passar várias noites fora de casa, o que me deixava angustiado e isolado, sem coragem de interromper o choro escondido da minha mãe para tentar entender o que realmente acontecia.

Não demorou muito tempo para eu me ver dentro de um ônibus segurando a mão do meu irmão mais novo, ainda mais confuso do que eu, enquanto nossa mãe organizava nossa bagagem como podia com os olhos inchados.

Chegar numa nova cidade foi assustador, principalmente a parte de ir para a escola sem que eu conhecesse qualquer pessoa, mas houve um garoto que deixou a minha vida muito mais simples e ajudou a me adaptar muito mais rápido do que eu imaginava.

Eduardo era muito simpático e bem extrovertido, do tipo que se dava bem com as pessoas facilmente. Ele sentou ao meu lado, me ajudou a conseguir acompanhar as matérias que já estavam sendo dadas e ainda me chamava para ir na sua casa quase todos os dias.

E eu, que era um garoto quieto e sem muitos amigos, acabei me encaixando bem no papel de ser seu parceiro. Isso me garantiu alguns benefícios conforme fomos crescendo, e eu sabia que algumas pessoas me toleravam porque eu era o melhor amigo de Eduardo.

Seguimos inseparáveis até o fim da escola, quando comecei a trabalhar para ajudar em casa e Eduardo foi fazer faculdade na cidade vizinha. Mesmo assim nosso laço não se rompeu, e todo final de semana estávamos juntos como se nada tivesse mudado.

Nossas famílias não tinham muito contato. Os pais de Eduardo sempre me trataram super bem, e a minha mãe sempre o tratou do mesmo modo, mas eram realidades muito diferentes as que nos encaravam no dia a dia. A vida deles era muito fácil quando comparada à nossa, e isso às vezes preocupava minha mãe.

Foi no Natal do ano em que completei dezoito anos que minha mãe anunciou que estávamos indo embora novamente. Dessa vez ela queria ir para outro estado para morar perto de sua família, de quem sentia muita falta, principalmente depois da separação do meu pai.

Sentado lado a lado com meu irmão, senti uma coisa que não tinha sentido da outra vez, eu iria perder algo que era extremamente valioso, e não só porque estar com Eduardo significava que eu podia entrar em locais que não conseguiria, ou ir  a festas das quais eu jamais seria convidado, mas sim porque eu não queria perder a amizade dele.

Naquela noite fiquei sentado ao lado da nossa árvore de Natal até bem depois dos outros irem dormir. Contemplei as luzes fazendo sombras na parede da sala escura enquanto sentia um aperto no peito e decidi telefonar para ele.

Pude ouvir os sons da festa ao fundo e Eduardo parecia muito feliz com a sua comemoração, mas não fez perguntas e  não hesitou em vir até mim quando eu disse que precisava conversar seriamente com ele.

Sentamos do lado de fora da casa, contemplando a decoração natalina dos vizinhos, contei a ele o que estava prestes a acontecer. Conforme falava, comecei a me sentir meio infantil e terminei a narrativa num tom mais baixo, imaginando se ele acharia bobagem eu estar chateado por ir embora.

— Fica — disse ele, no entanto, me olhando fixamente.

— Ficar? — me espantei, a ideia não tinha me ocorrido até então, como se eu não tivesse opção.

— Você é maior de idade agora, Leonardo — Eduardo se levantou energicamente — Você tem um emprego.

Tecnicamente era tudo verdade. Eu era maior de idade e tinha um emprego. Mas não sabia cozinhar muito bem e meus cuidados com a casa eram duvidosos, e meu emprego — como vendedor numa loja de eletrodomésticos — era praticamente o valor do aluguel.

Mesmo assim, no dia seguinte quando minha mãe levantou, me encontrou comendo panetone com Eduardo na cozinha. Seus olhos nos miraram com desconfiança e enquanto eu estava suando de apreensão, ele estava completamente relaxado ao meu lado.

Foi a maior briga que tivemos na vida. Eduardo se refugiou no quarto do meu irmão, que estava um pouco assustado com tudo aquilo, enquanto minha mãe dizia que não fazia sentido algum eu ficar para trás sem ter nada.

O jeito como ela disse que eu não tinha nada me deixou absurdamente indignado,  e comecei a enumerar os lugares que frequentava com um orgulho fora do comum. Quando ela rebateu me dizendo que eu só tinha aquela vida por causa de Eduardo me revoltei, justamente porque era verdade, mas eu não queria admitir.

Pouco depois saímos juntos da casa, eu fiquei com raiva e ele com aquele jeito relaxado, mesmo que seus olhos demonstrassem um pouco de preocupação. Andamos no seu carro pela cidade, em silêncio. A diferença entre nós dois pesando pela primeira vez em tantos anos.

— Não me importo com as coisas que sua mãe disse — Leonardo disse minutos depois, uma mão no volante e a outra saindo pela janela — Eu não deixaria você passar aperto, você sabe.

— Eu sei — confirmei baixo.

— Além disso, eu acho que você é capaz do que quiser — ele deu de ombros, ainda sem me olhar diretamente.

Depois disso, como se o assunto estivesse decidido, fomos tomar um café especial de Natal na cafeteria mais movimentada da cidade, e afastei todas as inseguranças. O lugar estava cheio de grupinhos de pessoas da nossa idade.

Eduardo  chamava a atenção, as meninas soltavam risinhos ao passar ao seu lado e cochichavam lançando olhares. Ele adorava essa atenção, já tinha tido uma porção de namoradinhas na escola e com certeza deveria ter na faculdade, mas nunca comentava sobre esse assunto.

Quando finalmente voltei para a casa, minha mãe e meu irmão estavam sentados na sala, a árvore de Natal apagada e o clima natalino se esvaindo completamente. Ela estava triste comigo, pela minha reação e comportamento, e ao mesmo tempo sentindo que alguma coisa importante havia finalizado.

Eu também sentia um pouco de tudo isso, mas nada que me fizesse mudar de ideia. Aquele era meu lugar e eu não iria embora para começar do zero de novo, e mais uma vez insisti nisso, agora com a voz controlada, sentado no chão de frente para os dois.

Sendo assim, pouco mais de um mês depois eu estava parado na rodoviária, acenando para o ônibus que sumia na rua. Com uma agitação no estômago, permaneci ali, bem depois dele ter virado a esquina, sentindo pela primeira vez a realidade de estar sozinho.  A única coisa que minha mãe tinha me pedido, depois de perceber que eu não iria desistir, foi a promessa de que iria passar todo Natal junto deles. Não foi uma coisa difícil de prometer, uma viagem seria bem-vinda no final do ano, o que eu não queria era a permanência.

O início da vida sozinho foi bem difícil. Com Eduardo passando a semana na faculdade, minha rotina se baseava em casa e trabalho, com algumas ligações chorosas da minha mãe e de Eduardo quase sempre com barulho de festa ao fundo.

O primeiro ano foi o que mais passei dificuldade com o dinheiro curto. Várias vezes Eduardo apareceu com marmitas congeladas sem que eu pedisse, provavelmente das que a mãe dele mandava ele levar para a faculdade, e me dizia que tinha coisas demais para comer e que, às vezes, acabava comendo na casa de outra pessoa. 

No final do ano, quando sentei no ônibus para enfrentar uma viagem de muitas horas até minha mãe, jurei que não deixaria transparecer o quanto tinha me sentido sozinho.

Estando entre a família, deixei me levar pela alegria do Natal, comendo coisas que só minha vó poderia fazer, e deixei de lado sem dificuldade os sentimentos ruins. Era muito bom estar ali, mas não o suficiente para me fazer querer  ficar para sempre.

Com o tempo, comecei a me acostumar com o dia a dia , as longas horas solitárias e as ligações da minha mãe pararam de ser regadas a  lágrimas. Minha rotina começou a se estabelecer, aprendi a deixar a casa num estado habitável e parei de queimar a comida toda vez que cozinhava.

As coisas começaram a melhorar quando comecei a ter algumas promoções no trabalho e passei a ganhar mais, o que coincidiu com a formatura do Eduardo e sua volta para a cidade.

Nosso cotidiano  voltou facilmente ao que era, vivíamos grudados por todo canto da cidade, com exceção das horas que passávamos trabalhando — eu correndo na loja para cima e para baixo e Eduardo sentado num escritório da empresa, que pertencia a sua família, cheio de papéis de engenharia que eu nunca poderia explicar para que realmente serviam.

A verdade é que Eduardo nunca se esforçava muito no trabalho, e ninguém cobrava isso dele, era como uma decoração bonita que algum dia herdaria a empresa da família e não faço ideia de como ele conseguiria manter a coisa funcionando se não se importasse muito com nada. Havia sempre alguém  refazendo tudo que ele fazia, e isso nunca o incomodou.

Eu tentava não julgar seu comportamento e não tocar muito no assunto, por mais que aquilo começasse a me soar como uma grande irresponsabilidade naquela época. Mas eu era jovem, com outras preocupações e apenas estava feliz por ter meu amigo comigo todos os dias de novo.

No ano em que completei meus vinte e quatro anos eu estava em casa, montando minha mala para ir até a casa da minha mãe, quando a campainha tocou. Eram mais de nove horas da noite e fui até a porta um pouco surpreso por alguém aparecer.

Eduardo entrou animado e sorridente, e me deu um abraço meio cambaleante, o  que me fez perceber que havia bebido alguma coisa naquela noite. Ainda eram vinte e dois de dezembro e ele já estava comemorando todas as noites como se fosse véspera de Natal e não aparecia no trabalho desde o dia vinte.

Quando pensei em dizer alguma coisa, ele me cortou e disse que havia me trazido um presente, já que nunca mais iriamos passar o Natal juntos, eu não acreditava o quanto aquilo era absurdo numa voz enrolada.

— Mel, pode vir! — ele gritou dando um soco no ar com extrema animação.

A porta da sala se abriu timidamente e uma garota entrou com um embrulho nos braços, o qual não consegui olhar, porque assim que coloquei os olhos nela senti meu coração bater descompassado. Seu cabelo era castanho e comprido, caindo pelos ombros, e os olhos castanhos eram brilhantes e com cílios compridos.

Ela andou até nós dois, a cabeça mais ou menos na altura dos nossos ombros, e sorriu abertamente para mim. Fiquei paralisado e tudo ao meu redor foi varrido da minha mente, até que Eduardo passou o braço ao redor dela e puxou-a para si.

— Seu presente! — exclamou mais uma vez apontando para o embrulho.

Baixei os olhos para o que ela trazia nas mãos. O que eu imaginava ser um embrulho era na verdade um cobertorzinho felpudo de um marrom claro com um gatinho minúsculo dormindo encolhido.

— Esse é o Noel — Eduardo disse naquela sua estranha animação alcoolizada.

A garota me passou o gato, de um branco hipnotizante, e o acomodei sem jeito nos meus braços. Era a coisa mais delicada que eu já havia visto, e tão pequeno que pensei que poderia quebrar se eu não tomasse cuidado.

— Acabamos de encontrá-lo — a garota me disse, sua voz era suave — Eduardo insistiu para…

— Essa é minha namorada! — ele exclamou jogando os braços para cima novamente — Melissa! — apontou para ela como se fosse um apresentador de televisão anunciando alguma celebridade.

Namorada. Aquela garota suave, contrastando com todo aquele comportamento expansivo de Eduardo, era sua namorada. Uma garota da qual eu nunca tinha ouvido falar antes, e que  agora precisava forçar meus olhos para pararem de observá-la. 

Não foi fácil.

Passamos algumas horas sentados no chão da sala, apenas com a luminosidade da árvore de Natal, que eu insistia em montar todos os anos, brincando com o pequeno gato Noel, que começava a explorar sua nova casa.

Eu estava feliz com o animalzinho, mas não conseguia parar de olhar para Mel. Não conseguia parar de observar seus movimentos e a forma como ela sorria. Por que Eduardo nunca tinha me falado sobre ela? Há  quanto tempo estavam juntos?

O Natal daquele ano foi estranho. Enquanto estávamos todos reunidos,  eu com Noel o tempo todo no colo, meus pensamentos voltavam para aquele instante em que vi Mel pela primeira vez, e nas horas que passamos os três juntos conversando sobre nada de muito útil.

Depois disso, as coisas nunca mais foram as mesmas. Eduardo tinha o mesmo comportamento com Mel que tinha comigo, a arrastava para todo canto que tivesse vontade, então sempre acabávamos os três juntos o tempo todo.

Mel não era como Eduardo. Ela era mais introvertida, preferia lugares mais tranquilos e com menos pessoas e, frequentemente, acabava exausta encostada num canto esperando o namorado.

Eduardo não percebia isso, estava muito concentrado em si mesmo para notar as coisas que aconteciam ao seu redor. Aproveitava cada saída como se fosse a última de sua vida, como se o tempo fosse curto demais.

Não me aproximei muito no início, me preocupava em como eu sentia o coração acelerar e as mãos suarem toda vez que ela aparecia, mas aos poucos começamos a conversar, enquanto Eduardo curtia a seu modo.

Notei que éramos parecidos e entendi que me sentia assim  por esse motivo. Nossos gostos eram parecidos, o jeito de conversar e, claro, nossa afeição pelo Eduardo. Não havia motivo para não sermos amigos.

Poucos meses depois os problemas começaram. Primeiro comecei a ver ambos de cara fechada quando passavam pela minha casa, Mel se contentava em brincar com Noel em silêncio e Eduardo conversava comigo como se ela não estivesse ali. Depois, algumas discussões pequenas começaram a surgir, até mesmo na minha frente. Me mantive fora do assunto, imaginava que os dois devessem resolver seus próprios problemas sozinhos, mas não entendia porque Mel permanecia naquela relação.

Veja bem, Eduardo era meu amigo, mas tinha comportamentos que eu não concordava. Continuava não levando a sério o trabalho, permanecia muito tempo em festas ou coisas do tipo, e bebia sem controle nessas ocasiões,  o que estava se tornando muito frequente,  e Mel o confrontava sobre isso, querendo que ele fosse uma pessoa mais responsável.

— Ela acha que sou muito imaturo — foram as primeiras palavras sobre o assunto que ele despejou em mim. Seu tom era debochado e meio irritado, como se a reclamação fosse claramente absurda.

— Olha — comecei dizendo com receio —, acho que você poderia levar mais a sério o trabalho e diminuir um pouco essas festas.

— O quê? — o jeito como ele me olhou me deixou apreensivo.

— Não somos mais adolescentes — argumentei cuidadosamente.

Eduardo riu com deboche, depois virou o copo de bebida de uma vez só. Estava com o rosto avermelhado e pensei que talvez não estivesse no melhor estado para ouvir aquelas palavras.

— Leonardo, eu tenho dinheiro — disse alto, fazendo as outras pessoas olharem para nós — Não preciso me matar de trabalhar, aquilo lá já é tudo meu.

— Só estou dizendo que talvez você pudesse ir mais suave, ficar mais com a Mel — ainda assim insisti.

Ele me olhou com raiva, de um jeito que nunca havia me olhado antes, de cima para baixo. O sorriso sumiu do rosto e seus olhos se estreitaram.

— Não me diga o que é certo ou não — sussurrou.

Naquela noite fui embora caminhando, pela primeira vez, impressionado com o pensamento que meu amigo tinha sobre as coisas. Talvez fosse melhor eu deixar que Melissa se resolvesse sozinha com ele, ou que terminasse tudo por conta própria, eu podia apenas piorar tudo.

Decidi agir como se aquela conversa não tivesse existido, mas não cheguei a ter chance. Eduardo não apareceu nos dias seguintes e nem mesmo me atendeu quando telefonei. Orgulhoso como era, devia estar me dando um gelo pelo conselho que tentei dar.

Era dezembro, eu estava me sentindo sozinho pela falta de contato com meus dois amigos, embora isso não me afetasse tanto quanto no início. Me acostumei a andar sozinho pela cidade observando a decoração natalina e as pessoas comprando presentes.

Sentado numa lanchonete simples, com meu café entre as mãos, percebi que talvez fosse a hora de mudar as coisas na minha vida. Talvez fosse a hora de Noel e eu termos uma outra pessoa na família. Eu não queria passar minha vida toda sozinho.

Estava cercado de casais quando esse pensamento me ocorreu, o que pode ter me influenciado, ainda mais com todo aquele clima natalino circulando o ambiente. Mas o primeiro rosto que me veio à mente foi o de Mel e precisei me repreender duramente por isso.

Tive alguns encontros na vida, mas nunca me aproximei demais de ninguém. Nunca quis ter algo que durasse mais do que apenas alguns dias, às vezes apenas um cinema ou algo do tipo, mas agora acreditava estar pronto para isso.

Foi na véspera de Natal que tudo aconteceu.

Eu estava de malas prontas, Noel deitado no meu peito, agora um grande gato gordo e mimado, assistindo coisas aleatórias na televisão da sala escura. Geralmente eu já teria embarcado para a casa da minha mãe, mas naquele dia eu precisei remarcar o ônibus por ter me atrasado ao  sair do trabalho.

A campainha soou com insistência, três vezes seguidas, sem que eu tivesse tempo para me levantar do sofá. Tive esperança de que Eduardo tivesse, finalmente, desistido de me ignorar e estava disposto a seguir em frente com nossa amizade de anos.

Eu não podia estar mais enganado.

Quando abri a porta vi Mel parada ali, com os braços em volta de si e os olhos vermelhos. Parecia muito frágil, como se pudesse se partir em pedaços se não tomasse cuidado, e me olhava como se pedisse ajuda.

Fiquei paralisado de choque. Não sabia o que deveria dizer, se deveria perguntar o motivo dela estar daquele jeito,  — por mais que eu desconfiasse que Eduardo era o responsável. Nós não nos víamos há tanto tempo e nunca estivemos a sós.

— Posso entrar? — me perguntou numa voz baixa e meio rouca.

Balancei a cabeça e dei passagem, ainda incapaz de encontrar palavras. Ela entrou na sala e foi até Noel, que a olhava com atenção sentado no sofá.

Fechei a porta lentamente e me aproximei, observando o jeito gentil com que ela falava com o gato, e esperei que voltasse a me perceber. Eu não falaria  nada, a situação já parecia muito confusa por si só.

Alguns minutos depois, Mel se virou e me encontrou parado no meio da sala. Nos encaramos por algum tempo, sem pressa. Era difícil não a ver como eu tinha visto da primeira vez, mas precisava me lembrar de que ela ainda era namorada de Eduardo.

— Onde… — comecei a perguntar quando percebi que ela não diria nada.

— Não — ela me cortou erguendo a mão no ar, automaticamente colocando a outra mão no peito.

Silenciei. Algo havia acontecido entre os dois, alguma briga maior das que eu já havia presenciado. Nunca tinha visto Mel com essa expressão, com os olhos tão tristes e vermelhos, com um certo ar perdido, como se não soubesse o que deveria fazer.

Ela se sentou no sofá ao lado de Noel, e bateu ao seu lado, como forma de me pedir para sentar ao seu lado. Automaticamente obedeci ao chamado, com a mente ainda muito confusa por esse momento tão inesperado, sentindo meu coração acelerado por ficar tão perto do seu corpo. Continuei mentalizando o tempo todo “ela é a namorada do seu melhor amigo”.

Eu podia sentir o calor que seu corpo emanava, o cheiro suave do seu perfume indo na minha direção conforme seu corpo se movimentava lentamente. Arrisquei olhar para o lado e percebi que ela não mais acariciava o gato, mas sim me olhava com seus grandes olhos brilhantes.

Não sei quem começou, não consigo me lembrar. Não posso nem mesmo dizer se a ideia veio de um de nós ou dos dois. O fato é que, quando dei por mim, estávamos nos beijando profundamente, como se nossas vidas dependessem disso, como se fossemos extremamente necessários um para o outro.

Eu sabia o quanto tinha evitado sentir as coisas que sentia por Mel, o quanto afastava sua imagem da minha cabeça e sempre tentava me manter longe dela. Jamais imaginaria que havia qualquer coisa semelhante a isso na sua mente, mesmo que fosse apenas uma pequena fagulha perto do que eu abafava dentro de mim.

O fato é que naquele momento estava acontecendo alguma coisa e eu não pensei em nada além de nós dois. Por nenhum momento Eduardo passou pela minha cabeça, a culpa que um de nós poderia sentir ou algum tipo de arrependimento. Me agarrei naquele momento com força.

Levantei do sofá levando seu corpo comigo. Fomos tropeçando pela casa escura até meu quarto e deixamos que a situação prosseguisse sem que em nenhum momento algum dos dois hesitasse por um segundo.

A última coisa que me lembro daquela noite foi olhar pela janela aberta, por onde entrava a iluminação das luzes de Natal do vizinho, e pensar que tudo aquilo parecia um sonho. Era como se todos os meus desejos dos Natais passados — que eu nunca fizera porque não acreditava nessas coisas — estivessem se realizando de uma só vez.

A cabeça de Mel pesava no meu peito mostrando que aquilo tudo era real, e seu braço me apertou num abraço apertado, mas não baixei a cabeça para olhá-la uma última vez porque o sono estava me levando para longe.

Quando abri os olhos de novo, vivenciei aquela estranha confusão depois de um sono muito profundo. As cortinas balançavam pela brisa suave, uma fraca luz de sol entrava no quarto e precisei piscar algumas vezes para conseguir me concentrar.

Movi a cabeça e ali estava ela, dormindo tranquilamente com os cabelos espalhados pelo meu travesseiro e com a mão ainda apoiada no meu peito. Tão linda e suave que percebi que estava sorrindo, o meu coração explodindo de alegria por tê-la ali na manhã de Natal.

Instantes depois percebi que a televisão da sala ainda estava ligada, lançando alguns sons baixos e sem sentido até o quarto, e de repente, fui inundado pelas  imagens da noite passada. Mel chegando naquele estado até em casa e…

Meu Deus! O que foi que eu fiz?

Me desvenciliei lentamente do seu corpo e sai da cama com a cabeça explodindo de culpa. Como eu tinha feito isso? Como tinha ignorado Eduardo dessa forma? Como nós dois pudemos fazer isso?

Andei até a sala com a garganta apertada e desliguei a televisão. As luzes da minha árvore ainda piscavam e Noel dormia no sofá no exato lugar que estivera a noite passada. Quase daria para acreditar que nada tinha acontecido se a namorada do meu melhor amigo não estivesse dormindo profundamente no meu quarto.

Fiquei sem reação. Eu deveria acordá-la e falar sobre o assunto? Deveria esperar que ela apenas acordasse e viesse falar comigo? Deveríamos ignorar o assunto e fingir que nada tinha realmente acontecido? Ou eu apenas deveria voltar para o seu lado e não permitir que ela acordasse sozinha depois do que tinha acontecido?

Meu coração queria a última opção, mas eu precisava ser racional. Aquilo tinha sido inconsequente demais. Um impulso apenas? Como Melissa se sentia em relação a mim ou a nós? Existia um nós? Não podia existir um nós porque o nós dela não era comigo, mas sim com Eduardo.

Com a cabeça cheia demais, não escutei nada que me preparasse para a campainha tocando. Ergui a cabeça e encarei a porta como se eu pudesse ter imaginado o som, mas conseguia ver a sombra de uma pessoa andando por baixo da porta.

Me levantei passando a mão no rosto e, sem pensar por um segundo quem estaria por trás daquela porta na manhã de Natal, girei a maçaneta de uma só vez.

— Leonardo — ali estava Eduardo depois de meses de silêncio. Sua aparência estava péssima. A camiseta amassada, os cabelos sem corte, despenteados e um olhar meio desesperado.

Não consegui dizer nada, meu cérebro parecia ter derretido.

— Sei que você não me imaginava aqui tão cedo, mas — ele passou por mim, agitado, passando as mãos pelo rosto repetidamente e pude sentir um pouco de cheiro de bebida no ar. —  Acordei você? — ele me olhou, usando apenas uma calça de pijama.

— Na verdade não… — gaguejei.

— Escuta — ele segurou meus dois braços com as mãos — É a Mel. Nós tivemos uma briguinha e… Não consigo achá-la — concluiu, optando por não contar o que realmente tinha acontecido.

Fiquei parado, apenas imaginando ela dormindo na minha cama.

— Então, você pode me ajudar? — Eduardo insistiu diante da minha inércia.

— Eu… eu não… nós não… — gaguejei gesticulando.

Sempre fui um péssimo mentiroso. Não só por não gostar de inventar histórias ou por não saber mantê-las, mas porque meu corpo parecia incapaz de não me entregar. Era como se tudo em mim gritasse que a história não era verdadeira.

Eduardo ficou quieto por um segundo, nos conhecemos por tempo suficiente para ele conhecer essa minha característica. Pude perceber a mudança dos seus pensamentos, de querer ajuda para desconfiar.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou com a voz mais ríspida, olhando para mim como se estivesse me vendo pela primeira vez de novo naquela manhã.

— Nada, eu… eu… — gaguejei de novo, ainda com a mente na imagem de Mel no quarto.

— Não posso acreditar que você a esteja escondendo — disse com raiva.

Eduardo afundou na casa enquanto eu tentava segurá-lo sem sucesso. Parecia adquirir uma força extra com a raiva que brotava  aos poucos, e estava prestes a explodir a qualquer momento.

Desejei que Mel tivesse acordado, que tivesse se trocado e estivesse apenas sentada na cama ou dentro do banheiro. Eduardo não estava imaginando nada além dela ter se escondido dele na minha casa, por saber que não estávamos nos falando.

Se não desconfiasse, eu não deveria chateá-lo profundamente com o que tinha acontecido, deveria? Ou então talvez pudesse conversar com a cabeça mais tranquila, quando a bebida tivesse saído completamente do organismo? Ou, até mesmo depois de conversar a sós com Mel e saber o sentido de tudo aquilo.

Mas quando chegamos no quarto ela permanecia dormindo tranquilamente enrolada no meu lençol. Tinha se movido suavemente, estava com o rosto virado para a porta e a boca entreaberta.

Por um momento Eduardo ficou parado, em estado de choque. Meu coração começou a bater nos meus ouvidos, gritando que não havia como escapar daquela situação. Quase podia ouvir a explosão prestes a acontecer, bem do meu lado, pronta para me destruir.

— Como você teve coragem? — o grito de Eduardo foi tão alto que Mel deu um pulo na cama, puxando o lençol mais para cima.

Ele saiu do quarto direto para a sala e virou a árvore de Natal no chão. Pedaços de enfeites e luzes se espalharam por todos os lados e Noel saiu correndo para se esconder embaixo da minha cama.

— Você — apontou um dedo na minha direção — Você nunca foi nada — cuspiu as palavras com nojo — Sempre esteve na minha sombra. Nunca teria nada se eu não tivesse dado. Até comida eu te dei — ele empurrou meu peito e cambaleei para trás.

Foi como se um fogo desconhecido brotasse dentro de mim. Pela primeira vez senti raiva do meu melhor amigo.

— Você é um babaca — o empurrei de volta — Um mimado, folgado! Deixa os outros trabalharem e resolverem tudo para você — ele me olhou surpreso — Você nem sabe como deveria tratar a sua namorada.

O primeiro soco veio dele, mas depois nem sei dizer o que aconteceu. Nos embrenhamos em uma briga que só parou quando Melissa estava gritando e chorando ao nosso lado, e fui eu quem se afastou primeiro.

— Por favor — ela pediu com lágrimas escorrendo pelo queixo.

Olhei para ela suplicante, ela precisaria escolher agora. Precisaria se posicionar sobre aquela situação. Mel teria que ir com ele ou ficar comigo. Depois da noite passada não deveria ser uma decisão difícil, a briga deles devia ter sido terrível,  — o relacionamento como um todo na verdade,  e entre nós dois tinha sido tudo perfeito, nos encaixávamos perfeitamente.

Eduardo não estava olhando para ela. Mirava o chão com raiva, enquanto limpava um pouco de sangue do rosto. Como nós dois conseguimos ser amigos por tanto tempo? Em que momento ele tinha se tornado aquela pessoa? Ou fora um longo caminho até ali?

Naquele curto segundo, desejei tão profundamente que ela ficasse que meu peito até doeu. Meu único desejo de Natal da vida, minha maior aposta. Não era possível que ela não sentisse a mesma coisa.

— Qual é? — Eduardo riu sarcasticamente — Uma briga idiota, nós não terminamos de verdade — ele a segurou pelo braço e começou a puxá-la para a porta, quase como se ela fosse mais uma das suas coisas, enquanto me olhava como se eu fosse a pior das pessoas.

Andei atrás deles, decidido a não o deixar tocar nela daquela forma, sua pele estava ganhando um avermelhado com a força que os dedos dele a apertavam. Eu não poderia saber o que ele seria capaz de fazer, nunca o conheceria a fundo de verdade.

— Ninguém nunca vai te querer  — ele me disse na porta, puxando-a atrás de si.

Toquei o outro braço dela com suavidade e ela me olhou. Eu estava decidido a interromper tudo aquilo, tirá-la das mãos dele de qualquer forma, mas queria uma confirmação de sua parte,  — mesmo que uma negativa não fosse me impedir de agir.

— Não! — Mel protestou em meio as lágrimas que desciam sem parar pelo seu rosto.

— Que idiotice você quer agora? — Eduardo explodiu novamente dando um solavanco forte que quase a derrubou.

Me coloquei entre os dois e olhei para sua mão no braço dela.

— Tire a mão dela — ordenei em voz baixa.

Eduardo riu mais uma vez, olhando ao redor como se estivesse perdendo tempo com uma coisa completamente banal.

­— Sai do caminho da minha namorada — ordenou me encarando, deixando o riso morrer repentinamente.

— Não sou sua namorada — escutei Mel dizer enquanto nos encarávamos.

Eduardo pareceu surpreso e irritado ao extremo. Quase esperei que começasse a briga mais uma vez, então o encarei com a mesma seriedade. Eu faria qualquer coisa naquele momento.

— Vocês dois se merecem, dois mortos de fome — finalmente ele a soltou e saiu batendo a porta.

Soltei a respiração aliviado, depois me virei para ela e a abracei forte por um longo tempo. Quando sua respiração se normalizou e as lágrimas secaram, nos afastamos um pouco, apenas o suficiente para podermos olhar nos olhos.

Foi a conversa mais curta, sincera e profunda que eu tive durante toda a minha vida.

**

E depois de cinquenta anos daquele dia, eu a observava  sorrindo, enquanto ela ajudava nosso neto mais novo com o elaborado laço do presente que ela mesma embalou, completamente satisfeito com meu único desejo de Natal.

Tulipa Editora

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